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14 maio, 2026

MEU BAIRRO


Passei minha infância e adolescência no bairro Cajueiros, em Macaé. Ainda hoje frequento o bairro pois é lá que tomo o café do final da tarde na casa de Biriba, meu cunhado. 

A nossa casa tinha um quintalzinho, pequeno para o padrão daquela época. Tinha uma horta onde minha mamãe plantava alface, almeirão, couve, tomate, alfavaca, cebolinha. Havia também um quarador - alguém ainda sabe o que é isso? – onde mamãe estendia a roupa ensaboada sobre a grama para esquentar ao sol. No fundo do quintal, um barracão, cheio de quinquilharias e uma mesa de carpinteiro. Essa era a área de lazer do meu pai e minha também. Era lá que eu e algumas amiguinhas, brincávamos de casinha nos dias de chuva. Mais tarde, quando já adolescente, eu passava horas no barracão deitada em uma rede, lendo fotonovelas e sonhando acordada com os namorados que um dia eu teria.

Algumas vezes eu acordava de madrugada com o tropel de cavalos. Corria para a janela da sala e abria um pouquinho para ver a boiada que passava pela Rua Teixeira de Gouveia, pouco antes do amanhecer. Era uma barulhada e muita poeira que subia do chão de terra.

Quando as primeiras televisões chegaram em nossa rua, foi um alvoroço. Inicialmente só três moradores possuíam televisão: Seu Waldimiro, Catarina e Dna Conceição.

Seu Waldimiro liberava geral. À noite, na hora da novela “O Homem Proibido”, sua casa ficava cheia. Tinha gente sentada no chão da sala, assistindo das janelas, em pé na porta....era uma festa.

Catarina não dava muita abertura. Sua sala era pequenina e a porta de entrada quando a televisão estava ligada, ficava sempre fechada. Quando a lotação da casa de seu Waldimiro esgotava, íamos para a varandinha de Catarina e assistíamos a televisão por uma fresta da porta fechada. Ôôôô sacrifício!!!!

Essas dificuldades aproximavam as famílias vizinhas e essa intimidade nos tornava mais afetuosos, mais solidários.

O tempo passou, a horta e o quarador desapareceram, a boiada já não atravessava a cidade pela nossa rua. Em compensação a televisão virou o centro das atenções em todos os lares, afastando os vizinhos das calçadas onde o bate-papo rolava solto nas noites de verão. Hoje nossas portas vivem fechadas e visita só com hora marcada. E os vizinhos ? Só “bom dia” e “boa noite”, é o máximo de intimidade que temos com aqueles que moram anos ao nosso lado.


SEM FOTOS

Percebi há pouco tempo que não tenho fotos dos meus amigos de infância, nenhuma fotozinha embaçada, desfocada, carcomida...nada. Só lembranças.

A única exceção é uma foto com Verinha, uma amiguinha que faleceu aos oito anos de idade numa cirurgia de garganta, retirada das amigdalas. 

Esse fato influenciou minha vida por uns cinco anos, porque minha mãe não tinha coragem de fazer essa mesma cirurgia que os médicos recomendavam pra mim. Passei esse tempo sofrendo quando tinha infecção de garganta, o que era frequente. Minha tia Laura esfregava em minha garganta a pena, de alguma ave que não sei qual é. Essa pena era besuntada com dois remédios pavorosos. Era tão apavorante pra mim, que foi impossível esquecer o nome dos remédios: Colubiazol e Azul de Metileno.                                                                            

Eu e Verinha na Rua da Praia

Se tivéssemos fotografado aqueles momentos eu teria uma foto com Cacilda colocando barquinhos de papel na enxurrada e tomando banho de mar na praia da Pedras. Fotos com Rosângela, Penha, Regina, Lena, jogando Queimado no poeirão em frente à casa de Seu Waldimiro. Uma foto minha e de Elisa sentada no meio-fio conversando sobre sua paixão por Toninho. Eu teria várias fotos com Alcione, sentadas no murinho em frente à igreja Presbiteriana, dançando no quarto com piso de madeira no andar

de cima da casa dela, cantado no Coral da Igreja Batista.

Eu e Paulinho, neto de Seu Arnulfo
Reza a lenda que o primeiro beijo a gente nunca esquece. Se não fosse pela foto eu já teria esquecido. 

No início da nossa juventude surgiram as máquinas fotográficas com aqueles rolinhos de filme. Algumas fotos foram aparecendo, mas ainda eram poucas e raras. A maioria ‘’queimava’’.

Sem as fotos, só mesmo o que a memória registrou, esse equipamento poderoso que guarda mais imagens do que a “nuvem”,  e que agora, na melhor idade, só funciona quando quer.




 

11 maio, 2026

TRILHA SONORA

Parece-me que cada pessoa tem sua trilha sonora da vida.

A da infância com as musiquinhas que aprendeu a cantar na escola, na brincadeira com os amiguinhos, na igreja, etc. Nos dias atuais as fontes são outras: o que se ouve na TV, no Tik Tok, YouTube, etc.

Na adolescência as músicas dançantes e as românticas que no futuro vão fazer parte da sua memória das baladas e dos namoros.

Na idade adulta a gente vai aumentando o repertório e refinando o gosto, ou não.

Na fase dos 60+ a gente costuma só lembrar da trilha sonora antiga, dificilmente entra uma música nova, até porque nessa fase só conseguimos decorar o refrão.

A minha trilha sonora começou com o Atirei o Pau no Gato Tô Tô e outras similares. Na minha casa eu ouvia de tudo, querendo ou não. A noite, meu irmão Vanderlei chegavam do colégio colocava sua música preferida na vitrola, apagava a luz, deitava-se no sofá e ficava ouvindo música clássica até o sono chegar. Eu tbm me habituei com esse ritual e por muitos anos ouvi música clássica até adormecer. Um dia Vilson entrou em cena e me privou desse prazer, a música atrapalhava o sono dele. Duvido, ele hoje dorme com a TV e o celular ligados, todos dois ao mesmo tempo.

https://www.youtube.com/watch?v=9E6b3swbnWg

No período da minha adolescência e início da vida adulta, meu irmão comprava discos de música francesa e italiana (era moda na época), música da jovem guarda e bossa nova. Da esquina em frente a nossa casa, no Bar de Zé Café, vinha o som que eu mais gostava: música americana. Eu adorava quando acordava pela manhã ouvindo I Starded The Joke, Ben, If e outras tantas. Zé Luiz caprichava na play list.

https://www.youtube.com/shorts/ZYo80tLgWnY

https://www.youtube.com/shorts/DXSwx7bhTZA

https://www.youtube.com/shorts/SZHzdLUePDA

E a Jovem Guarda também se fazia presente

https://www.youtube.com/watch?v=-FapXL-5I3I

https://www.youtube.com/watch?v=ULcBDlSvn4A

https://www.youtube.com/watch?v=wozUCY3rRzE

No outro lado da rua ficava o boteco de Valdo, e ali os bebuns do Cajueiros, e eu na minha casa, ouvíamos Nelson Gonçalves, Ataulfo Alves, Vicente Celestino, Dalva de Oliveira.

https://www.youtube.com/watch?v=gbAL2hmQLX0

https://www.youtube.com/watch?v=gtlStNzzlzw

https://www.youtube.com/watch?v=gbAL2hmQLX0

E tinha também a trilha sonora da igreja, como não: Quão grande és Tu, Deus cuidará de ti, Oh Mestre o mar se revolta, Vamos nós louvar a Deus, etc.

https://www.youtube.com/watch?v=xE-UjFSmDCQ

 

‘’Parece-me que mesmo depois que tudo se acabar e mesmo que eu fique senil, essas memórias sobreviverão guardadas em alguma gavetinha do meu cérebro, esperando apenas que algum perfume ou alguma música abra a gaveta”.

 

 

 

10 maio, 2026

A PRAIA

Meu pai costumava levar para a praia, toda a criançada da nossa rua. Saíamos bem cedo; íamos a pé e ele de bicicleta, até a Praia das Pedrinhas. Passávamos pela Praia de Imbetiba, depois Praia dos Cavalos (onde algumas pessoas lavavam seus cavalos), contornávamos a sede da Rede Ferroviária e finalmente chegávamos ao nosso destino. 

Não havia quase areia nessa praia mas era ótima, pouca onda, mansinha, porque ficava protegida por duas barreiras de pedra que formavam uma pequena enseada. Cacilda, Leomar, Sandrinha, Penha, Rosângela, Fátima e eu, caíamos na água e só saíamos quando a pele já estava murcha de ficar tanto tempo de molho.

Quando conseguíamos uma bóia (câmara de ar de pneu de caminhão) a farra era ainda maior. Sentávamos ao redor da boia, com os pés para dentro, batendo na água e fazendo a boia rodar. Papai costumava mergulhar, vir nadando por baixo d’água e de repente virava a boia. Tbum!!! As que sabiam nadar rapidamente chegavam a areia. Papai ajudava as que não sabiam mas, é claro, elas bebiam alguma água até conseguir sair. Desse jeito, no sufoco, acabamos todas aprendendo a nadar. Método Victório Adamis.

As mais saidinhas arriscavam uma caminhada sobre as pedras e muitas vezes voltavam com os pés cheios de espinhos de ouriços. Dava um trabalhão retirar todos os espinhos, sem contar a dor.  

Depois procurávamos uma pedra que fosse um pouco confortável, deitávamos por algum tempo ao sol, sem a preocupação de bronzear o corpo e nem proteger a pele dos raios ultravioleta. Filtro solar ? Ninguém sabia o que era isso !!! O que queríamos era só brincar, brincar e brincar.

A volta para casa tinha que ocorrer antes das 11:30 porque nesse horário saíam para o almoço os empregados da Rede Ferroviária. Quando tocava o buzo (campainha) disparavam centenas de bicicletas pela Av. Agenor Caldas e se não tivéssemos atravessado a Avenida, perdíamos um tempão esperando as bicicletas passarem.

No dia seguinte, mais praia. E assim seria até o término das férias, que naquela época duravam três meses.


FESTA JUNINA

Em Macaé, nas décadas de 60 e 70, aconteciam muitas festas juninas nos bairros, diferentemente de hoje.

No Cajueiros, no mês de junho, as quadrilhas aconteciam em vários lugares. Uma delas, no beco de Walter Foguete, era minha preferida. Eu via a festa da casa de Dna Maria de seu Thomaz, nossa vizinha. O muro dos fundos dava para o beco. Nós subíamos em caixotes e ficávamos assistindo a quadrilha. Sempre fui muito “bicho do mato”, nunca gostei de “aparecer” mas morria de vontade de vestir aquelas roupas coloridas, pintar o rosto com pintinhas pretas e dançar a quadrilha. Como meus pais eram evangélicos, não permitiam. Tinha que me contentar em apenas assistir.

A religião me privou de alguns prazeres na infância e adolescência. Dançar quadrilha foi um deles. Matinê de carnaval, bailes e praia aos domingos pela manhã também eram proibidos. Acho que vem daí minha birra com todas as religiões.

Por outro lado, essas proibições me incentivaram a procurar minha independência financeira desde muito jovem. Por volta dos 13, 14 anos eu já ganhava algum dinheiro pintando lençóis, toalhas, enxoval de bebê, etc... Ana Maria, dona de uma boutique infantil em Niterói, vinha mensalmente a Macaé trazer camisetas para que eu pintasse personagens das histórias em quadrinhos. Eram caixas e mais caixas de camisetas que me ocupavam boa parte das tardes de verão. 

Depois que consegui ganhar meu sustento ninguém mais me colocou cabresto. Dancei todas as quadrilhas que eu quis.



PRAIA DE ADOLESCENTE

Ir a praia todos os dias no período de férias, era sagrado. Era um tempo de “faça você mesmo” porque o dinheiro era pouco e a criatividade era muita. Sendo assim, costumávamos fazer nossos próIprios biquínis. Aprendi com Marília, vizinha da minha prima Lúcia, a fazer biquíni de jérsei, tecido muito usado na época. Para bronzear a pele, misturávamos óleo Johnson e urucum ou iodo. Quanto mais "queimadas" melhor. Ainda não sabíamos do buraco na camada de ozônio e o buraco que nos interessava naquele momento era aquele que fazíamos na areia para acomodar a toalha onde íamos deitar. O que queríamos era desfilar os corpos morenos pela praia e a Praia de Imbetiba era o point. Praia dos Cavaleiros era distante, deserta e brava; nem pensar.

Nessa época eu costumava ir a praia junto com minha prima Lúcia e seus amigos, a maioria vizinhos dela: Marília, Margarida, Ruza, Loloia, Fátima, Sérgio, Dica, etc.... À noite voltávamos para a Imbetiba onde os jovens se encontravam na Toca do Toti, Redondo, Varandão e 860. Os “sem grana” ficavam sentados no muro de pedra em frente à praia ou na areia, em pequenos grupos, onde uns tocavam violão e cantavam, outros namoravam. Época de hormônios a flor da pele.

Fazíamos festinhas hi-fi (festa informal onde cada pessoa leva algo para comer ou beber) na casa de alguns amigos. Bastava uma varanda ou sala espaçosa, luz negra, uma vitrola e muitos discos. Tomávamos cuba-libre, martini e batida. Cerveja não era nossa preferência naquela época. Comparando com as festinhas dos adolescentes de hoje, parecíamos um bando de idiotas. Mas que “idiotice” deliciosa era dançar de rostinho colado, coxa com coxa, e sentir o cheiro bom de loção pós barba!!


BRINCADEIRA DE CRIANÇA

A casa dos meus pais tinha uma calçada alta onde as donas de casa daquela rua, juntamente com minha mãe, ficavam sentadas nas manhãs de inverno “quarando” no sol enquanto conversavam, faziam crochê ou tricô, e tomavam conta dos filhos que brincavam ali por perto. 

E como nós brincávamos na rua de terra batida onde raramente passava um carro!!! Amarelinha, pique - esconde, queimado, três marias, pular corda, andar de bicicleta, etc...eram nossas brincadeiras prediletas.

Os dias de chuva também eram de diversão. Era hora de preparar os barquinhos de papel para jogar na enxurrada. Ficávamos um bom tempo olhando os barquinhos descerem rua abaixo até naufragar na correnteza.  Se a chuva fosse fraquinha e demorasse vários dias, o jeito era brincar dentro de casa. Brincar de casinha, de preferência.

Na casa de Regina tinha uma varanda comprida onde improvisávamos os desfiles de misses. O concurso de Miss Brasil era um sucesso e era também o sonho das adolescentes daquela época. A coroa, o cetro e o manto eram “fabricados” com apetrechos da casa de Carminha, mãe de Regina. As mais feinhas e tímidas, como eu, ficavam no júri e as desinibidas desfilavam. Cacilda fazia caras e bocas e vibrava quando ganhava. Depois desfilava pela varanda na ponta dos pés, arrastando o manto (um lençol vermelho) e um sorriso de orelha a orelha.

Passaram-se alguns anos e as senhoras da rua continuavam passando parte da manhã sentadas na calçada na sua tarefa de trocar receitas, pontos de tricô, e falar sobre os acontecimentos do bairro. Lembro-me de um vizinho, um senhor alto e magro, que era um dos poucos do bairro que possuía carro e dirigia muito, muito mal. Quando ele ia retirando o carro da garagem, José Luiz, um rapaz que trabalhava com o pai no bar da esquina, chegava na porta do bar e gritava para as mulheres da calçada e as crianças que brincavam – “Corre que seu Manoel tá saindo com o carro”. Ficavam todas alertas, prontas para sair fora caso seu Manoel se dirigisse em direção à calçada. Todos paravam suas atividades e se preparavam pra correr, caso o “barbeiro” se aproximasse.

 

Tempo bão!!!!


PORTA ABERTA

Boa parte da família do meu pai morava no interior (mais interior ainda que Macaé) e quando vinham a Macaé resolver qualquer problema (médico, compras, etc..) apareciam, sem avisar, para almoçar. Isso não era um problema, as famílias já estavam acostumadas com as visitas inesperadas, visto que nessa época os meios de comunicação eram as cartas (que demoravam dias para chegar) e a fofoca que corria de boca em boca. Telefone era para poucos privilegiados.

Parte da família Adamis
De repente a mesa do almoço ficava rodeada de primos e tios e o falatório era grande. Meu avô repetindo sempre as mesmas histórias (problemas da idade avançada), Tia Mafalda e Tia Mabel sorrindo discretamente, Tio Augusto e seus “causos”. E outros tantos tios, tias, primos e amigos, apareciam sem data e hora marcada.

Os que residiam em Macaé também compareciam para um café e um bate-papo. Zé Porto, Tio Pedro, Tio João Figueiró, Eutália, Zélia, Tia Fina, Tia Laura (parentes da minha mãe) chegavam quase sempre à tarde para uma conversa despretensiosa cujo único objetivo era fortalecer a amizade.

São poucas as casas que hoje mantêm a porta aberta para os parentes e amigos. Até porque temos tão pouco tempo livre, ocupados que estamos em trabalhar, nas compras, no trânsito, no facebook, no Instagran, etc... Convivência agora só virtual.

E quanto maior o poder aquisitivo da família, maior o seu distanciamento desse modelo antigo de relacionamento.

Que saudade do cheiro do café (de coador de pano), da broa quentinha saindo do forno e da mesa onde os adultos conversavam e eu, ainda criança, apenas ouvia e não dava pitaco.

01 abril, 2025

A Sombra

Lembro-me das noites de domingo, quando criança, em que acompanhava meus pais pelas ruas mal iluminadas do meu bairro, para assistir ao culto da Igreja Batista. Eu ia pulando sobre a sombra deles que mudava de posição à medida que se aproximavam de um novo foco de luz. Eu ficava intrigada e com um pouco de medo, sem entender direito o motivo pelo qual aquela coisa se arrastava pelo chão e mudava de direção a todo instante. Uma hora estava atrás deles, em seguida na frente, algumas vezes ameaçava desaparecer, para em seguida ir aumentando de tamanho assustadoramente. Pensava que a sombra nos acompanhava mesmo quando não era visível, não a víamos, mas ela estava em algum lugar nos vigiando sempre, fazia parte de nós e aparecia quando queria.

Minha mãe em algum momento explicou-me o porquê da existência da sombra, mas duvidei, achei que ela queria apenas me tranquilizar. Dúvida? O seu nome é Ângela.

Já não tenho medo da sombra, mas ainda desconfio que ela nos espreita silenciosamente e aparece de vez em quando para nos assombrar. São aqueles sentimentos incontroláveis que surgem contra a nossa vontade, brotam talvez do nosso inconsciente. No meu caso, a Dúvida (ou devia chama-la de Desconfiança?) com certeza faz parte dessa sombra que habita meu inconsciente. 

Pensando um pouco mais sobre esse assunto, observei que a sombra é resultado desse dualismo “luz e escuridão” duas realidades antagônicas que produzem uma terceira coisa que..... viajei...Será que é assim também com Consciente e Subconsciente, Guerra e Paz, Amor e Ódio, Corpo e Alma?  Será que quando essas ideias antagônicas se confrontam, produzem sempre alguma reação?


10 maio, 2024

SONHO DE ADOLESCENTE

Um dia, já bem distante, sonhei em ser uma artista plástica. Um ateliê enorme, um espécie de galpão, com uma luz dourada entrando por uma claraboia no teto. Nas paredes várias telas enormes, algumas inacabadas. Próximo a janela uma mesa de madeira clara, já bem suja de tinta. Eu usava uma roupa bem exótica, o cabelo crespo e rebelde preso em uma boina. Provavelmente vi esta cena em algum filme porque, até aquela data, nunca tinha entrado em um ateliê. 

Meu irmão mais velho, Vanderlei, percebeu que eu tinha algum talento para a pintura e me presenteou com tintas, pincéis, terebintina e tela. E fui pintando, copiando imagens que eu buscava em revistas, pinturas de artistas impressionistas famosos, etc. Nada autoral, somente cópias. Nunca gostei de vender nada e logo percebi que pra ser uma verdadeira artista me faltava criatividade. Fui distribuindo meus quadros entre parentes e amigos, para liberar espaço na casa da minha mãe. Então, para preservar meus amigos e poupá-los dos presentes de grego de quadros fajutos, decidi encerrar minha carreira de aspirante a artista plástica. 

Ufa! Nada de arte, tenho mesmo é que bater carimbo em cheque, contar o dinheiro que não era meu (trabalhava em banco nessa época) e torcer para não faltar dinheiro no caixa no final do dia.

Até hoje não sei exatamente qual a minha vocação, mas gostei de todas as atividades que executei nos meus 44 anos de trabalho.

  

INSÔNIA

 

Tenho dormido mal. Acho que é por causa da menopausa. Acordo no meio da madrugada e não consigo pegar no sono novamente. Na tentativa de dormir novamente, tenho recorrido a um velho truque que eu usava quando criança.

Na minha infância, dos 8 aos 11 anos mais ou menos, tive insônia. Eu ficava com muito medo de ficar acordada enquanto todas as outras pessoas da casa dormiam. O quarto dos meus pais tinha uma porta que dava para o meu quarto e que ficava aberta durante a noite, para que eu me sentisse mais tranquila. A toda hora, eu chamava pela minha mãe:

- “Mããããeee!!!" Você tá acordada?

- “Tôôô." – Ela sempre respondia.

E assim eu ia repetindo a pergunta, até adormecer.

Uma noite, depois de perturbar o sono da minha mãe, ela veio até minha cama e falou:

- “Tente cantar mentalmente um cântico da igreja. Vá repetindo sem parar, sem dar espaço que é pra não entrar nenhum outro pensamento na sua cabeça.“

Ela cantou a musiquinha “meu barco é pequeno, tão grande é o mar, Jesus segura minha mão, ele é meu piloto e tudo vai bem, na viagem pra Jerusalém”. Fiz o que ela ensinou e não é que a coisa funcionou?

Hoje esse recurso não está mais resolvendo. Porque será?

Fiz ioga durante um período e em determinado momento entoávamos uma melodia, um mantra. A intenção era entrarmos num estado de meditação, ou pelo menos de relaxamento, visto que meditação requer uma pouco mais de preparo, segundo o professor. Íamos repetindo, repetindo...quando eu percebia estava quase dormindo.

O cântico que minha mãe me ensinou tinha as mesmas características melódicas daquele mantra, um som monocórdico, monótono. Com certeza ela nem sabia o que é um mantra, mas sem saber, recomendou o que era adequado.

Muitas vezes queremos não pensar em determinada coisa mas a mente não nos obedece, parece que tem vida própria. Se isso acontece na madrugada então, é fatal. Ela escolhe os piores pensamentos para atrapalhar seu sono. Parece que faz de propósito. Você tenta ludibria-la mas quando percebe aquele pensamento recorrente volta a ocupar espaço na sua cabeça.   Você procura o sono mas à mente manda ele embora. E nessa guerra com a mente você às vezes sai derrotada, vê o dia clarear e vai trabalhar com um quilo de areia em cada olho.

Acho que o meu mantra da infância está defasado. Com o passar dos anos a minha mente ficou mais esperta e agora acho que preciso de um mantra mais poderoso para dar conta do recado.

E agora mamãe não está no quarto ao lado para me ajudar.