28 fevereiro, 2025

Dona de Casa? Jamais


Meu marido é um homem conservador. Nesse caso é um eufemismo pra antiquado, machista...mas é meu marido, então eu me permito ser um pouco tolerante, fazer "vista grossa". Só um pouco.
Ele ainda acredita que a mulher deve ser a "dona da casa". Isso equivale a dizer que é papel da mulher lavar, passar, limpar, cozinhar, cuidar da educação dos filhos, etc...

Quando me casei contratei uma doméstica e durante esses trinta e tantos anos de casamento ela exerceu o papel da "dona da casa". Há dois anos, a "dona da casa suplente" aposentou e a titular (euzinha) assumi o cargo. Descobri, nesse instante, que meu marido não tinha evoluído e que achava que esse é o papel que me cabe nesse latifúndio. Tentei explicar que isso acontecia quando as mulheres eram sustentadas pelo marido, mas que isso não tem mais cabimento hoje em dia. Sem sucesso.

Resolvi "desenhar" para facilitar o entendimento e falei sobre uma conversa que tive com nossa faxineira Nãna, que é Adventista e, por isso, não come carne de porco. Como aqui em casa comemos muita carne de porco, linguiça de porco, partes do porco no feijão, etc...sempre que ela almoça aqui procuro fazer uma outra carne pra que ela fique em paz com sua crença. Só não falo pra ela que eu uso gordura de porco pra cozinhar e ela come sem saber. Deus há de perdoá-la porque a culpada, nesse caso, sou eu.

-Vilson, você sabe por que a Nãna não come carne de porco?

- Não.

- Porque na Bíblia está escrito que Deus falou a Moisés e a Aarão que os filhos de Israel não podiam comer carne de porco, porque é um animal impuro. Então eu disse pra ela:

- Isso não tem lógica Nâna! A Bíblia também diz que Deus criou todas as coisas, inclusive o porco. Porque ele iria criar um animal impuro? Qual a finalidade disso? Você deveria levar em consideração que Deus nunca veio falar nada pessoalmente ao povo de Israel, mandava seu Porta Voz, como fazem os presidentes da república hoje em dia. Sabe-se lá se Moisés tinha alguma coisa contra o porco, ou algum desafeto seu era dono de uma pocilga?

Ela riu, mas nem analisou a minha teoria. O crente (aquele que crê) não perde tempo com as evidências, lhe basta a fé, tipo Petista que não consegue enxergar as fraquezas de Lula.

Resumindo: Os crentes Adventistas vêm repetindo para seus fiéis essa informação através dos anos e então Nãna não come carne de porco porque alguém, que ela não conheceu, há mais de quatro mil anos atrás disse que não deveríamos comer esse animal impuro.

- Tá, mas o que isso tem a ver com as obrigações da "dona da casa"? Perguntou Vilson.

Vou continuar "desenhando".

Veja bem, há muitos séculos que a sociedade acredita que o homem é um ser superior a mulher. É um mito, mas até hoje tem gente que acredita nessa lorota. Bem, essa desigualdade foi perpetuada na sociedade, com a contribuição do Estado e da Igreja (novamente a Igreja) e, portanto, a instituição familiar deveria servir aos interesses do homem. Não foi sempre assim. Na sociedade primitiva havia um matriarcado....

- O que é isso?

Deixa pra lá. Continuando: já que a mulher é um ser inferior ela deve servir ao homem (ao irmão, ao pai, ao marido, etc) e, em contrapartida, ser sustentada por eles. Esse paradigma mudou, mas muitos homens e algumas mulheres, ainda acham que esse papel nos cabe. E os homens, no modelo antigo, achavam que estavam fazendo um favor as mulheres quando lhes davam um dinheirinho para comprar uma roupa, cuidar dos cabelos, pintar as unhas. E elas faziam isso para agradá-los porque além de ralar o dia todo na faxina, ainda deveriam estar bonitas e cheirosas pra diminuir o risco de serem trocadas por uma escrava mais nova. Eu disse escrava porque quem realiza um trabalho em troca de alojamento e comida sem receber salário, é um trabalhador escravo. É o que diz a lei.

O mundo mudou, Vilson, mas você está fazendo o mesmo que Nâna: repetindo o que ouviu do seu pai, que ouviu o mesmo do seu avô, que aprendeu com seu bisavô...Você acha que eu vou aceitar o papel de Dona de Casa? Que eu, uma mulher emancipada, que ganho meu dinheiro desde os quatorze anos, que nunca foi submissa, vou fazer esse sacrifício só para ter um piru caseiro? Nuuuuuuca!

Vilson me olhou com cara de poucos amigos, e disse:

- Não entendi nada dessa história. O quê que o porco tem a ver com isso?

Puta que pariu! Gastei todo o meu latim pra ouvir isso.

Fui ao cesto de roupa suja, esvaziei e separei minha roupa e a dele. Coloquei em sacos separados e levei pra sala.

- Esse é o seu saco de roupa e aquele é o meu. O meu eu vou lavar e passar, o seu eu não faço idéia do que acontecerá com ele. A faxineira cuida da limpeza, a cozinha fica dividida entre nós dois: três dias são seus e três são meus, no sétimo a gente descansa e almoça na rua (novamente a Bíblia). Vc tem a opção de almoçar fora, caso não queira assumir os seus três dias na cozinha. Estamos conversados.

Agora ele entendeu.

06 fevereiro, 2025

Aristóteles e os Peripatéticos

Recentemente, enquanto tomava meu café matinal, a TV mostrava uma entrevista com uma secretária de educação de uma grande cidade do estado de São Paulo. Só depois de tomar o meu café é que saio do estado de letargia que me domina depois que acordo pela manhã e foi nesse estado de lerdeza que ouvi a dita secretária falar de um projeto que estava sendo implantado em algumas escolas da cidade. Ele consistia, entre outras coisas que eu não cheguei a ouvir, em levar as aulas para fora das paredes das salas e das escolas, o que tornaria o aprendizado mais rico e realista e blá blá blá...

E ela ia falando como se tudo aquilo fosse algo novo, uma descoberta recente e importante. Esse é um hábito muito comum nos políticos, mas percebo que a nossa classe de educadores também peca nesse quesito.

No período que trabalhei na Petrobras, participei de muitos cursos interessantes. Em um deles, no início da década de noventa, chamado Curso de Criatividade, o professor utilizou uma sala de grande dimensão com colchões espalhados pelo chão e nesses colchões os alunos sentavam ou deitavam e ali discutíamos os temas desenvolvidos através de desafios, jogos e brincadeiras que realizávamos fora dessa sala, nos jardins que faziam parte desse hotel fazenda.

O curso foi muito bom a ainda hoje lembro de alguns ensinamentos que levei pra minha vida. No entanto me surpreendia o fato dele, o professor, achar que aquilo era uma método diferente, um jeito novo de ensinar.

Como faz falta o estudo da filosofia. Esse método didático é do tempo de Aristóteles da Grécia antiga. Talvez até anterior a ele, porque Sócrates já falava aos seus alunos nas praças de Atenas. Aristóteles dizia que o principal papel da educação é conduzir o homem à felicidade e que esse conhecimento deveria ser prático e útil. Ele fundou sua escola num local integrado a natureza e gostava de ensinar enquanto caminhava com os alunos por diversos ambientes, oferecendo a eles o contato direto com o mundo a sua volta, desenvolvendo neles a capacidade de observação e percepção. Seus alunos eram chamados de peripatéticos - lembro o nome mas esqueci o significado.

Todo professor deveria estudar os grandes filósofos, eu acho. Eu estudei menos do que eu gostaria e mais do que eu precisava para as funções laborais que eu exerci.  Continuo lendo a respeito, mas minha memória HD quase não comporta nenhuma nova informação, infelizmente.

01 fevereiro, 2025

Um Frango Chamado Bebeto

Meu marido gosta de criar galinhas lá no sítio. Eu reclamo com ele porque algumas galinhas as vezes cagam na varanda, outras põe seus ovos dentro do fogão à lenha, dentro da pia da varanda de Vilson, e outros lugares inusitados. Quando eu reclamo ele responde:

- Você não gosta de ovo da roça? Então, galinha que é criada presa não bota tanto ovo e não fica com gema avermelhada porque elas só comem ração.

É verdade. Isso compensa a sujeira na varanda, é só lavar.

Tem galinha, tem garnizé, tem galinhola...e tem o frango Bebeto, o único que tem nome. Ele lembra um cara meio maluco que mora próximo ao sítio da minha sogra, e tem esse nome. O frango é grande, tem pernas compridas e é bonito, mas completamente doido. Dispara numa corrida repentina, briga com as galinhas por causa de comida, belisca quem dá milho pra eles, rouba o que a gente estiver comendo próximo a mureta da varanda e se deixar o copo de cerveja em cima da mureta, é bom ficar de olho porque ele vai querer beber sua cerveja. Todos que frequentam o sítio conhecem Bebeto e se divertem com as maluquices dele.

Meu marido vive dizendo que vai dar um fim no frango, porque ele não serve pra ser galo o destino dele é a panela. Eu perguntei pra Vilson:

- Porque ele não serve pra ser galo, acho que ele vai ficar um galo bonito. 

- Ele não sabe o que é galinha, é um abestado. O galinho garnizé que é miúdo não perdoa nem as galinhas grandes, é de arrancar as penas das costas das galinhas e Bebeto, que devia proteger as galinhas, fica disputando comida com elas. Não serve pra galo.

Nesse final de semana fomos pro sítio. Estava um calor dos infernos, passava o dia me molhando na cascatinha, lendo e ouvindo música. De vez em quando assaltava a geladeira e comia uns jambos, depois jaca e só ia preparar o almoço lá pelas quatro horas da tarde, quando o dia começava a refrescar.

Dei falta de Bebeto, não apareceu nem uma vez pra tentar bicar meu copo de cerveja. Perguntei a Vilson:

- Cadê Bebeto? Não apareceu por aqui.

- Desencarnou. Estava bicando os pintinhos que soltei do poleiro há pouco tempo. Dei ele pra Ivo e fizeram um frango ensopado com aipim.

Puxa vida! Ele não fazia isso por mal. Vou sentir falta do frango, era tão simpático.

Agora as visitas que vão ao sítio sempre perguntam por Bebeto e eu conto sobre o triste destino desse frango: a panela.

Lembrei-me do poema "Uma Galinha" de Clarice Linspector, onde ela conta a história de uma galinha que se tornou a rainha da casa, mas no final cumpriu o seu destino, virou canja.