Memórias de Viagens e Retalhos da Vida
Resolvi adotar um blog como diário. Não pretendo fazer um guia de viagem, recomendar lugares, onde comer, onde se hospedar, muito menos relatar grandes aventuras, até porque não sou Marco Polo nem Amir Klink, esses sim, grandes aventureiros. Esse blog é uma forma de não perder essa memória que é um recurso para viajar de novo, pelos mesmos lugares, com os olhos da alma. Trago na bagagem muitas lembranças e pouquíssimo souvenir. São os detalhes que fazem cada viagem ser diferente da anterior.
14 maio, 2026
MEU BAIRRO
SEM FOTOS
Percebi há pouco
tempo que não tenho fotos dos meus amigos de infância, nenhuma fotozinha
embaçada, desfocada, carcomida...nada. Só lembranças.
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| Eu e Verinha na Rua da Praia |
Se tivéssemos fotografado aqueles momentos eu teria uma foto com Cacilda colocando barquinhos de papel na enxurrada e tomando banho de mar na praia da Pedras. Fotos com Rosângela, Penha, Regina, Lena, jogando Queimado no poeirão em frente à casa de Seu Waldimiro. Uma foto minha e de Elisa sentada no meio-fio conversando sobre sua paixão por Toninho. Eu teria várias fotos com Alcione, sentadas no murinho em frente à igreja Presbiteriana, dançando no quarto com piso de madeira no andar de cima da casa dela, cantado no Coral da Igreja Batista.
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| Eu e Paulinho, neto de Seu Arnulfo |
Reza a lenda que o primeiro beijo a gente nunca esquece. Se não fosse pela foto eu já teria esquecido.
11 maio, 2026
TRILHA SONORA
Parece-me que cada pessoa tem sua trilha sonora da vida.
A da infância com as musiquinhas que
aprendeu a cantar na escola, na brincadeira com os amiguinhos, na igreja, etc. Nos
dias atuais as fontes são outras: o que se ouve na TV, no Tik Tok, YouTube, etc.
Na adolescência as músicas dançantes e as românticas que no futuro vão fazer parte da sua memória das baladas e dos namoros.
Na idade adulta a gente vai aumentando o repertório e refinando o gosto, ou não.
Na fase dos 60+ a gente costuma só lembrar da trilha sonora antiga, dificilmente entra uma música, nova até porque nessa fase só conseguimos decorar o refrão.
A minha trilha sonora começou com o Atirei o Pau no Gato Tô Tô e outras similares. Na minha casa eu ouvia de tudo, querendo ou não. A noite, meu irmão Vanderlei chegavam do colégio colocava sua música preferida na vitrola, apagava a luz, deitava-se no sofá e ficava ouvindo música clássica até o sono chegar. Eu tbm me habituei com esse ritual e por muitos anos ouvi música clássica até adormecer. Um dia Vilson entrou em cena e me privou desse prazer, a música atrapalhava o sono dele. Duvido, ele hoje dorme com a TV e o celular ligados, todos dois ao mesmo tempo.
https://www.youtube.com/watch?v=1PkD47rNkfY
No período da minha adolescência e início da vida adulta, meu irmão comprava discos de música francesa e italiana (era moda na época), música da jovem guarda e bossa nova. Da esquina em frente a nossa casa, no Bar de Zé Café, vinha o som que eu mais gostava: música americana. Eu adorava quando acordava pela manhã ouvindo I Starded The Joke, Ben, If e outras tantas. Zé Luiz caprichava na play list.
https://www.youtube.com/shorts/ZYo80tLgWnY
https://www.youtube.com/shorts/DXSwx7bhTZA
https://www.youtube.com/shorts/SZHzdLUePDA
No outro lado da rua ficava o boteco de Valdo, e ali os bebuns do Cajueiros, e eu na minha casa, ouvíamos Nelson Gonçalves, Ataulfo Alves, Vicente Celestino, Dalva de Oliveira.
https://www.youtube.com/watch?v=gbAL2hmQLX0
E tinha também a trilha sonora da igreja, como não: Quão grande és Tu, Deus cuidará de ti, Oh Mestre o mar se revolta, Vamos nós louvar a Deus, etc.
https://www.youtube.com/watch?v=xE-UjFSmDCQ
10 maio, 2026
SENILIDADE
Minha mãe encarava com bom humor as limitações que a idade foi lhe trazendo, exceto nos dois últimos anos, quando a doença tornou a vida um fardo pesado demais para ela.
Jesuína era minha tia, uma irmã da minha mãe que morreu antes mesmo que eu houvesse nascido. Mamãe já não sabia quem eu era, mas ficava aguardando ansiosa pela minha chegada.
TEMPESTADE
Sentei-me no tronco que fica atravessado na parte alta do terreiro, um pouco abaixo do morrinho que fica por trás da nossa casa no sítio. Estou esperando chegar a chuva que se anuncia no horizonte. Adoro ficar olhando a tempestade assim de longe. Sinto-me segura nessa distância.
ENTENDENDO CLARICE
Quando eu era bem jovem ganhei um livro de Clarice Lispector. Não me lembro o nome do romance só lembro que achei muito chato e abandonei a leitura pela metade. Naquela época gostava de ler Ernest Hemingway, Frederick Forsyth, Jorge Amado...aquele texto muito introspectivo de Clarice era pesado demais prá mim.
PERDER UM AMIGO
Hoje soube que uma amiga de infância está com câncer. De repente me veio o pensamento, cada vez mais recorrente, de que o tempo está correndo rápido demais e que agora são os amigos que estão partindo.
OS RESSUSCITADOS
Dizem que sonhamos todas as noites. Se sonho, raramente me lembro e quando lembro, é só bobagem.
FESTA DE ANIVERSÁRIO
Sou uma distraída incurável.
- Estranho já passa das 18 h e até agora não chegou nenhum familiar?
- A festa está marcada para as 19.
- É isso! Enganei-me com o horário, achei que fosse as 17 h.
Culpa de Valdéa, filha da mãe, me informou a hora errada. Liguei pra ela:
As pessoas foram chegando. Maria arrumou uma amiguinha e estava se esbaldando nos brinquedos. Reparei que o tema da decoração era o Batman, tudo preto e azul – que estranho, festa do Batman para uma menina de um ano?
- Não, sou amiga da avó de Thais.
A moça se afasta com uma cara estranha.
Gente, e eu lá tenho cara e idade pra ser mãe de criança que ainda frequenta creche?
Meu Deus!!!! Thais não está em creche, à festa começava as 19 h, decoração do Batman. Tô no lugar errrraaaado!!!!! Ligo pra Rosani:
- Rosani, qual o local da festa de Thais?
- Num salão de festa na rua em frente ao salão M Beauty. Buffet da Fátima.
- Rosani? Acho que já sei, tô indo pra lá.
- Hellooooo Ângela. O aniversário é amanhã. Tá maluca?
Puta que pariu!!!! Vou matar Valdéa!!!
Fiquei meio sem graça e tentei tirar Maria da brincadeira. Quem disse que ela aceitou sair? Tinha arrumado uma amiguinha pra lá de levada. Queria ficar e dançar o funk das poderosas. É, não vai ser fácil arrancar ela daqui.
– Quer que coloque os presentes na caixa?
Tivemos que explicar. O que esse pessoal vai pensar, quando formos embora levando os presentes? Duas loucas.
Saímos da festa depois dos “parabéns”. Maria ainda entrou na fila da lembrancinha e ganhou um monte de brinquedinhos e doces. Minha neta, estava suada, pé todo sujo de andar descalça, cabelo todo desarrumado. Valeu o vexame.
DEUS ESTÁ NO CONTROLE
As vezes sinto inveja de quem acredita na frase "Deus está no controle".
FILHOS
20.08.2016
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| Meus Filhos |
O PODER
17.04.2016
SHOW DE JAMES TAYLOR E ELTON JOHN
Em Janeiro Rosani surgiu com essa ideia de irmos ao show de Elton John e James Taylor no Rio, em abril. Rosani é conhecida no nosso grupo como "juíza", por causa do seu temperamento decidido e um pouco briguento, então quando ela decide não dá trégua.
Aí, Graça, nossa guia turística predileta, sai em campo para viabilizar os delírios de nossa companheira.
Sou fã dos dois artistas, mas nunca tinha cogitado assistir um show dos dois. Rock in Rio nunca esteve nos meus projetos, tenho um pouco de medo de multidão, prefiro assistir essas apresentações em teatro, quando é acessível ao meu bolso.
Depois de alguma divulgação nos grupos do ZAP, montamos a turma de quatorze pessoas.
01.04.2017Encontramo-nos na casa de Graça por volta das nove horas pra partimos para o Rio. Somos quatorze: Angela, Rosane, Valdea, Maura, Vera, Claudia, Cleuza, Marcia, Rosani, Fátima, Ito, Tânia, Lina e Graça. Tudo gente boa.
Combinamos passar primeiro na Feira de São Cristóvão e depois do almoço iremos para o Sambódromo, local do show. Chegamos ao Rio por volta das 12:00 h. A temperatura estava agradável, um ventinho amigo nos recebeu. Comentei com Rosani que havia previsão de chuva para a hora do show:
- Não vai chover, cinquenta por cento de previsão de chuva não é chuva, não chove pode ter certeza.
Juíza falou tá falado, não discuto com autoridades. Mas na minha bolsa tem uma capa de chuva, uma blusa de manga comprida para o caso da outra molhar e um calçado extra. As autoridades as vezes se enganam feio.
Apesar do clima ameno, aqui dentro do pavilhão onde funciona a Feira faz um calor danado. Caminhamos um pouco pelas lojinhas e as companheiras já começaram a fazer umas comprinhas, como é de praxe. Eu comprei o fantoche de um fantasminha, pra ver se assusto meu neto. Desconfio que ele não se assustará e vai destruir o fantasma em alguns segundos.
Chegamos perto de um dos palcos e já estava rolando um forró. Alguns casais já se arriscavam na dança embaixo do sol de meio dia. Uma velhinha desinibida dançava sozinha no melhor estilo “tô nem aí”. Aquela é Claudinha amanhã. Esse forró deve bombar no finalzinho da tarde, quando o sol dá uma trégua.
Procuramos logo um lugar mais fresquinho num dos restaurantes. No local onde escolhemos pra sentar tinha um ventilador bem grande, turbo, jogando um vento delicioso em cima das nossas costas. Imediatamente me veio uma vontade incontrolável de tomar um chope. Começamos os trabalhos e a turma caiu de boca no torresmo, baião de dois, aipim frito, bolinho de bacalhau, etc.
Depois de toda comilança, saímos do restaurante e fomos andando devagar, desgastando o almoço para enfrentar a segunda jornada. Um céu azul sem nuvens me fez pensar que aquela capa de chuva só serviria para fazer uma sauna, se eu desejasse. Ah, se eu soubesse....
Chegamos cedo, o portão ainda não estava aberto. Entramos na fila (ô sina, essa de enfrentar fila). Um calor danado e a turma que vende capa de chuva já estava a postos.
- Olha a capa de chuva! Tá a dez real, mas quando cumeça a chuvê dobra o preço.
Ninguém se animou. Logo o anjo da guarda dos ambulantes que vendem guarda-chuva, sombrinha e capa, começou a trabalhar e uma nuvenzinha preta começou a surgir lá no horizonte.
- Olha lá, chuva tá vindo! Não sou eu que tá falando, foi a Maju que avisou. O preço da capa vai aumentar - anunciou o vendedor de guarda-chuvas.
O pessoal da fila começou a se movimentar e a venda de capas se intensificou. Logo chegaram os primeiros pingos de chuva. Falei pra juíza:
- E aí, não vai comprar uma capinha?
- De jeito nenhum, cinquenta por cento de previsão não é chuva, é só uma garoinha.
Depois de um bom tempo abriram o portão e entramos. Chegamos à arquibancada e escolhemos o lugar que achamos melhor, sem disputa com ninguém porque ainda era em cedo. Estendi minha almofada de silicone, empréstimo da nossa amiga Rose pra mim e Rosani. Comecei a maldizer a almofada, que parecia pesar uma tonelada. Tentei encher a infeliz, soprei, soprei...e nada. Desisti, mas mesmo meio vazia ela cumpria sua função. Será que o silicone que botam no peito e na bunda pesam assim? Imagino que não, caso contrário ninguém ia aguentar carregar essas próteses.
E começou a espera pelo show e comecei a pensar “podíamos ter chegado mais tarde, é tão ruim esperar”. Mal sabia eu que “esperar” seria o menor dos problemas, o pior estava por vir. 
De repente o anjo da guarda dos ambulantes que vendem - vcs já sabem o que eles vendem - abriu a torneira dos céus e “tome chuva”. Como é proibido entrar no local com sombrinhas, todo mundo sacou sua capa de chuva para enfrentar a intempérie.
Pontualmente, com um pequeno atraso de oito minutos, James Taylor surgiu no palco. O atraso foi perfeitamente aceitável até porque ele é americano e não britânico como Elton John. Agora, Sir Elton tem que ser rigorosamente pontual pra manter viva a fama de pontuais dos britânicos.
James está com cara de terceira idade, mas sua voz continua maravilhosa, macia, aveludada. Falou um pequeno texto em português onde dizia que estava feliz por estar novamente no Brasil e explicava que não poderia tocar seu violão porque tinha quebrado o dedo. E xingou “merda”. Começou a cantar seus sucessos. Quando cantava "You’ve got a friend'' a chuva despejou. Mesmo assim todos nós cantamos em coro junto com ele. Liiiiindo!!!
E tome chuva. Minhas pernas já estavam totalmente molhadas porque a capa apesar do número GG não chegavam nem a cobrir os joelhos. Quem manda ser alta!
Parou a chuva e surgiram algumas estrelas no céu. Que bom, a chuva vai parar! Quando James terminou de cantar "Fire and Rain" a chuva voltou a cair. Que ironia, nessa música ele fala que viu o fogo e a chuva. Hoje só viu chuva. No telão ele olha pra cima e seus olhos azuis escuro como os do meu pai, transmite tranquilidade.
A chuva voltou e voltou pior. E aí começamos a ver os estragos: capas com vazamento, outras que rasgam com facilidade, almofadas de tecido que ficaram encharcadas molhando a bunda de quem estava em cima delas. Valdea trouxe um cachecol para se aquecer e ele virou uma esponja. Ela enxugava a capa com ele e torcia em seguida:
- Vim aqui para lavar roupa. Quem quer estender essa roupa pra mim?
Por fim eu já estava desejando que James Taylor se retirasse (tadinho) pra desocupar o lugar pra Elton John começar logo o show, antes que a gente congelasse. Aí ele canta a música que fez em homenagem ao Rio de Janeiro depois que participou do primeiro Rock in Rio. Ele merece nosso sacrifício!
Haja bom humor pra enfrentar esse contratempo. A chuva estava de sacanagem, parava e recomeçava, parava e recomeçava... A gente tentava se enxugar um pouco, tirava a capa, sacudia e logo em seguida chovia de novo. Num desses intervalos comi um pedaço de pizza, comi rápido antes que chovesse novamente. Pizza molhada ninguém merece.
Fiquei preocupada com Rosani. Nesse momento ela era quase a verdadeira imagem do pinto molhado. Digo “quase” porque a imagem verdadeira seria a do próprio pinto, o animal, molhado. Mas ela não se aperta, desceu e comprou uma camisa do show e conseguiu a última capa de um ambulante.
Comecei com uma tremedeira incontrolável e decidi sair da chuva. O show de James já tinha acabado então fui para a área do banheiro que é coberta.
- Elton que se foda. Desculpa aí Sir Elton, vc embalou meus sábados à noite, mas não tenho mais idade pra enfrentar temporal só pra ver meus ídolos da juventude. Aliás, vc se cuide que essa chuvinha aí no palco pode lhe resfriar, vc também já está velhinho.Já encontrei Claudinha e Tânia lá na área coberta. Depois chegou Cleuza. Fui ao banheiro e verifiquei que minha calça estava encharcada. Não havia o que fazer. Enxuguei a capa pra tentar pelo menos me aquecer um pouco. Lá de baixo ouvi quando Elton disse “muito obrigado por resistirem a chuva, é um privilégio tocar pra vocês”.
A chuva deu uma trégua e subimos correndo para o alto da escada. Elton vestido num paletó cintilante, que faria inveja a Cauby Peixoto, dedilhava o piano com a vitalidade que lhe é peculiar. Outro estilo, completamente diferente do seu antecessor no palco. James é Zem, doce. Elton é pura energia. Que show, valeu o sacrifício.
Começou a chover novamente, descemos a escada e fomos pra área coberta. Pouco depois Vera veio nos chamar, disse que Graça estava propondo sairmos um pouco antes de terminar pra evitar o tumulto da saída. Concordamos com ela, exceto Rosani que junto com seu irmão e sua cunhada ficaram até o final.
Saímos pelo portão à esquerda e nos deparamos com as ruas interditadas. Graça ligou para o motorista da Van e ele combinou de nos pegar em frente ao prédio do Batalhão de Polícia. No caminho nos perdemos de Creuza e Taninha. Acho que nos perdemos de Lina também.
Aos poucos os retardatários foram chegando. Quando entramos na Van começamos a fazer o inventário do estrago. Valdea molhou até o dinheiro que estava na carteira, vai ter que pendurar pra secar e ver se salva algum. Márcia, que estava com a roupa na mochila, ficou decepcionada quando viu que estava tudo molhado. A solidariedade das amigas a salvou: uma emprestou uma calça leging e outra uma blusinha. Tânia disse que até a pepeca estava resfriada. Eu estava usando uma bolsa de praia, toda furadinha, molhou tudo que estava dentro. Ainda bem que eu deixei tudo na Van e pude vestir um pulôver quentinho e um calçado seco. Maura ainda me emprestou um casaquinho para cobrir minhas pernas. Enfim parei de tremer.
Parece que na viagem de volta, dentro do carro quentinho, todos dormiram. Não vi ninguém reclamar pela Van não ter parado pra fazer xixi e comer. Não parar pra comer? Estavam desmaiados, com certeza.
É TUDO MENTIRA, HISTÓRIA DE PRIMEIRO DE ABRIL. SÓ QUE NÃO
ELUCUBRANDO
Escrevi sobre determinado assunto num grupo do ZAP e recebi uma crítica agradável de uma amiga:
Porém, em tudo o que escrevemos está presente nossa experiência de vida, tudo o que lemos, o que ouvimos, o que gastamos horas estudando, pensando, avaliando...
Toda essa
memória, que está adormecida nas profundezas do nosso cérebro e que a gente nem
sempre percebe, aflora em determinados momentos, talvez por um gatilho e passa
a compor o cenário que se apresenta naquele momento. Por essa razão o mesmo
fato tem um significado diferente para duas pessoas que viram e vivenciaram o
mesmo fato.
PACTO DE MORTE
Meus pais no dia em que se casaram
Meus pais estiveram casados por 64 anos. Algumas vezes os vi conversarem sobre quem morreria primeiro e dava para perceber a dificuldade que tinham em imaginar a vida sem o companheiro (a) de tantos anos.
Perder o companheiro, mesmo que não seja tão companheiro assim, nesse momento da vida é algo complicado. Se o idoso não tem uma atividade que lhes preencha as horas do dia, a solidão encosta e aí, a falta de um companheiro para partilhar um momento de dificuldade ou até mesmo de alegria, deixa um vazio difícil de ser preenchido.
Por tudo isso meu pai costumava fantasiar que o ideal era que eles morressem juntos.
Um dia vimos na televisão uma matéria sobre um casal de idosos que fizeram um pacto com Deus para que ele os levasse para o além no mesmo dia. Papai comentou que gostaria de fazer o mesmo.
Passado alguns dias, morreram duas pessoas na vizinhança. Perguntei a papai:
- E aí papai, se a morte chegasse aqui do seu lado nesse instante, o que o senhor faria?
Ele olhou para os lados e avistou mamãe debruçada sobre a pia da cozinha. Levantou o braço por cima da cabeça e silenciosamente apontou o dedinho para ela, como se estivesse a indicar para a “morte” que ela deveria ir primeiro. E disse:
- Ela tá mais cansada, eu posso ficar pra depois!
Caí na risada. Na hora “H” ele esqueceu do pacto que queria fazer e só pensou em como seria bom viver um pouco mais.
A PRAIA
Meu pai costumava levar para a praia, toda a criançada da nossa rua. Saíamos bem cedo; íamos a pé e ele de bicicleta, até a Praia das Pedrinhas. Passávamos pela Praia de Imbetiba, depois Praia dos Cavalos (onde algumas pessoas lavavam seus cavalos), contornávamos a sede da Rede Ferroviária e finalmente chegávamos ao nosso destino.
Não havia quase areia nessa praia mas era ótima, pouca onda, mansinha, porque ficava protegida por duas barreiras de pedra que formavam uma pequena enseada. Cacilda, Leomar, Sandrinha, Penha, Rosângela, Fátima e eu, caíamos na água e só saíamos quando a pele já estava murcha de ficar tanto tempo de molho.
Quando conseguíamos uma bóia (câmara de ar de pneu de caminhão) a farra era ainda maior. Sentávamos ao redor da boia, com os pés para dentro, batendo na água e fazendo a boia rodar. Papai costumava mergulhar, vir nadando por baixo d’água e de repente virava a boia. Tbum!!! As que sabiam nadar rapidamente chegavam a areia. Papai ajudava as que não sabiam mas, é claro, elas bebiam alguma água até conseguir sair. Desse jeito, no sufoco, acabamos todas aprendendo a nadar. Método Victório Adamis.
As mais saidinhas arriscavam uma caminhada sobre as pedras e muitas vezes voltavam com os pés cheios de espinhos de ouriços. Dava um trabalhão retirar todos os espinhos, sem contar a dor.
Depois procurávamos uma pedra que fosse um pouco confortável, deitávamos por algum tempo ao sol, sem a preocupação de bronzear o corpo e nem proteger a pele dos raios ultravioleta. Filtro solar ? Ninguém sabia o que era isso !!! O que queríamos era só brincar, brincar e brincar.
A volta para casa tinha que ocorrer antes das 11:30 porque nesse horário saíam para o almoço os empregados da Rede Ferroviária. Quando tocava o buzo (campainha) disparavam centenas de bicicletas pela Av. Agenor Caldas e se não tivéssemos atravessado a Avenida, perdíamos um tempão esperando as bicicletas passarem.
No dia seguinte, mais praia. E assim seria até o término das férias, que naquela época duravam três meses.
FESTA JUNINA
Em Macaé, nas décadas de 60 e 70, aconteciam muitas festas juninas nos bairros, diferentemente de hoje.
No Cajueiros, no mês de junho, as quadrilhas aconteciam em vários lugares. Uma delas, no beco de Walter Foguete, era minha preferida. Eu via a festa da casa de Dna Maria de seu Thomaz, nossa vizinha. O muro dos fundos dava para o beco. Nós subíamos em caixotes e ficávamos assistindo a quadrilha. Sempre fui muito “bicho do mato”, nunca gostei de “aparecer” mas morria de vontade de vestir aquelas roupas coloridas, pintar o rosto com pintinhas pretas e dançar a quadrilha. Como meus pais eram evangélicos, não permitiam. Tinha que me contentar em apenas assistir.
A religião me privou de alguns prazeres na infância e adolescência. Dançar quadrilha foi um deles. Matinê de carnaval, bailes e praia aos domingos pela manhã também eram proibidos. Acho que vem daí minha birra com todas as religiões.
Por outro lado, essas proibições me incentivaram a procurar minha independência financeira desde muito jovem. Por volta dos 13, 14 anos eu já ganhava algum dinheiro pintando lençóis, toalhas, enxoval de bebê, etc... Ana Maria, dona de uma boutique infantil em Niterói, vinha mensalmente a Macaé trazer camisetas para que eu pintasse personagens das histórias em quadrinhos. Eram caixas e mais caixas de camisetas que me ocupavam boa parte das tardes de verão.
Depois que consegui ganhar meu sustento ninguém mais me colocou cabresto. Dancei todas as quadrilhas que eu quis.
PRAIA DE ADOLESCENTE
Nessa época eu costumava ir a praia junto com minha prima Lúcia e seus amigos, a maioria vizinhos dela: Marília, Margarida, Ruza, Loloia, Fátima, Sérgio, Dica, etc.... À noite voltávamos para a Imbetiba onde os jovens se encontravam na Toca do Toti, Redondo, Varandão e 860. Os “sem grana” ficavam sentados no muro de pedra em frente à praia ou na areia, em pequenos grupos, onde uns tocavam violão e cantavam, outros namoravam. Época de hormônios a flor da pele.
Fazíamos festinhas hi-fi (festa informal onde cada pessoa leva algo para comer ou beber) na casa de alguns amigos. Bastava uma varanda ou sala espaçosa, luz negra, uma vitrola e muitos discos. Tomávamos cuba-libre, martini e batida. Cerveja não era nossa preferência naquela época. Comparando com as festinhas dos adolescentes de hoje, parecíamos um bando de idiotas. Mas que “idiotice” deliciosa era dançar de rostinho colado, coxa com coxa, e sentir o cheiro bom de loção pós barba!!
BRINCADEIRA DE CRIANÇA
A casa dos meus pais tinha uma calçada alta onde as donas de casa daquela rua, juntamente com minha mãe, ficavam sentadas nas manhãs de inverno “quarando” no sol enquanto conversavam, faziam crochê ou tricô, e tomavam conta dos filhos que brincavam ali por perto.
E como nós brincávamos na rua de terra batida onde raramente passava um carro!!! Amarelinha, pique - esconde, queimado, três marias, pular corda, andar de bicicleta, etc...eram nossas brincadeiras prediletas.
Os dias de chuva também eram de
diversão. Era hora de preparar os barquinhos de papel para jogar na enxurrada.
Ficávamos um bom tempo olhando os barquinhos descerem rua abaixo até naufragar
na correnteza. Se a chuva fosse
fraquinha e demorasse vários dias, o jeito era brincar dentro de casa. Brincar
de casinha, de preferência.
Na casa de Regina tinha uma varanda
comprida onde improvisávamos os desfiles de misses. O concurso de Miss Brasil
era um sucesso e era também o sonho das adolescentes daquela época. A coroa, o
cetro e o manto eram “fabricados” com apetrechos da casa de Carminha, mãe de
Regina. As mais feinhas e tímidas, como eu, ficavam no júri e as desinibidas
desfilavam. Cacilda fazia caras e bocas e vibrava quando ganhava. Depois
desfilava pela varanda na ponta dos pés, arrastando o manto (um lençol
vermelho) e um sorriso de orelha a orelha.
Passaram-se alguns anos e as senhoras da rua continuavam passando parte da manhã sentadas na calçada na sua tarefa de trocar receitas, pontos de tricô, e falar sobre os acontecimentos do bairro. Lembro-me de um vizinho, um senhor alto e magro, que era um dos poucos do bairro que possuía carro e dirigia muito, muito mal. Quando ele ia retirando o carro da garagem, José Luiz, um rapaz que trabalhava com o pai no bar da esquina, chegava na porta do bar e gritava para as mulheres da calçada e as crianças que brincavam – “Corre que seu Manoel tá saindo com o carro”. Ficavam todas alertas, prontas para sair fora caso seu Manoel se dirigisse em direção à calçada. Todos paravam suas atividades e se preparavam pra correr, caso o “barbeiro” se aproximasse.
Tempo bão!!!!
O ENGANO
Colocar as cadeiras na calçada e prosear, era um hábito da maioria das famílias nas cidades do interior e, na minha rua não era diferente. Assim ficávamos conhecendo e convivendo com a vizinhança. A televisão nos colocou pra dentro de casa e com isso perdemos esse hábito, a meu ver, salutar.
Dna Edemia e o marido, Seu Barroso, junto com seus filhos, costumeiramente no final da tarde sentavam na calçada em frente a casa e por ali ficavam até a noitinha, conversando e vendo a vida passar. Da minha casa eu podia ouvir seu riso alegre e sua voz inconfundível. Quando eu passava, do outro lado da rua, seu Barroso perguntava:
- Ta querendo ficar preta menina? Pra que pegar tanto sol?
Dna Edemia abria um sorriso alegre no rosto redondo e simpático. Ela era uma pessoa extremamente agradável e bem humorada.
Tempos depois ela adoeceu gravemente. A família colocou na sala uma cama hospitalar para dar maior conforto a doente. Nas vezes em que fui visitá-la percebia que ela ainda conseguia manter o espírito brincalhão, apesar da difícil situação em que se encontrava.
Um dos filhos dela, Edemir, trabalhava junto comigo no Unibanco. Numa manhã bem cedinho, quando me arrumava para ir trabalhar, ouvi vozes e pessoas chorando. Olhei por sobre o muro da minha casa e vi que as pessoas estavam na calçada quase em frente a casa de Dna Edemia. Pensei com meus botões – Dna Edemia descansou.
Chegando no banco avisei para os colegas que a mãe de Edemir havia falecido (ele não estava trabalhando). Como não havia telefone na maioria das casas, resolvemos, eu e mais alguns colegas, irmos até a casa de Dna Edemia no intervalo do almoço. Era comum naquela época o corpo ser velado na própria casa. Chegando lá bati à porta, alguém abriu, entramos. Imediatamente ouvi a voz inconfundível de Dna Edemia:
- “Oh minha filha, que bom lhe ver!!!”
- “Trouxe os colegas lá do banco para lhe fazer uma visita.” – respondi com a maior cara de pau.
Teve gente que se espremeu para segurar a risada.
Mais tarde, conversando com minha mãe, descobri que o problema foi na casa da outra vizinha e alguém chorava por causa de uma briga.






