10 maio, 2026

SENILIDADE

 Minha mãe encarava com bom humor as limitações que a idade foi lhe trazendo, exceto nos dois últimos anos, quando a doença tornou a vida um fardo pesado demais para ela.

Diariamente nos encontrávamos em sua casa: eu, meu cunhado e minhas sobrinhas e mais alguns eventuais que apareciam por lá para tomar café e conversar fiado. Por volta das 18 h quando eu entrava na casa, mamãe me olhava com cara de espanto, levantava as mãos para o alto e dizia:

 – “Graças a Deus você chegou, Maria Jesuína”.

 _ " Mamãe, eu sou Ângela, sua filha "

Jesuína era minha tia, uma irmã da minha mãe que morreu antes mesmo que eu houvesse nascido. Mamãe já não sabia quem eu era, mas ficava aguardando ansiosa pela minha chegada.

Algumas vezes ríamos muito das “loucuras dela”. Um dia quando entrei na cozinha - ela estava fazendo café - veio me contar toda agitada que alguém tinha dito que ela teve três filhos, mas ela não lembrava de nada disso. Confirmei que isso era verdade e que eu, Vanderlei e Pedrinho éramos filhos dela e Julieta era filha do coração. Ela fez cara de espanto:

- Pedrinho também é meu filho? Será que ele sabe disso? Acho que ele não vai gostar.

Ela tinha por hábito passar boa parte do dia na janela da sala, que fica em frente à rua. Várias pessoas que passavam pela calçada paravam para conversar com ela, o que era muito bom porque ajudava a preencher as inúmeras horas solitárias que normalmente os idosos têm.

Algumas vezes eu a ouvia conversando animadamente com alguém, beijando pra despedir-se e pedindo pra voltar mais vezes.

- Com quem a senhora estava conversando? Eu perguntava.
- Sei não, mas deve ser conhecida, porque parou prá conversar comigo.

Algumas vezes penso nela e é estranho como não consigo me lembrar da sua fisionomia quando mais jovem. Na imagem que sempre me vem à cabeça, ela está debilitada, com o olhar ausente e um sorriso meio sem graça, como se estivesse esforçando-se para sorrir.

TEMPESTADE

 Sentei-me no tronco que fica atravessado na parte alta do terreiro, um pouco abaixo do morrinho que fica por trás da nossa casa no sítio. Estou esperando chegar a chuva que se anuncia no horizonte. Adoro ficar olhando a tempestade assim de longe. Sinto-me segura nessa distância.

- “Vem prá dentro “mulhe”. Vai “acaba” caindo um raio na sua cabeça!!!

Meu marido tem medo de tempestade. Enfurna-se dentro de casa, desliga a televisão, veste a camisa e mantem distância de espelho.

Lá longe um monte de relâmpagos clareia o céu. E os raios? São lindos os raios. Perigosos mas lindos. Um vento frio bate no meu rosto levando prá longe o calor desse final de um dia de verão. A chuva chega e os pingos batem forte no chão de terra fazendo pequenos buracos e enlameando tudo. Resolvo entrar na casa.

É gostoso ficar aqui, enroscada no sofá, tomando um café quentinho com leite e canela, ouvindo o barulho da chuva que bate no telhado com força. Lá fora já é noite e a chuva lava tudo.

Quando cheguei aqui no sítio hoje pela manhã estava me sentindo aborrecida, angustiada. As horas foram passando e o meu espírito foi ficando mais sossegado, como se o tempo fosse levando as contrariedades, da mesma forma que a chuva vai arrastando as folhas que estão espalhadas pelo terreiro.   

O quintal está lavado e minha alma também.

ENTENDENDO CLARICE

 Quando eu era bem jovem ganhei um livro de Clarice Lispector. Não me lembro o nome do romance só lembro que achei muito chato e abandonei a leitura pela metade. Naquela época gostava de ler Ernest Hemingway, Frederick Forsyth, Jorge Amado...aquele texto muito introspectivo de Clarice era pesado demais prá mim.

Dias atrás minha amiga Núbia deu-me de presente uma coletânea de contos "Clarice na cabeceira". Meio de má vontade fui lendo e aos poucos ela foi me pegando até me encantar por completo.
Dizem que só somos capazes de apreender aquilo que no nosso íntimo, já sabemos. Acho que aconteceu isso comigo com relação à Clarice. Só agora eu estou preparada para entender o que ela quer dizer. Entender....é muita pretensão minha. Pensando melhor, acho que essa leitura é um convite a reflexão. Cada um vai encontrar certa verdade, a sua verdade, entre muitas indecifráveis.
Acho que preciso ler esse livro aos poucos, em doses homeopáticas. Uma dose muito grande de realidade pode ser perigosa. A ignorância, em alguns casos, é benéfica. Algumas vezes chego a achar que é mais fácil ser feliz quando não nos aprofundamos muito em algumas questões. Basta sentir e não procurar entender.

PERDER UM AMIGO

 Hoje soube que uma amiga de infância está com câncer. De repente me veio o pensamento, cada vez mais recorrente, de que o tempo está correndo rápido demais e que agora são os amigos que estão partindo.

Quando eu era criança apenas parentes já idosos morriam e essas mortes, para a criança que eu era, tinha um quê de divertimento, de brincadeira. Era quando os parentes se reuniam e os primos se juntavam nas brincadeiras, no corre-corre pelo terreiro ou em frente a igreja. 
Lembro-me de um vizinho que cometeu suicídio, tomando remédio para matar rato. Foi um buchixo danado na nossa rua. Será que foi por causa de alguma mulher? Foi por causa de alguma dívida? A noite, durante o velório, não se falava em outra coisa. Naquela época a nós, crianças, não era permitido dormir muito tarde exceto em situações especiais como o velório de um parente ou amigo da família. Fiquei acordada até tarde naquela noite, velando o morto, tomando café com rosca, ouvindo o disse-me-disse das fofoqueiras de plantão.
Agora é tão diferente!!! Quando os amigos de longa data morrem, morre também um pouco do que vivemos. É como se nossa história de vida ficasse mais pobre, com menos conteúdo. É isso, o amigo morre e uma parte da nossa vida morre com ele.
Lembro-me de minha mãe que ao morrer, aos 95 anos, já tinha perdido todos os irmãos, cunhados, a maioria dos amigos. Fico imaginando como ela se sentia quando relembrava algum fato antigo da sua vida. Ninguém para confirmar a história, ninguém para rir ou se emocionar ao relembrar, ninguém que pudesse acrescentar algum detalhe esquecido. Sozinha com suas lembranças. Até que o Alzheimer chegou e o caos se instalou.
Alguns costumam chamar a velhice de melhor idade. Melhor coisíssima nenhuma. Dizem que ganhamos sabedoria. Grande consolo, o que fazer com tanta sabedoria se já não temos muito tempo para aproveitá-la? A velhice é uma merda, mas como a outra opção é a morte, melhor aproveitar do jeito que der.

O VIAJANTE

 Gostaria de ser uma viajante, mas me falta espírito aventureiro. Sou só uma turista. Turista é um ser estranho, acha graça em coisas que normalmente não vê nenhuma graça no seu dia a dia. Não visita os pontos turísticos da sua própria cidade, não vai aos museus, não contribui para conservar a cultura de sua própria terra...enfim, nosso olhar está direcionado para outras coisas.


Explico porquê.

Moro numa cidade pequena que não é uma cidade turística, mas tem suas belezas naturais. Tem praia, tem restinga, serra, um pequeno arquipélago,etc. Nasci aqui há 56 anos atrás e só agora recentemente conheci uma cachoeira linda que fica há pouco mais de uma hora de carro da minha casa. E tem outras cachoeiras que ainda não conheço. Nunca fiz uma trilha na Pedra do Frade, essa montanha que eu via da janela da casa da fazenda onde nasci (mas já subi ao cume do monte Etna para ver a cratera do vulcão). Não prestigio os eventos sobre a obra do compositor Benedito Lacerda, nascido em Macaé.

Fora da minha cidade, em outro país, faço questão de visitar todos os pontos turísticos, ir aos museus, igrejas, comer comidas típicas. Acho que a gente acaba olhando tudo com outros olhos, como se tudo fosse realmente uma novidade. Bobagem.

Se eu tivesse realmente espírito de viajante olharia minha própria terra com mais curiosidade. Ia percorrer cada cantinho da minha rua, do meu bairro, da minha cidade, município, e daí por diante.

OS RESSUSCITADOS

Dizem que sonhamos todas as noites. Se sonho, raramente me lembro e quando lembro, é só bobagem.

Tive um desses sonhos malucos ontem à noite.  

“As pessoas que morriam em Macaé estavam todas sendo enterradas em Quissamã (sabe-se lá por que).
Eu estava no sítio da minha sogra, em Quissamã, e de repente um menino, cria da casa, entra correndo e me avisa que acabara de chegar à igreja próxima ao sítio, o corpo de uma colega do meu trabalho.

Subi correndo rua acima até a igreja. Minha cunhada Eliana estava arrumando os castiçais ao lado do caixão de uma mulher desconhecida.
- Paulinho disse que chegou o corpo de uma amiga minha...
- Deve ser a que está no quarto aí ao lado. O caixão ainda não chegou.
Entrei no quartinho que tinha apenas uma cama e uma mesinha. Olhei o corpo que estava na cama. Era Rosimara, uma colega de trabalho. Notei que ela estava vestida com a mesma roupa que usou na nossa festinha de final de ano: um short jeans e uma blusa larguinha que caía no ombro. Segurei na mão dela e de repente.....ELA SENTOU-SE NA CAMA!!!!
Olhou-me e disse:

-Nossa, estou cansada de tanto dormir. Tô com fome!
Virgi Maria, que troço é esse!!!

-Vamos até a casa da minha sogra. É aqui pertinho e sempre tem um café.
Peguei na mão dela com cuidado – podia estar gelada – e ajudei-a a descer da cama.

Chegando na casa, encontramos minha sogra sentada na varanda. Ela já estava meio caduca e ficou olhando Rosimara com uma cara de poucos amigos.
Minha cunhada Edinete estava fazendo bolinho de chuva. Peguei o café e alguns bolinhos e levei pra Rosimara na varanda. Entrei de novo na casa e tentei ligar para o marido dela pra avisar que ela não havia morrido ou ressuscitado, sei lá.

De repente, vem o menino correndo de novo e gritando que a outra defunta “tinha revivido”.
- A outra também? Que diacho é isso, gente! Cadê a mulher?

- A muié fico desarvorada quando viu que tava nu caxão!

Olhei pela janela a tempo de ver a defunta correndo pela estradinha, morro abaixo. Tem bom preparo físico, pensei.
Virei para o meu marido, que estava ao meu lado, e disse:

Quando eu morrer quero ser enterrada em Quissamã”.
Acordei em seguida, com o barulho do meu marido mexendo nas panelas da cozinha. O calor do dia que começava encerrou meu sonho.

FESTA DE ANIVERSÁRIO

 Sou uma distraída incurável.

Erro data, troco nomes, já peguei objetos de amigas pensando que eram os meus (óculos, bolsa, celular, máquina fotográfica,etc...). Já fui a casamento errado e já velei morto desconhecido achando que era um amigo falecido que estava em outra capela.
Nos últimos tempos tenho me comportado razoavelmente bem, até que na última semana tive uma recaída.
Há uns vinte dias atrás recebi por e-mail o convite de aniversário da netinha de minha amiga Rosani. Deixei o convite na minha caixa de entrada para não esquecer. Na semana passada ligo para Valdéa para conversar sobre um cruzeiro que faremos em fevereiro. No final do papo Valdéa me pergunta:
-Vc vai ao aniversário de Thais?
- Vou. Que dia é mesmo?
- Sábado agora, as 17 h.
- Tá legal, nos vemos lá.
Liguei para minha nora e avisei que no sábado levaria minha neta Maria Alice na festinha.
Conforme combinado peguei minha neta e fui para o salão de festas. Maria, três aninhos, está naquela fase que adooooora festa. Foi pulando pelo caminho até chegarmos ao local da festa. Entrei e vi que apenas um casal de idosos ocupava uma mesa, todas as demais estavam vazias. Maria disparou em direção ao pula-pula.
Quando uma mulher que trabalhava no Buffet saiu da cozinha, perguntei:
Estranho já passa das 18 h e até agora não chegou nenhum familiar?
- A festa está marcada para as 19.
- É isso! Enganei-me com o horário, achei que fosse as 17 h. 

Culpa de Valdéa, filha da mãe, me informou a hora errada. Liguei pra ela:
- Valdéa, ainda está em casa? Estou aqui na festa e não chegou ninguém.
- Estou na casa de Valéria. Já tô chegando aí. 

As pessoas foram chegando. Maria arrumou uma amiguinha e estava se esbaldando nos brinquedos. Reparei que o tema da decoração era o Batman, tudo preto e azul – que estranho, festa do Batman para uma menina de um ano? 

Sento-me em uma mesa, o garçom me entrega um copo de cerveja, e fico aguardando Valdéa. Uma moça simpática se aproxima e me pergunta:

- Vc é mãe de alguma das crianças da creche?
- Não, sou amiga da avó de Thais.

A moça se afasta com uma cara estranha.

Gente, e eu lá tenho cara e idade pra ser mãe de criança que ainda frequenta creche? 

Meu Deus!!!! Thais não está em creche, à festa começava as 19 h, decoração do Batman. Tô no lugar errrraaaado!!!!! Ligo pra Rosani:

Rosani, qual o local da festa de Thais?
- Num salão de festa na rua em frente ao salão M Beauty. Buffet da Fátima.
Pensei um pouco – o salão fica numa esquina, a rua que estou fica em frente ao salão, mas tem uma rua ao lado. Deve haver outro salão na rua ao lado. 

- Rosani? Acho que já sei, tô indo pra lá.
- Hellooooo  Ângela. O aniversário é amanhã. Tá maluca? 

Puta que pariu!!!! Vou matar Valdéa!!!
E lá vem Valdéa toda faceira. Saia de cintura alta, muitas pulseiras, sorriso até a orelha. No caminho até a mesa pega um sanduíche e um refrigerante. Tenho uma crise de riso e não consigo nem falar. Só consigo chorar, de rir. A dona da festa nos olha meio espantada. Deve estar pensando “quem é essa outra estranha?”  Valdéa não está entendendo nada. Quando enfim consigo contar o equívoco, Valdéa arregala os olhos, olha para o sanduíche, olha para a cara da dona da festa, olha pra mim.
- Que merda!! E agora ?
Chamei a dona da festa e nos explicamos, pedimos mil desculpas e disse que ia pegar minha neta e no retirarmos. A mãe do aniversariante, um menino de quatro anos, foi muitíssimo simpática. Convidou-nos para continuar na festa porque o que ela mais queria era que houvesse muitas, muitas crianças na festa e como minha neta já estava brincando, gostaria que ela permanecesse na festa. O pai do menino também foi muito atencioso e reforçou o convite.

Fiquei meio sem graça e tentei tirar Maria da brincadeira. Quem disse que ela aceitou sair? Tinha arrumado uma amiguinha pra lá de levada. Queria ficar e dançar o funk das poderosas. É, não vai ser fácil arrancar ela daqui.
Resolvi ficar, já tinha dado vexame mesmo, um pouco mais um pouco menos, não faria diferença. Valdéa também ficou, acho que com pena de me deixar sozinha. Passou alguém na mesa e perguntou: 

– Quer que coloque os presentes na caixa?
- Nãããooooo! É para uma menina de um ano.

Tivemos que explicar. O que esse pessoal vai pensar, quando formos embora levando os presentes? Duas loucas. 

Rosani ligou: - Ângela, onde vcs estão?
- Na festa do menino fã do Batman.
- Tá brincando, vcs ainda estão aí? Vcs são malucas e eu sou ainda mais louca por andar com vcs!!!

Saímos da festa depois dos “parabéns”. Maria ainda entrou na fila da lembrancinha e ganhou um monte de brinquedinhos e doces. Minha neta, estava suada, pé todo sujo de andar descalça, cabelo todo desarrumado. Valeu o vexame.

No dia seguinte voltei ao mesmo local para a festa de Thais. A moça da cozinha me olhou meio sem entender. Deve ter pensado:- Essa mulher aqui de noooovo?????

DEUS ESTÁ NO CONTROLE

 As vezes sinto inveja de quem acredita na frase "Deus está no controle".

A fé é um consolo e tanto.

Minha mãe era religiosa, sem exageros, mas com uma fé genuína em Deus. Na década de quarenta meu pai perdeu todo o dinheiro que tinha guardado em um Banco. O Banco (não lembro o nome) quebrou e o dinheirinho que ele economizou durante anos para comprar um caminhão, foi pro ralo. E lá se foi o sonho de deixar o trabalho na roça e se tornar motorista de caminhão.
Minha mãe disse:

- Se Deus não permitiu é porque ele sabe o que é melhor pra nós.

E pronto, tudo resolvido sem choro nem vela.
Eu jamais saberei se ele foi mais feliz porque não se tornou motorista de caminhão. Ela tinha certeza de que foi melhor assim.
Parece-me tão simplista acreditar que tudo que deu errado foi porque "Deus sabe o que é melhor" e tudo que deu certo foi "Graças a vontade de Deus".

Parece que somos meros joguetes na mão do todo poderoso e que ele escolhe caminhos bem tortuosos para chegar ao lugar certo.

Gostaria de acreditar, mas não é fácil.

FILHOS

 20.08.2016

Meus Filhos
Quando os meus filhos nasceram eu imaginava que o papel dos pais seria o fator mais importante na formação do caráter deles. Sabia que o ambiente em que eles viveriam também era importante. Porém, naquela época, eu ainda não tinha a dimensão da influência decisiva da carga genética transmitida pelos pais, trazidas de outras gerações da nossa família.

A idéia de que os recebemos como uma folha em branco e que, recebendo uma educação adequada, irão corresponder a nossa expectativa, é totalmente equivocada. Há momentos em que me surpreendo com nossa total impotência diante do que a natureza determina. Eles serão, sem sombra de dúvida, uma mistura do que eles já trouxeram quando chegaram nesse mundo mais o que esse mundo oferecerá a eles. Só não sei qual será o fator predominante.

Analisando uma situação que ocorre em minha família, fico a imaginar como a personalidade de um filho pode ser completamente diferente dos nossos pais e avós? É como se todos os valores transmitidos por nossos pais durante anos não tivessem encontrado chance de penetrar na formação do caráter do filho. Parece que apenas os traços genéticos e os instintos naturais sobreviveram. E esses traços negativos ainda foram acentuados pelo meio onde passou a viver depois de adulto (profissional e familiar).

Tenho dois irmãos e uma irmã, já falecida. Vejo em nós traços da educação que recebemos. No entanto, em um deles, não consigo reconhecer nenhum desses valores transmitidos pelos nossos pais. Talvez alguma parte tenha sido absorvida por ele, porém é imperceptível pra mim.

Bom, não sei por que ainda me surpreendo. É assim, segundo reza a lenda, desde os tempos de Caim e Abel.

SOLIDÃO

Sempre convivi com pessoas que falam muito: no trabalho, nas relações de amizade, na escola. Na família não, somos mais calados. Na casa dos meus pais ninguém era de muita falação e hoje, na minha casa, o padrão é o mesmo.

Sou mais introvertida, mais voltada para o mundo interno do que para o externo. Muitas vezes gosto mais de conversar comigo mesma do que com outras pessoas. Sinto prazer em algumas atividades solitárias: ir ao cinema, ler, caminhar na praia, tomar café em alguma cafeteria enquanto olho o movimento na rua, ouvir música quando estou sozinha em casa, etc. Gosto da convivência com outras pessoas, adoro estar com meus amigos, inclusive as “faladeiras”, mas sinto falta de um pouco de solidão.

As pessoas mais extrovertidas dependem mais da presença de outras pessoas. É através do olhar do outro que elas podem exercer sua extroversão. Algumas vezes uma postura mais introvertida é mais adequada e, em outras, a extroversão é mais apropriada. Muitas vezes desejei ser mais extrovertida e talvez tenha perdido alguns bons momentos por causa disso. Somos do jeito que somos e o melhor é aproveitar o lado bom. Como diria um amigo meu, “aceita que dói menos”. Hoje me sinto bem comigo mesmo e não sinto necessidade de mudar nada.

Nesse tempo de muita exposição pessoal, tenho encontrado alguma dificuldade com a convivência através das redes sociais. Falta-me paciência pra tanta falação e tão poucos assuntos interessantes, úteis, criativos. É claro que o problema está em mim, que não curto cachorrinhos, religião, mensagens de auto ajuda, radicalismo político, lavação de roupa suja, recadinhos malcriados, exposição excessiva da vida particular, fotos e fotos e mais fotos. Não sobra muita coisa, né?
Também não quero me afastar dos amigos, então procuro me adaptar sem exagerar na dose e me manter conectada. 

Às vezes preciso passar uns dois dias off-line. Cuido das plantas, termino de ler algum livro que está abandonado na cabeceira da cama, faço alguma costura que já está há muito programada, deito-me no sofá da sala, apago as luzes e ouço uma música instrumental. Fecho os olhos e não penso em nada, só sinto a música. É o meu detox.

O PODER

 17.04.2016

Estive acompanhando pela televisão a votação sobre o impeachment da Presidenta Dilma, e observando aquela estranha fauna que trabalha (muito menos do que deveria) naquele ambiente. Depois de algum tempo de observação lembrei-me de uma palestra que assisti em um evento de RH, que falava sobre instintos básicos do ser humano: o desejo sexual, a busca do prazer, a agressividade, anseio pelo poder e outros que não me lembro. Segundo o palestrante esses instintos, que todos nós temos, visam à perpetuação da espécie, a preservação da própria vida, etc.

O anseio pelo poder, que me parece está relacionado à auto-estima, fica bem evidente nesse grupo. O ser humano é um bicho interessante. Na empresa onde trabalhei, ficava freqüentemente boquiaberta diante da atitude de algumas pessoas que almejavam ocupar cargos ou para se perpetuarem neles. E ficava pensando porque uns desejam tanto o poder e outros não. 

Com o passar dos anos fui entendendo (a idade avançada serve pra alguma coisa) que o desejo de poder está em todos nós. Porque são vários tipos de poder e certamente já fomos afetados por algum deles: político, material, intelectual, físico, estético, etc. Possuímos esse desejo de poder, esse prazer em ser superior ao outro. O prazer de ser mais rico, o mais inteligente, o mais bonito, o mais corajoso, o melhor amante, o mais poderoso, o mais caridoso entre todos os caridosos do seu convívio, o mais cruel entre todos os bandidos, e por aí vai. E esse poder é sempre exercido sobre outro semelhante: filhos, marido, esposa, pais, amigos, empregados, etc.

Muitas vezes esse desejo pelo poder é bem disfarçado. Tive um exemplo claro desse tipo de disfarce utilizado, talvez inconscientemente, por uma colega de trabalho na Petrobras, que utilizava a caridade para alimentar seu ego, seu desejo de ser notada. Talvez por não ser bela ou inteligente ou rica....a bondade foi o seu recurso para ser notada, ser admirada. Sempre tenho um pé atrás com pessoas muito bondosas, faz parte da minha cota de preconceito. 

Quanto a  conheci, mantive minha descrença habitual naqueles que são muito caridosos, muito religiosos, muito pudicos. Algumas vezes, com o passar do tempo, percebo que em algumas pessoas essa bondade é genuína, mas é raro. 
Fiquei a observá-la e tempos depois, no episódio da morte de uma cunhada que foi acompanhada por ela durante o período da doença, percebi a verdadeira motivação: poder e vaidade. Enquanto descrevia com detalhes minuciosos o sofrimento pelo qual padecia a enferma nos seus últimos dias, percebi o prazer em seu olhar. O que ela desejava não era minorar a dor da cunhada, mas obter a gratidão de toda a família, criar uma dívida impagável, a dependência da família em relação a ela. A super caridosa.

Não é de se admirar que nas altas esferas de poder todos os pudores sejam abolidos. Se não tivermos instituições fortes e atuantes, não há quem coloque freio nesse desejo incontrolável de poder. Não tenho muita esperança de ver o meu país livre dessa gang que se instalou no governo, em todos os níveis da estrutura.

Não somos muito melhores que os políticos, a diferença é que para os "sem poder" o estrago pode ser menor. Que bicho estranho somos nós !

SHOW DE JAMES TAYLOR E ELTON JOHN

 

Em Janeiro Rosani surgiu com essa ideia de irmos ao show de Elton John e James Taylor no Rio, em abril. Rosani é conhecida no nosso grupo como "juíza", por causa do seu temperamento decidido em um pouco briguento, então quando ela decide não dá trégua. 

Aí Graça, nossa guia turística predileta, sai em campo para viabilizar os delírios de nossa companheira.
Sou fã dos dois artistas, mas nunca tinha cogitado assistir um show dos dois. Rock in Rio nunca esteve nos meus projetos, tenho um pouco de medo de multidão, prefiro assistir essas apresentações em teatro, quando é acessível ao meu bolso.

Depois de alguma divulgação nos grupos do ZAP, montamos a turma de quatorze pessoas.

01.04.2017
Encontramo-nos na casa de Graça por volta das nove horas pra partimos para o Rio. Somos quatorze: Angela, Rosane, Valdea, Maura, Vera, Claudia, Cleuza, Marcia, Rosani, Fátima, Ito, Tânia, Lina e Graça. Tudo gente boa.

Combinamos passar primeiro na Feira de São Cristóvão e depois do almoço iremos para o Sambódromo, local do show. 
Chegamos ao Rio por volta das 12:00 h. A temperatura estava agradável, um ventinho amigo nos recebeu. Comentei com Rosani que havia previsão de chuva para a hora do show:

- Não vai chover, cinquenta por cento de previsão de chuva não é chuva, não chove pode ter certeza.

Juíza falou tá falado, não discuto com autoridades. Mas na minha bolsa tem uma capa de chuva, uma blusa de manga comprida para o caso da outra molhar e um calçado extra. As autoridades as vezes se enganam feio.

Apesar do clima ameno, aqui dentro do pavilhão onde funciona a Feira faz um calor danado. Caminhamos um pouco pelas lojinhas e as companheiras já começaram a fazer umas comprinhas, como é de praxe.  Eu comprei o fantoche de um fantasminha, pra ver se assusto meu neto. Desconfio que ele não se assustará e vai destruir o fantasma em alguns segundos.

Chegamos perto de um dos palcos e já estava rolando um forró. Alguns casais já se arriscavam na dança embaixo do sol de meio dia. Uma velhinha desinibida dançava sozinha no melhor estilo “tô nem aí”. Aquela é Claudinha amanhã. Esse forró deve bombar no finalzinho da tarde, quando o sol dá uma trégua.

Procuramos logo um lugar mais fresquinho num dos restaurantes. No local onde escolhemos pra sentar tinha um ventilador bem grande, turbo, jogando um vento delicioso em cima das nossas costas. Imediatamente me veio uma vontade incontrolável de tomar um chope. Começamos os trabalhos e a turma caiu de boca no torresmo, baião de dois, aipim frito, bolinho de bacalhau, etc.

Depois de toda comilança, saímos do restaurante e fomos andando devagar, desgastando o almoço para enfrentar a segunda jornada. Um céu azul sem nuvens me fez pensar que aquela capa de chuva só serviria para fazer uma sauna, se eu desejasse. Ah, se eu soubesse....

Chegamos cedo, o portão ainda não estava aberto. Entramos na fila (ô sina, essa de enfrentar fila). Um calor danado e a turma que vende capa de chuva já estava a postos.

- Olha a capa de chuva! Tá a dez real, mas quando cumeça a chuvê dobra o preço.

Ninguém se animou. Logo o anjo da guarda dos ambulantes que vendem guarda-chuva, sombrinha e capa, começou a trabalhar e uma nuvenzinha preta começou a surgir lá no horizonte.

- Olha lá, chuva tá vindo! Não sou eu que tá falando, foi a Maju que avisou. O preço da capa vai aumentar.

O pessoal da fila começou a se movimentar e a venda de capas se intensificou. Logo chegaram os primeiros pingos de chuva. Falei pra juíza:

- E aí, não vai comprar uma capinha?

- De jeito nenhum, cinquenta por cento de previsão não é chuva, é só uma garoinha.
 

Depois de um bom tempo abriram o portão e entramos. Chegamos à arquibancada e escolhemos o lugar que achamos melhor, sem disputa com ninguém por que ainda era em cedo. Estendi minha almofada de silicone, empréstimo da nossa amiga Rose pra mim e Rosani. Comecei a maldizer a almofada, que parecia pesar uma tonelada. Tentei encher a infeliz, soprei, soprei...e nada. Desisti, mas mesmo meio vazia ela cumpria sua função. Será que o silicone que botam no peito e na bunda pesam assim?  Imagino que não, caso contrario ninguém ia aguentar carregar essas próteses.

E começou a espera pelo show e comecei a pensar “podíamos ter chegado mais tarde, é tão ruim esperar”. Mal sabia eu que “esperar” seria o menor dos problemas, o pior estava por vir. 

De repente o anjo da guarda dos ambulantes que vendem....vcs já sabem o que ele vendem, abriu a torneira dos céus e “tome chuva”. Como é proibido entrar no local com sombrinhas, todo mundo sacou sua capa de chuva para enfrentar a intempérie.

Pontualmente, com um pequeno atraso de oito minutos, James Taylor surgiu no palco. O atraso foi perfeitamente aceitável até porque ele é americano e não britânico como Elton John. Agora, Sir Elton tem que ser rigorosamente pontual pra manter viva a fama de pontuais dos britânicos.

James está com cara de terceira idade, mas sua voz continua maravilhosa, macia, aveludada. Falou um pequeno texto em português onde dizia que estava feliz por estar novamente no Brasil e explicava que não poderia tocar seu violão porque tinha quebrado o dedo. E xingou “merda”. Começou a cantar seus sucessos. Quando cantava "You’ve got a friend'' a chuva despejou. Mesmo assim todos nós cantamos em coro junto com ele. Liiiiindo!!!

E tome chuva. Minhas pernas já estavam totalmente molhadas porque a capa apesar do número GG não chegavam nem a cobrir os joelhos. Quem manda ser alta!

Parou a chuva e surgiram algumas estrelas no céu. Que bom, a chuva vai parar! Quando James terminou de cantar  "Fire and Rain" a chuva voltou a cair. Que ironia, nessa música ele fala que viu o fogo e a chuva. Hoje só viu chuva. No telão ele olha pra cima e seus olhos azuis escuro como os do meu pai, transmitem tranquilidade.
 

A chuva voltou e voltou pior.  E aí começamos a ver os estragos: capas com vazamento, outras que rasgam com facilidade, almofadas de tecido que ficaram encharcadas molhando a bunda de quem estava em cima delas. Valdea trouxe um cachecol para se aquecer e ele virou uma esponja. Ela enxugava a capa com ele e torcia em seguida:

- Vim aqui para lavar roupa. Quem quer estender essa roupa pra mim?

Por fim eu já estava desejando que James Taylor se retirasse (tadinho) pra desocupar o lugar pra Elton John começar logo o show, antes que a gente congelasse. Aí ele canta a música que fez em homenagem ao Rio de Janeiro depois que participou do primeiro Rock in Rio. Ele merece nosso sacrifício!

Haja bom humor pra enfrentar esse contratempo. A chuva tava de sacanagem, parava e recomeçava, parava e recomeçava... A gente tentava se enxugar um pouco, tirava a capa, sacudia e logo em seguida chovia de novo. Num desses intervalos comi um pedaço de pizza, comi rápido antes que chovesse novamente. Pizza molhada ninguém merece.

Fiquei preocupada com Rosani. Nesse momento ela era quase a verdadeira imagem do pinto molhado. Digo “quase” porque a imagem verdadeira seria a do próprio pinto, o animal, molhado. Mas ela não se aperta, desceu e comprou uma camisa do show e conseguiu a última capa de um ambulante.

Comecei com uma tremedeira incontrolável e decidi sair da chuva. O show de James já tinha acabado então fui para a área do banheiro que é coberta.

- Elton que se foda. Desculpa aí Sir Elton, vc embalou meus sábados à noite, mas não tenho mais idade pra enfrentar temporal só pra ver meus ídolos da juventude. Aliás, vc se cuide que essa chuvinha aí no palco pode lhe resfriar, vc também já está velhinho.
Já encontrei Claudinha e Tânia lá na área coberta. Depois chegou Cleuza. Fui no banheiro e verifiquei que minha calça estava encharcada. Não havia o que fazer. Enxuguei a capa pra tentar pelo menos me aquecer um pouco. Lá de baixo ouvi quando Elton disse “muito obrigado por resistirem a chuva, é um privilégio tocar pra vocês”.

A chuva deu uma trégua e subimos correndo para o alto da escada. Elton vestido num paletó cintilante, que faria inveja a Cauby Peixoto, dedilhava o piano com a vitalidade que lhe é peculiar. Outro estilo, completamente diferente do seu antecessor no palco. James é Zem, doce. Elton é pura energia. Que show, valeu o sacrifício.

Começou a chover novamente, descemos a escada e fomos pra área coberta.   Pouco depois Vera veio nos chamar, disse que Graça estava propondo sairmos um pouco antes de terminar pra evitar o tumulto da saída. Concordamos com ela, exceto Rosani que junto com seu irmão e sua cunhada ficaram até o final.

Saímos pelo portão à esquerda e nos deparamos com as ruas interditadas. Graça ligou para o motorista da Van e ele combinou de nos pegar em frente ao prédio do Batalhão de Polícia. No caminho nos perdemos de Creuza e Taninha. Acho que nos perdemos de Lina também.

Aos poucos os retardatários foram chegando. Quando entramos na Van começamos a fazer o inventário do estrago. Valdea molhou até o dinheiro que estava na carteira, vai ter que pendurar pra secar e ver se salva algum. Márcia, que estava com a roupa na mochila, ficou decepcionada quando viu que estava tudo molhado. A solidariedade das amigas a salvou: uma emprestou uma calça leging e outra uma blusinha. Tânia disse que até a pepeca estava resfriada. Eu estava usando uma bolsa de praia, toda furadinha, molhou tudo que estava dentro. Ainda bem que eu deixei tudo na Van e pude vestir um pulôver quentinho e um calçado seco. Maura ainda me emprestou um casaquinho para cobrir minhas pernas. Enfim parei de tremer.

Parece que na viagem de volta, dentro do carro quentinho, todos dormiram. Não vi ninguém reclamar pela Van não ter parado pra fazer xixi e comer. Não parar pra comer? Estavam desmaiados, com certeza.

É TUDO MENTIRA, HISTÓRIA DE PRIMEIRO DE ABRIL. 
SÓ QUE NÃO






DONA DE CASA? JAMAIS.

 Meu marido é um homem conservador. Nesse caso é um eufemismo pra antiquado, machista...mas é meu marido, então eu me permito ser um pouco tolerante, fazer "vista grossa". Só um pouco.

Ele ainda acredita que a mulher deve ser a "dona da casa". Isso equivale a dizer que é papel da mulher lavar, passar, limpar, cozinhar, cuidar da educação dos filhos, etc...

Quando me casei contratei uma doméstica e durante esses trinta e tantos anos de casamento ela exerceu o papel da "dona da casa". Há dois anos atrás, a "dona da casa suplente" aposentou e a titular (euzinha) assumi o cargo. Descobri, nesse instante, que meu marido não tinha evoluído e que achava que esse é o papel que me cabe nesse latifúndio. Tentei explicar que isso acontecia quando as mulheres eram sustentadas pelo marido, mas que isso não tem mais cabimento hoje em dia. Sem sucesso.

Resolvi "desenhar" para facilitar o entendimento e falei sobre uma conversa que tive com nossa faxineira Nãna, que é Adventista e, por isso, não come carne de porco. Como aqui em casa comemos muita carne de porco, linguiça de porco, partes do porco no feijão, etc...sempre que ela almoça aqui procuro fazer uma outra carne pra que ela fique em paz com sua crença. Só não falo pra ela que eu uso gordura de porco pra cozinhar e ela come sem saber. Deus há de perdoá-la porque a culpada, nesse caso, sou eu.

-Vilson, você sabe porque a Nãna não come carne de porco?

- Não.

- Porque na Bíblia está escrito que Deus falou a Moisés e a Aarão que os filhos de Israel não podiam comer carne de porco, porque é um animal impuro. Então eu disse pra ela:

- Isso não tem lógica Nâna! A Bíblia também diz que Deus criou todas as coisas, inclusive o porco. Porque ele iria criar um animal impuro? Qual a finalidade disso? Você deveria levar em consideração que Deus nunca veio falar nada pessoalmente ao povo de Israel, mandava seu Porta Voz, como fazem os presidentes da república hoje em dia. Sabe-se lá se Moisés tinha alguma coisa contra o porco, ou algum desafeto seu era dono de uma pocilga?

Ela riu, mas nem analisou a minha teoria. O crente (aquele que crê) não perde tempo com as evidências, lhe basta a fé, tipo Petista que não consegue enxergar as fraquezas de Lula.

Resumindo: Os crentes Adventistas vem repetindo para seus fiéis essa informação através dos anos e então Nãna não come carne de porco porque alguém, que ela não conheceu, há mais de quatro mil anos atrás disse que não deveríamos comer esse animal impuro.

- Tá, mas o que isso tem a ver com as obrigações da "dona da casa"? Perguntou Vilson.

Vou continuar "desenhando".

Veja bem, há muitos séculos que a sociedade acredita que o homem é um ser superior a mulher. É um mito, mas até hoje tem gente que acredita nessa lorota. Bem, essa desigualdade foi perpetuada na sociedade, com a contribuição do Estado e da Igreja (novamente a Igreja) e, portanto, a instituição familiar deveria servir aos interesses do homem. Não foi sempre assim. Na sociedade primitiva havia um matriarcado....

- O que é isso?

Deixa pra lá. Continuando: já que a mulher é um ser inferior ela deve servir ao homem (ao irmão, ao pai, ao marido, etc) e, em contrapartida, ser sustentada por eles. Esse paradigma mudou, mas muitos homens e algumas mulheres, ainda acham que esse papel nos cabe. E os homens, no modelo antigo, achavam que estavam fazendo um favor as mulheres quando lhes davam um dinheirinho para comprar uma roupa, cuidar dos cabelos, pintar as unhas. E elas faziam isso para agradá-los porque além de ralar o dia todo na faxina, ainda deveriam estar bonitas e cheirosas pra diminuir o risco de serem trocadas por uma escrava mais nova. Eu disse escrava porque quem realiza um trabalho em troca de alojamento e comida sem receber salário, é um trabalhador escravo. É o que diz a lei.

O mundo mudou, Vilson, mas você está fazendo o mesmo que Nâna: repetindo o que ouviu do seu pai, que ouviu o mesmo do seu avô, que aprendeu com seu bisavô...Você acha que eu vou aceitar o papel de Dona de Casa? Que eu, uma mulher emancipada, que ganho meu dinheiro desde os quatorze anos, que nunca foi submissa, vou fazer esse sacrifício só para ter um piru caseiro? Nuuuuuuca!

Vilson me olhou com cara de poucos amigos, e disse:

- Não entendi nada dessa história. O quê que o porco tem a ver com isso?

Puta que pariu! Gastei todo o meu latim pra ouvir isso.

Fui ao cesto de roupa suja, esvaziei e separei minha roupa e a dele. Coloquei em sacos separados e levei pra sala.

- Esse é o seu saco de roupa e aquele é o meu. O meu eu vou lavar e passar, o seu eu não faço idéia do que acontecerá com ele. A faxineira cuida da limpeza, a cozinha fica dividida entre nós dois: três dias são seus e três são meus, no sétimo a gente descansa e almoça na rua (novamente a Bíblia). Vc tem a opção de almoçar fora, caso não queira assumir os seus três dias na cozinha. Estamos conversados.

Agora ele entendeu.

ELUCUBRANDO

Escrevi sobre determinado assunto num grupo do ZAP e recebi uma crítica agradável de uma amiga:

 - Você escreveu tão bem, parece que você viveu naquele lugar e que vivenciou aqueles momentos. Eu que estive lá tanto tempo não percebi metade das coisas que vc descreveu.

 Fiquei analisando o que ela disse. Penso que aquele que fala ou escreve sobre o que viveu, o que viu com os próprios olhos, sentiu na própria pele, tem maior chance de descrever melhor do que aquele que fala ou escreve sobre o que não vivenciou.

Porém, em tudo o que escrevemos está presente nossa experiência de vida, tudo o que lemos, o que ouvimos, o que gastamos horas estudando, pensando, avaliando...

Toda essa memória, que está adormecida nas profundezas do nosso cérebro e que a gente nem sempre percebe, aflora em determinados momentos, talvez por um gatilho e passa a compor o cenário que se apresenta naquele momento. Por essa razão o mesmo fato tem um significado diferente para duas pessoas que viram e vivenciaram o mesmo fato.

SONHO DE ADOLESCENTE

Um dia, já bem distante, sonhei em ser uma artista plástica. Um ateliê enorme, um espécie de galpão, com uma luz dourada entrando por uma claraboia no teto. Nas paredes várias telas enormes, algumas inacabadas. Próximo a janela uma mesa de madeira clara, já bem suja de tinta. Eu usava uma roupa bem exótica, o cabelo crespo e rebelde preso em uma boina. Provavelmente vi esta cena em algum filme porque, até aquela data, nunca tinha entrado em um ateliê. 

Meu irmão mais velho, Vanderlei, percebeu que eu tinha algum talento para a pintura e me presenteou com tintas, pincéis, terebintina e tela. E fui pintando, copiando imagens que eu buscava em revistas, pinturas de artistas impressionistas famosos, etc. Nada autoral, somente cópias. Nunca gostei de vender nada e logo percebi que pra ser uma verdadeira artista me faltava criatividade. Fui distribuindo meus quadros entre parentes e amigos, para liberar espaço na casa da minha mãe. Então, para preservar meus amigos e poupá-los dos presentes de grego de quadros fajutos, decidi encerrar minha carreira de aspirante a artista plástica. 

Ufa! Nada de arte, tenho mesmo é que bater carimbo em cheque, contar o dinheiro que não era meu (trabalhava em banco nessa época) e torcer para não faltar dinheiro no caixa no final do dia.

Até hoje não sei exatamente qual a minha vocação, mas gostei de todas as atividades que executei nos meus 44 anos de trabalho.

  

PACTO DE MORTE

Meus pais no dia em que se casaram

Meus pais estiveram casados por 64 anos. Algumas vezes os vi conversarem sobre quem morreria primeiro e dava para perceber a dificuldade que tinham em imaginar a vida sem o companheiro (a) de tantos anos.

Perder o companheiro, mesmo que não seja tão companheiro assim, nesse momento da vida é algo complicado. Se o idoso não tem uma atividade que lhes preencha as horas do dia, a solidão encosta e aí, a falta de um companheiro para partilhar um momento de dificuldade ou até mesmo de alegria, deixa um vazio difícil de ser preenchido.

Por tudo isso meu pai costumava fantasiar que o ideal era que eles morressem juntos.

Um dia vimos na televisão uma matéria sobre um casal de idosos que fizeram um pacto com Deus para que ele os levasse para o além no mesmo dia. Papai comentou que gostaria de fazer o mesmo.

Passado alguns dias, morreram duas pessoas na vizinhança. Perguntei a papai:

- E aí papai, se a morte chegasse aqui do seu lado nesse instante, o que o senhor faria?

Ele olhou para os lados e avistou mamãe debruçada sobre a pia da cozinha. Levantou o braço por cima da cabeça e silenciosamente apontou o dedinho para ela, como se estivesse a indicar para a “morte” que ela deveria ir primeiro. E disse:

- Ela tá mais cansada, eu posso ficar pra depois!

Caí na risada. Na hora “H” ele esqueceu do pacto que queria fazer e só pensou em como seria bom viver um pouco mais.

A PRAIA

 Calçadão da praia de Imbetiba

Eu sou a menininha de jardineira

Meu pai costumava levar para a praia, toda a criançada da nossa rua. Saíamos bem cedo; íamos a pé e ele de bicicleta, até a Praia das Pedrinhas. Passávamos pela Praia de Imbetiba, depois Praia dos Cavalos (onde algumas pessoas lavavam seus cavalos), contornávamos a sede da Rede Ferroviária e finalmente chegávamos ao nosso destino. 

Não havia quase areia nessa praia mas era ótima, pouca onda, mansinha, porque ficava protegida por duas barreiras de pedra que formavam uma pequena enseada. Cacilda, Leomar, Sandrinha, Penha, Rosângela, Fátima e eu, caíamos na água e só saíamos quando a pele já estava murcha de ficar tanto tempo de molho.

Quando conseguíamos uma bóia (câmara de ar de pneu de caminhão) a farra era ainda maior. Sentávamos ao redor da boia, com os pés para dentro, batendo na água e fazendo a boia rodar. Papai costumava mergulhar, vir nadando por baixo d’água e de repente virava a boia. Tbum!!! As que sabiam nadar rapidamente chegavam a areia. Papai ajudava as que não sabiam mas, é claro, elas bebiam alguma água até conseguir sair. Desse jeito, no sufoco, acabamos todas aprendendo a nadar. Método Victório Adamis.

As mais saidinhas arriscavam uma caminhada sobre as pedras e muitas vezes voltavam com os pés cheios de espinhos de ouriços. Dava um trabalhão retirar todos os espinhos, sem contar a dor.  

Depois procurávamos uma pedra que fosse um pouco confortável, deitávamos por algum tempo ao sol, sem a preocupação de bronzear o corpo e nem proteger a pele dos raios ultravioleta. Filtro solar ? Ninguém sabia o que era isso !!! O que queríamos era só brincar, brincar e brincar.

A volta para casa tinha que ocorrer antes das 11:30 porque nesse horário saíam para o almoço os empregados da Rede Ferroviária. Quando tocava o buzo (campainha) disparavam centenas de bicicletas pela Av. Agenor Caldas e se não tivéssemos atravessado a Avenida, perdíamos um tempão esperando as bicicletas passarem.

No dia seguinte, mais praia. E assim seria até o término das férias, que naquela época duravam três meses.


FESTA JUNINA

 Em Macaé, nas décadas de 60 e 70, aconteciam muitas festas juninas nos bairros, diferentemente de hoje.

No Cajueiros, no mês de junho, as quadrilhas aconteciam em vários lugares. Uma delas, no beco de Walter Foguete, era minha preferida. Eu via a festa da casa de Dna Maria de seu Thomaz, nossa vizinha. O muro dos fundos dava para o beco. Nós subíamos em caixotes e ficávamos assistindo a quadrilha. Sempre fui muito “bicho do mato”, nunca gostei de “aparecer” mas morria de vontade de vestir aquelas roupas coloridas, pintar o rosto com pintinhas pretas e dançar a quadrilha. Como meus pais eram evangélicos, não permitiam. Tinha que me contentar em apenas assistir.

A religião dos meus pais me privou de alguns prazeres na infância e adolescência. Dançar quadrilha foi um deles. Matinê de carnaval, bailes e praia aos domingos pela manhã também eram proibidos. Acho que vem daí minha birra com todas as religiões.

Por outro lado, essas proibições me incentivaram a procurar minha independência financeira desde muito jovem. Por volta dos 13, 14 anos eu já ganhava algum dinheiro pintando lençóis, toalhas, enxoval de bebê, etc... Ana Maria, dona de uma boutique infantil em Niterói, vinha mensalmente a Macaé trazer camisetas para que eu pintasse personagens das histórias em quadrinhos. Eram caixas e mais caixas de camisetas que me ocupavam boa parte das tardes de verão. 

Depois que consegui ganhar meu sustento ninguém mais me colocou cabresto. Dancei todas as quadrilhas que eu quis.



PRAIA DE ADOLESCENTE

Ir a praia todos os dias no período de férias, era sagrado. Era um tempo de “faça você mesmo” porque o dinheiro era pouco e a criatividade era muita. Sendo assim, costumávamos fazer nossos próIprios biquínis. Aprendi com Marília, vizinha da minha prima Lúcia, a fazer biquíni de jérsei, tecido muito usado na época. Para bronzear a pele, misturávamos óleo Johnson e urucum ou iodo. Quanto mais "queimadas" melhor. Ainda não sabíamos do buraco na camada de ozônio e o buraco que nos interessava naquele momento era aquele que fazíamos na areia para acomodar a toalha onde íamos deitar. O que queríamos era desfilar os corpos morenos pela praia e a Praia de Imbetiba era o point. Praia dos Cavaleiros era distante, deserta e brava; nem pensar.

Nessa época eu costumava ir a praia junto com minha prima Lúcia e seus amigos, a maioria vizinhos dela: Marília, Margarida, Ruza, Loloia, Fátima, Sérgio, Dica, etc.... À noite voltávamos para a Imbetiba onde os jovens se encontravam na Toca do Toti, Redondo, Varandão e 860. Os “sem grana” ficavam sentados no muro de pedra em frente á praia ou na areia, em pequenos grupos, onde uns tocavam violão e cantavam, outros namoravam. Época de hormônios a flor da pele.

Fazíamos festinhas hi-fi (festa informal onde cada pessoa leva algo para comer ou beber) na casa de alguns amigos. Bastava uma varanda ou sala espaçosa, luz negra, uma vitrola e muitos discos. Tomávamos cuba-libre, martini e batida. Cerveja não era nossa preferência naquela época. Comparando com as festinhas dos adolescentes de hoje, parecíamos um bando de idiotas. Mas que “idiotice” deliciosa era dançar de rostinho colado, coxa com coxa, e sentir o cheiro bom de loção pós barba!!


BRINCADEIRA DE CRIANÇA

A casa dos meus pais tinha uma calçada alta onde as donas de casa daquela rua, juntamente com minha mãe, ficavam sentadas nas manhãs de inverno “quarando” no sol enquanto conversavam, faziam crochê ou tricô, e tomavam conta dos filhos que brincavam ali por perto. 

E como nós brincávamos na rua de terra batida onde raramente passava um carro!!! Amarelinha, pique - esconde, queimado, três marias, pular corda, andar de bicicleta, etc...eram nossas brincadeiras prediletas.

Os dias de chuva também eram de diversão. Era hora de preparar os barquinhos de papel para jogar na enxurrada. Ficávamos um bom tempo olhando os barquinhos descerem rua abaixo até naufragar na correnteza.  Se a chuva fosse fraquinha e demorasse vários dias, o jeito era brincar dentro de casa. Brincar de casinha, de preferência.

Na casa de Regina tinha uma varanda comprida onde improvisávamos os desfiles de misses. O concurso de Miss Brasil era um sucesso e era também o sonho das adolescentes daquela época. A coroa, o cetro e o manto eram “fabricados” com apetrechos da casa de Carminha, mãe de Regina. As mais feinhas e tímidas, como eu, ficavam no júri e as desinibidas desfilavam. Cacilda fazia caras e bocas e vibrava quando ganhava. Depois desfilava pela varanda na ponta dos pés, arrastando o manto (um lençol vermelho) e um sorriso de orelha a orelha.

Passaram-se alguns anos e as senhoras da rua continuavam passando parte da manhã sentadas na calçada na sua tarefa de trocar receitas, pontos de tricô, e falar sobre os acontecimentos do bairro. Lembro-me de um vizinho, um senhor alto e magro, que era um dos poucos do bairro que possuía carro e dirigia muito, muito mal. Quando ele ia retirando o carro da garagem, José Luiz, um rapaz que trabalhava no bar da esquina, chegava na porta do bar e gritava para as mulheres da calçada e as crianças que brincavam – “Corre que seu Manoel tá saindo com o carro”. Ficavam todas alertas, prontas para sair fora caso seu Manoel se dirigisse em direção à calçada. Todos paravam suas atividades e se preparavam pra correr, caso o “barbeiro” se aproximasse.

 

Tempo bão!!!!