10 maio, 2026

SENILIDADE

 Minha mãe encarava com bom humor as limitações que a idade foi lhe trazendo, exceto nos dois últimos anos, quando a doença tornou a vida um fardo pesado demais para ela.

Diariamente nos encontrávamos em sua casa: eu, meu cunhado e minhas sobrinhas e mais alguns eventuais que apareciam por lá para tomar café e conversar fiado. Por volta das 18 h quando eu entrava na casa, mamãe me olhava com cara de espanto, levantava as mãos para o alto e dizia:

 – “Graças a Deus você chegou, Maria Jesuína”.

 _ " Mamãe, eu sou Ângela, sua filha "

Jesuína era minha tia, uma irmã da minha mãe que morreu antes mesmo que eu houvesse nascido. Mamãe já não sabia quem eu era, mas ficava aguardando ansiosa pela minha chegada.

Algumas vezes ríamos muito das “loucuras dela”. Um dia quando entrei na cozinha - ela estava fazendo café - veio me contar toda agitada que alguém tinha dito que ela teve três filhos, mas ela não lembrava de nada disso. Confirmei que isso era verdade e que eu, Vanderlei e Pedrinho éramos filhos dela e Julieta era filha do coração. Ela fez cara de espanto:

- Pedrinho também é meu filho? Será que ele sabe disso? Acho que ele não vai gostar.

Ela tinha por hábito passar boa parte do dia na janela da sala, que fica em frente à rua. Várias pessoas que passavam pela calçada paravam para conversar com ela, o que era muito bom porque ajudava a preencher as inúmeras horas solitárias que normalmente os idosos têm.

Algumas vezes eu a ouvia conversando animadamente com alguém, beijando pra despedir-se e pedindo pra voltar mais vezes.

- Com quem a senhora estava conversando? Eu perguntava.
- Sei não, mas deve ser conhecida, porque parou prá conversar comigo.

Algumas vezes penso nela e é estranho como não consigo me lembrar da sua fisionomia quando mais jovem. Na imagem que sempre me vem à cabeça, ela está debilitada, com o olhar ausente e um sorriso meio sem graça, como se estivesse esforçando-se para sorrir.

TEMPESTADE

 Sentei-me no tronco que fica atravessado na parte alta do terreiro, um pouco abaixo do morrinho que fica por trás da nossa casa no sítio. Estou esperando chegar a chuva que se anuncia no horizonte. Adoro ficar olhando a tempestade assim de longe. Sinto-me segura nessa distância.

- “Vem prá dentro “mulhe”. Vai “acaba” caindo um raio na sua cabeça!!!

Meu marido tem medo de tempestade. Enfurna-se dentro de casa, desliga a televisão, veste a camisa e mantem distância de espelho.

Lá longe um monte de relâmpagos clareia o céu. E os raios? São lindos os raios. Perigosos mas lindos. Um vento frio bate no meu rosto levando prá longe o calor desse final de um dia de verão. A chuva chega e os pingos batem forte no chão de terra fazendo pequenos buracos e enlameando tudo. Resolvo entrar na casa.

É gostoso ficar aqui, enroscada no sofá, tomando um café quentinho com leite e canela, ouvindo o barulho da chuva que bate no telhado com força. Lá fora já é noite e a chuva lava tudo.

Quando cheguei aqui no sítio hoje pela manhã estava me sentindo aborrecida, angustiada. As horas foram passando e o meu espírito foi ficando mais sossegado, como se o tempo fosse levando as contrariedades, da mesma forma que a chuva vai arrastando as folhas que estão espalhadas pelo terreiro.   

O quintal está lavado e minha alma também.

ENTENDENDO CLARICE

 Quando eu era bem jovem ganhei um livro de Clarice Lispector. Não me lembro o nome do romance só lembro que achei muito chato e abandonei a leitura pela metade. Naquela época gostava de ler Ernest Hemingway, Frederick Forsyth, Jorge Amado...aquele texto muito introspectivo de Clarice era pesado demais prá mim.

Dias atrás minha amiga Núbia deu-me de presente uma coletânea de contos "Clarice na cabeceira". Meio de má vontade fui lendo e aos poucos ela foi me pegando até me encantar por completo.
Dizem que só somos capazes de apreender aquilo que no nosso íntimo, já sabemos. Acho que aconteceu isso comigo com relação à Clarice. Só agora eu estou preparada para entender o que ela quer dizer. Entender....é muita pretensão minha. Pensando melhor, acho que essa leitura é um convite a reflexão. Cada um vai encontrar certa verdade, a sua verdade, entre muitas indecifráveis.
Acho que preciso ler esse livro aos poucos, em doses homeopáticas. Uma dose muito grande de realidade pode ser perigosa. A ignorância, em alguns casos, é benéfica. Algumas vezes chego a achar que é mais fácil ser feliz quando não nos aprofundamos muito em algumas questões. Basta sentir e não procurar entender.

PERDER UM AMIGO

 Hoje soube que uma amiga de infância está com câncer. De repente me veio o pensamento, cada vez mais recorrente, de que o tempo está correndo rápido demais e que agora são os amigos que estão partindo.

Quando eu era criança apenas parentes já idosos morriam e essas mortes, para a criança que eu era, tinha um quê de divertimento, de brincadeira. Era quando os parentes se reuniam e os primos se juntavam nas brincadeiras, no corre-corre pelo terreiro ou em frente à igreja. 
Lembro-me de um vizinho que cometeu suicídio, tomando remédio para matar rato. Foi um bochicho danado na nossa rua. Será que foi por causa de alguma mulher? Foi por causa de alguma dívida? À noite, durante o velório, não se falava em outra coisa. Naquela época a nós, crianças, não era permitido dormir muito tarde exceto em situações especiais como o velório de um parente ou amigo da família. Fiquei acordada até tarde naquela noite, velando o morto, tomando café com rosca, ouvindo o disse-me-disse das fofoqueiras de plantão.
Agora é tão diferente!!! Quando os amigos de longa data morrem, morre também um pouco do que vivemos. É como se nossa história de vida ficasse mais pobre, com menos conteúdo. É isso, o amigo morre e uma parte da nossa vida morre com ele.

Lembro-me de minha mãe que ao morrer, aos 95 anos, já tinha perdido todos os irmãos, cunhados, a maioria dos amigos. Fico imaginando como ela se sentia quando relembrava algum fato antigo da sua vida. Ninguém para confirmar a história, ninguém para rir ou se emocionar ao relembrar, ninguém que pudesse acrescentar algum detalhe esquecido. Sozinha com suas lembranças. Até que o Alzheimer chegou e o caos se instalou.

Alguns costumam chamar a velhice de melhor idade. Melhor coisíssima nenhuma. Dizem que ganhamos sabedoria. Grande consolo, o que fazer com tanta sabedoria se já não temos muito tempo para aproveitá-la? A velhice é uma merda, mas como a outra opção é a morte, melhor aproveitar do jeito que der.

OS RESSUSCITADOS

Dizem que sonhamos todas as noites. Se sonho, raramente me lembro e quando lembro, é só bobagem.

Tive um desses sonhos malucos ontem à noite.  

“As pessoas que morriam em Macaé estavam todas sendo enterradas em Quissamã (sabe-se lá por que).
Eu estava no sítio da minha sogra, em Quissamã, e de repente um menino, cria da casa, entra correndo e me avisa que acabara de chegar à igreja próxima ao sítio, o corpo de uma colega do meu trabalho.

Subi correndo rua acima até a igreja. Minha cunhada Eliana estava arrumando os castiçais ao lado do caixão de uma mulher desconhecida.
- Paulinho disse que chegou o corpo de uma amiga minha...
- Deve ser a que está no quarto aí ao lado. O caixão ainda não chegou.
Entrei no quartinho que tinha apenas uma cama e uma mesinha. Olhei o corpo que estava na cama. Era Rosimara, uma colega de trabalho. Notei que ela estava vestida com a mesma roupa que usou na nossa festinha de final de ano: um short jeans e uma blusa larguinha que caía no ombro. Segurei na mão dela e de repente.....ELA SENTOU-SE NA CAMA!!!!
Olhou-me e disse:

-Nossa, estou cansada de tanto dormir. Tô com fome!
Virgi Maria, que troço é esse!!!

-Vamos até a casa da minha sogra. É aqui pertinho e sempre tem um café.
Peguei na mão dela com cuidado – podia estar gelada – e ajudei-a a descer da cama.

Chegando na casa, encontramos minha sogra sentada na varanda. Ela já estava meio caduca e ficou olhando Rosimara com uma cara de poucos amigos.
Minha cunhada Edinete estava fazendo bolinho de chuva. Peguei o café e alguns bolinhos e levei pra Rosimara na varanda. Entrei de novo na casa e tentei ligar para o marido dela pra avisar que ela não havia morrido ou ressuscitado, sei lá.

De repente, vem o menino correndo de novo e gritando que a outra defunta “tinha revivido”.
- A outra também? Que diacho é isso, gente! Cadê a mulher?

- A muié fico desarvorada quando viu que tava nu caxão!

Olhei pela janela a tempo de ver a defunta correndo pela estradinha, morro abaixo. Tem bom preparo físico, pensei.
Virei para o meu marido, que estava ao meu lado, e disse:

Quando eu morrer quero ser enterrada em Quissamã”.
Acordei em seguida, com o barulho do meu marido mexendo nas panelas da cozinha. O calor do dia que começava encerrou meu sonho.

FESTA DE ANIVERSÁRIO

 Sou uma distraída incurável.

Erro data, troco nomes, já peguei objetos de amigas pensando que eram os meus (óculos, bolsa, celular, máquina fotográfica,etc...). Já fui a casamento errado e já velei morto desconhecido achando que era um amigo falecido que estava em outra capela.
Nos últimos tempos tenho me comportado razoavelmente bem, até que na última semana tive uma recaída.
Há uns vinte dias atrás recebi por e-mail o convite de aniversário da netinha de minha amiga Rosani. Deixei o convite na minha caixa de entrada para não esquecer. Na semana passada ligo para Valdéa para conversar sobre um cruzeiro que faremos em fevereiro. No final do papo Valdéa me pergunta:
-Vc vai ao aniversário de Thais?
- Vou. Que dia é mesmo?
- Sábado agora, as 17 h.
- Tá legal, nos vemos lá.
Liguei para minha nora e avisei que no sábado levaria minha neta Maria Alice na festinha.
Conforme combinado peguei minha neta e fui para o salão de festas. Maria, três aninhos, está naquela fase que adooooora festa. Foi pulando pelo caminho até chegarmos ao local da festa. Entrei e vi que apenas um casal de idosos ocupava uma mesa, todas as demais estavam vazias. Maria disparou em direção ao pula-pula.
Quando uma mulher que trabalhava no Buffet saiu da cozinha, perguntei:
Estranho já passa das 18 h e até agora não chegou nenhum familiar?
- A festa está marcada para as 19.
- É isso! Enganei-me com o horário, achei que fosse as 17 h. 

Culpa de Valdéa, filha da mãe, me informou a hora errada. Liguei pra ela:
- Valdéa, ainda está em casa? Estou aqui na festa e não chegou ninguém.
- Estou na casa de Valéria. Já tô chegando aí. 

As pessoas foram chegando. Maria arrumou uma amiguinha e estava se esbaldando nos brinquedos. Reparei que o tema da decoração era o Batman, tudo preto e azul – que estranho, festa do Batman para uma menina de um ano? 

Sento-me em uma mesa, o garçom me entrega um copo de cerveja, e fico aguardando Valdéa. Uma moça simpática se aproxima e me pergunta:

- Vc é mãe de alguma das crianças da creche?
- Não, sou amiga da avó de Thais.

A moça se afasta com uma cara estranha.

Gente, e eu lá tenho cara e idade pra ser mãe de criança que ainda frequenta creche? 

Meu Deus!!!! Thais não está em creche, à festa começava as 19 h, decoração do Batman. Tô no lugar errrraaaado!!!!! Ligo pra Rosani:

Rosani, qual o local da festa de Thais?
- Num salão de festa na rua em frente ao salão M Beauty. Buffet da Fátima.
Pensei um pouco – o salão fica numa esquina, a rua que estou fica em frente ao salão, mas tem uma rua ao lado. Deve haver outro salão na rua ao lado. 

- Rosani? Acho que já sei, tô indo pra lá.
- Hellooooo  Ângela. O aniversário é amanhã. Tá maluca? 

Puta que pariu!!!! Vou matar Valdéa!!!
E lá vem Valdéa toda faceira. Saia de cintura alta, muitas pulseiras, sorriso até a orelha. No caminho até a mesa pega um sanduíche e um refrigerante. Tenho uma crise de riso e não consigo nem falar. Só consigo chorar, de rir. A dona da festa nos olha meio espantada. Deve estar pensando “quem é essa outra estranha?”  Valdéa não está entendendo nada. Quando enfim consigo contar o equívoco, Valdéa arregala os olhos, olha para o sanduíche, olha para a cara da dona da festa, olha pra mim.
- Que merda!! E agora ?
Chamei a dona da festa e nos explicamos, pedimos mil desculpas e disse que ia pegar minha neta e no retirarmos. A mãe do aniversariante, um menino de quatro anos, foi muitíssimo simpática. Convidou-nos para continuar na festa porque o que ela mais queria era que houvesse muitas, muitas crianças na festa e como minha neta já estava brincando, gostaria que ela permanecesse na festa. O pai do menino também foi muito atencioso e reforçou o convite.

Fiquei meio sem graça e tentei tirar Maria da brincadeira. Quem disse que ela aceitou sair? Tinha arrumado uma amiguinha pra lá de levada. Queria ficar e dançar o funk das poderosas. É, não vai ser fácil arrancar ela daqui.
Resolvi ficar, já tinha dado vexame mesmo, um pouco mais um pouco menos, não faria diferença. Valdéa também ficou, acho que com pena de me deixar sozinha. Passou alguém na mesa e perguntou: 

– Quer que coloque os presentes na caixa?
- Nãããooooo! É para uma menina de um ano.

Tivemos que explicar. O que esse pessoal vai pensar, quando formos embora levando os presentes? Duas loucas. 

Rosani ligou: - Ângela, onde vcs estão?
- Na festa do menino fã do Batman.
- Tá brincando, vcs ainda estão aí? Vcs são malucas e eu sou ainda mais louca por andar com vcs!!!

Saímos da festa depois dos “parabéns”. Maria ainda entrou na fila da lembrancinha e ganhou um monte de brinquedinhos e doces. Minha neta, estava suada, pé todo sujo de andar descalça, cabelo todo desarrumado. Valeu o vexame.

No dia seguinte voltei ao mesmo local para a festa de Thais. A moça da cozinha me olhou meio sem entender. Deve ter pensado:- Essa mulher aqui de noooovo?????

DEUS ESTÁ NO CONTROLE

 As vezes sinto inveja de quem acredita na frase "Deus está no controle".

A fé é um consolo e tanto.

Minha mãe era religiosa, sem exageros, mas com uma fé genuína em Deus. Na década de quarenta meu pai perdeu todo o dinheiro que tinha guardado em um Banco. O Banco (não lembro o nome) quebrou e o dinheirinho que ele economizou durante anos para comprar um caminhão, foi pro ralo. E lá se foi o sonho de deixar o trabalho na roça e se tornar motorista de caminhão.
Minha mãe disse:

- Se Deus não permitiu é porque ele sabe o que é melhor pra nós.

E pronto, tudo resolvido sem choro nem vela.
Eu jamais saberei se ele foi mais feliz porque não se tornou motorista de caminhão. Ela tinha certeza de que foi melhor assim.
Parece-me tão simplista acreditar que tudo que deu errado foi porque "Deus sabe o que é melhor" e tudo que deu certo foi "Graças a vontade de Deus".

Parece que somos meros joguetes na mão do todo poderoso e que ele escolhe caminhos bem tortuosos para chegar ao lugar certo.

Gostaria de acreditar, mas não é fácil.

FILHOS

 20.08.2016

Meus Filhos
Quando os meus filhos nasceram eu imaginava que o papel dos pais seria o fator mais importante na formação do caráter deles. Sabia que o ambiente em que eles viveriam também era importante. Porém, naquela época, eu ainda não tinha a dimensão da influência decisiva da carga genética transmitida pelos pais, trazidas de outras gerações da nossa família.

A idéia de que os recebemos como uma folha em branco e que, recebendo uma educação adequada, irão corresponder a nossa expectativa, é totalmente equivocada. Há momentos em que me surpreendo com nossa total impotência diante do que a natureza determina. Eles serão, sem sombra de dúvida, uma mistura do que eles já trouxeram quando chegaram nesse mundo mais o que esse mundo oferecerá a eles. Só não sei qual será o fator predominante.

Analisando uma situação que ocorre em minha família, fico a imaginar como a personalidade de um filho pode ser completamente diferente dos nossos pais e avós? É como se todos os valores transmitidos por nossos pais durante anos não tivessem encontrado chance de penetrar na formação do caráter do filho. Parece que apenas os traços genéticos e os instintos naturais sobreviveram. E esses traços negativos ainda foram acentuados pelo meio onde passou a viver depois de adulto (profissional e familiar).

Tenho dois irmãos e uma irmã, já falecida. Vejo em nós traços da educação que recebemos. No entanto, em um deles, não consigo reconhecer nenhum desses valores transmitidos pelos nossos pais. Talvez alguma parte tenha sido absorvida por ele, porém é imperceptível pra mim.

Bom, não sei por que ainda me surpreendo. É assim, segundo reza a lenda, desde os tempos de Caim e Abel.

O PODER

 17.04.2016

Estive acompanhando pela televisão a votação sobre o impeachment da Presidenta Dilma, e observando aquela estranha fauna que trabalha (muito menos do que deveria) naquele ambiente. Depois de algum tempo de observação lembrei-me de uma palestra que assisti em um evento de RH, que falava sobre instintos básicos do ser humano: o desejo sexual, a busca do prazer, a agressividade, anseio pelo poder e outros que não me lembro. Segundo o palestrante esses instintos, que todos nós temos, visam à perpetuação da espécie, a preservação da própria vida, etc.

O anseio pelo poder, que me parece estar relacionado à autoestima, fica bem evidente nesse grupo. O ser humano é um bicho interessante. Na empresa onde trabalhei, ficava frequentemente boquiaberta diante da atitude de algumas pessoas que almejavam ocupar cargos ou para se perpetuarem neles. E ficava pensando por que uns desejam tanto o poder e outros não. 

Com o passar dos anos fui entendendo (a idade avançada serve pra alguma coisa) que o desejo de poder está em todos nós. Porque são vários tipos de poder e certamente já fomos afetados por algum deles: político, material, intelectual, físico, estético, etc. Possuímos esse desejo de poder, esse prazer em ser superior ao outro. O prazer de ser mais rico, o mais inteligente, o mais bonito, o mais corajoso, o melhor amante, o mais poderoso, o mais caridoso entre todos os caridosos do seu convívio, o mais cruel entre todos os bandidos, e por aí vai. E esse poder é sempre exercido sobre outro semelhante: filhos, marido, esposa, pais, amigos, empregados, etc.

Muitas vezes esse desejo pelo poder é bem disfarçado. Tive um exemplo claro desse tipo de disfarce utilizado, talvez inconscientemente, por uma colega de trabalho na Petrobras, que utilizava a caridade para alimentar seu ego, seu desejo de ser notada. Talvez por não ser bela ou inteligente ou rica, a bondade foi o seu recurso para ser notada, ser admirada. Sempre tenho um pé atrás com pessoas muito bondosas, faz parte da minha cota de preconceito. 

Quanto a conheci, mantive minha descrença habitual naqueles que são muito caridosos, muito religiosos, muito pudicos. Algumas vezes, com o passar do tempo, percebo que em algumas pessoas essa bondade é genuína, mas é raro. 
Fiquei a observá-la e tempos depois, no episódio da morte de uma cunhada que foi acompanhada por ela durante o período da doença, percebi a verdadeira motivação: poder e vaidade. Enquanto descrevia com detalhes minuciosos o sofrimento pelo qual padecia a enferma nos seus últimos dias, percebi o prazer em seu olhar. O que ela desejava não era minorar a dor da cunhada, mas obter a gratidão de toda a família, criar uma dívida impagável, a dependência da família em relação a ela. A super caridosa.

Não é de se admirar que nas altas esferas de poder todos os pudores sejam abolidos. Se não tivermos instituições fortes e atuantes, não há quem coloque freio nesse desejo incontrolável de poder. Não tenho muita esperança de ver o meu país livre dessa gang que se instalou no governo, em todos os níveis da estrutura.

Não somos muito melhores que os políticos, a diferença é que para os "sem poder" o estrago pode ser menor. Que bicho estranho somos nós !

SHOW DE JAMES TAYLOR E ELTON JOHN

 

Em Janeiro Rosani surgiu com essa ideia de irmos ao show de Elton John e James Taylor no Rio, em abril. Rosani é conhecida no nosso grupo como "juíza", por causa do seu temperamento decidido e um pouco briguento, então quando ela decide não dá trégua. 

Aí, Graça, nossa guia turística predileta, sai em campo para viabilizar os delírios de nossa companheira.

Sou fã dos dois artistas, mas nunca tinha cogitado assistir um show dos dois. Rock in Rio nunca esteve nos meus projetos, tenho um pouco de medo de multidão, prefiro assistir essas apresentações em teatro, quando é acessível ao meu bolso.

Depois de alguma divulgação nos grupos do ZAP, montamos a turma de quatorze pessoas.

01.04.2017
Encontramo-nos na casa de Graça por volta das nove horas pra partimos para o Rio. Somos quatorze: Angela, Rosane, Valdea, Maura, Vera, Claudia, Cleuza, Marcia, Rosani, Fátima, Ito, Tânia, Lina e Graça. Tudo gente boa.

Combinamos passar primeiro na Feira de São Cristóvão e depois do almoço iremos para o Sambódromo, local do show. 
Chegamos ao Rio por volta das 12:00 h. A temperatura estava agradável, um ventinho amigo nos recebeu. Comentei com Rosani que havia previsão de chuva para a hora do show:

- Não vai chover, cinquenta por cento de previsão de chuva não é chuva, não chove pode ter certeza.

Juíza falou tá falado, não discuto com autoridades. Mas na minha bolsa tem uma capa de chuva, uma blusa de manga comprida para o caso da outra molhar e um calçado extra. As autoridades as vezes se enganam feio.

Apesar do clima ameno, aqui dentro do pavilhão onde funciona a Feira faz um calor danado. Caminhamos um pouco pelas lojinhas e as companheiras já começaram a fazer umas comprinhas, como é de praxe.  Eu comprei o fantoche de um fantasminha, pra ver se assusto meu neto. Desconfio que ele não se assustará e vai destruir o fantasma em alguns segundos.

Chegamos perto de um dos palcos e já estava rolando um forró. Alguns casais já se arriscavam na dança embaixo do sol de meio dia. Uma velhinha desinibida dançava sozinha no melhor estilo “tô nem aí”. Aquela é Claudinha amanhã. Esse forró deve bombar no finalzinho da tarde, quando o sol dá uma trégua.

Procuramos logo um lugar mais fresquinho num dos restaurantes. No local onde escolhemos pra sentar tinha um ventilador bem grande, turbo, jogando um vento delicioso em cima das nossas costas. Imediatamente me veio uma vontade incontrolável de tomar um chope. Começamos os trabalhos e a turma caiu de boca no torresmo, baião de dois, aipim frito, bolinho de bacalhau, etc.

Depois de toda comilança, saímos do restaurante e fomos andando devagar, desgastando o almoço para enfrentar a segunda jornada. Um céu azul sem nuvens me fez pensar que aquela capa de chuva só serviria para fazer uma sauna, se eu desejasse. Ah, se eu soubesse....

Chegamos cedo, o portão ainda não estava aberto. Entramos na fila (ô sina, essa de enfrentar fila). Um calor danado e a turma que vende capa de chuva já estava a postos.

- Olha a capa de chuva! Tá a dez real, mas quando cumeça a chuvê dobra o preço.

Ninguém se animou. Logo o anjo da guarda dos ambulantes que vendem guarda-chuva, sombrinha e capa, começou a trabalhar e uma nuvenzinha preta começou a surgir lá no horizonte.

- Olha lá, chuva tá vindo! Não sou eu que tá falando, foi a Maju que avisou. O preço da capa vai aumentar - anunciou o vendedor de guarda-chuvas.

O pessoal da fila começou a se movimentar e a venda de capas se intensificou. Logo chegaram os primeiros pingos de chuva. Falei pra juíza:

- E aí, não vai comprar uma capinha?

- De jeito nenhum, cinquenta por cento de previsão não é chuva, é só uma garoinha.
 
Depois de um bom tempo abriram o portão e entramos. Chegamos à arquibancada e escolhemos o lugar que achamos melhor, sem disputa com ninguém porque ainda era em cedo. Estendi minha almofada de silicone, empréstimo da nossa amiga Rose pra mim e Rosani. Comecei a maldizer a almofada, que parecia pesar uma tonelada. Tentei encher a infeliz, soprei, soprei...e nada. Desisti, mas mesmo meio vazia ela cumpria sua função. Será que o silicone que botam no peito e na bunda pesam assim?  Imagino que não, caso contrário ninguém ia aguentar carregar essas próteses.

E começou a espera pelo show e comecei a pensar “podíamos ter chegado mais tarde, é tão ruim esperar”. Mal sabia eu que “esperar” seria o menor dos problemas, o pior estava por vir. 

De repente o anjo da guarda dos ambulantes que vendem - vcs já sabem o que eles vendem - abriu a torneira dos céus e “tome chuva”. Como é proibido entrar no local com sombrinhas, todo mundo sacou sua capa de chuva para enfrentar a intempérie.

Pontualmente, com um pequeno atraso de oito minutos, James Taylor surgiu no palco. O atraso foi perfeitamente aceitável até porque ele é americano e não britânico como Elton John. Agora, Sir Elton tem que ser rigorosamente pontual pra manter viva a fama de pontuais dos britânicos.

James está com cara de terceira idade, mas sua voz continua maravilhosa, macia, aveludada. Falou um pequeno texto em português onde dizia que estava feliz por estar novamente no Brasil e explicava que não poderia tocar seu violão porque tinha quebrado o dedo. E xingou “merda”. Começou a cantar seus sucessos. Quando cantava "You’ve got a friend'' a chuva despejou. Mesmo assim todos nós cantamos em coro junto com ele. Liiiiindo!!!

E tome chuva. Minhas pernas já estavam totalmente molhadas porque a capa apesar do número GG não chegavam nem a cobrir os joelhos. Quem manda ser alta!

Parou a chuva e surgiram algumas estrelas no céu. Que bom, a chuva vai parar! Quando James terminou de cantar "Fire and Rain" a chuva voltou a cair. Que ironia, nessa música ele fala que viu o fogo e a chuva. Hoje só viu chuva. No telão ele olha pra cima e seus olhos azuis escuro como os do meu pai, transmite tranquilidade.

A chuva voltou e voltou pior.  E aí começamos a ver os estragos: capas com vazamento, outras que rasgam com facilidade, almofadas de tecido que ficaram encharcadas molhando a bunda de quem estava em cima delas. Valdea trouxe um cachecol para se aquecer e ele virou uma esponja. Ela enxugava a capa com ele e torcia em seguida:

- Vim aqui para lavar roupa. Quem quer estender essa roupa pra mim?

Por fim eu já estava desejando que James Taylor se retirasse (tadinho) pra desocupar o lugar pra Elton John começar logo o show, antes que a gente congelasse. Aí ele canta a música que fez em homenagem ao Rio de Janeiro depois que participou do primeiro Rock in Rio. Ele merece nosso sacrifício!

Haja bom humor pra enfrentar esse contratempo. A chuva estava de sacanagem, parava e recomeçava, parava e recomeçava... A gente tentava se enxugar um pouco, tirava a capa, sacudia e logo em seguida chovia de novo. Num desses intervalos comi um pedaço de pizza, comi rápido antes que chovesse novamente. Pizza molhada ninguém merece.

Fiquei preocupada com Rosani. Nesse momento ela era quase a verdadeira imagem do pinto molhado. Digo “quase” porque a imagem verdadeira seria a do próprio pinto, o animal, molhado. Mas ela não se aperta, desceu e comprou uma camisa do show e conseguiu a última capa de um ambulante.

Comecei com uma tremedeira incontrolável e decidi sair da chuva. O show de James já tinha acabado então fui para a área do banheiro que é coberta.

- Elton que se foda. Desculpa aí Sir Elton, vc embalou meus sábados à noite, mas não tenho mais idade pra enfrentar temporal só pra ver meus ídolos da juventude. Aliás, vc se cuide que essa chuvinha aí no palco pode lhe resfriar, vc também já está velhinho.
Já encontrei Claudinha e Tânia lá na área coberta. Depois chegou Cleuza. Fui ao banheiro e verifiquei que minha calça estava encharcada. Não havia o que fazer. Enxuguei a capa pra tentar pelo menos me aquecer um pouco. Lá de baixo ouvi quando Elton disse “muito obrigado por resistirem a chuva, é um privilégio tocar pra vocês”.

A chuva deu uma trégua e subimos correndo para o alto da escada. Elton vestido num paletó cintilante, que faria inveja a Cauby Peixoto, dedilhava o piano com a vitalidade que lhe é peculiar. Outro estilo, completamente diferente do seu antecessor no palco. James é Zem, doce. Elton é pura energia. Que show, valeu o sacrifício.

Começou a chover novamente, descemos a escada e fomos pra área coberta.   Pouco depois Vera veio nos chamar, disse que Graça estava propondo sairmos um pouco antes de terminar pra evitar o tumulto da saída. Concordamos com ela, exceto Rosani que junto com seu irmão e sua cunhada ficaram até o final.

Saímos pelo portão à esquerda e nos deparamos com as ruas interditadas. Graça ligou para o motorista da Van e ele combinou de nos pegar em frente ao prédio do Batalhão de Polícia. No caminho nos perdemos de Creuza e Taninha. Acho que nos perdemos de Lina também.

Aos poucos os retardatários foram chegando. Quando entramos na Van começamos a fazer o inventário do estrago. Valdea molhou até o dinheiro que estava na carteira, vai ter que pendurar pra secar e ver se salva algum. Márcia, que estava com a roupa na mochila, ficou decepcionada quando viu que estava tudo molhado. A solidariedade das amigas a salvou: uma emprestou uma calça leging e outra uma blusinha. Tânia disse que até a pepeca estava resfriada. Eu estava usando uma bolsa de praia, toda furadinha, molhou tudo que estava dentro. Ainda bem que eu deixei tudo na Van e pude vestir um pulôver quentinho e um calçado seco. Maura ainda me emprestou um casaquinho para cobrir minhas pernas. Enfim parei de tremer.

Parece que na viagem de volta, dentro do carro quentinho, todos dormiram. Não vi ninguém reclamar pela Van não ter parado pra fazer xixi e comer. Não parar pra comer? Estavam desmaiados, com certeza.

É TUDO MENTIRA, HISTÓRIA DE PRIMEIRO DE ABRIL. 
SÓ QUE NÃO






ELUCUBRANDO

Escrevi sobre determinado assunto num grupo do ZAP e recebi uma crítica agradável de uma amiga:

 - Você escreveu tão bem, parece que você viveu naquele lugar e que vivenciou aqueles momentos. Eu que estive lá tanto tempo não percebi metade das coisas que vc descreveu.

 Fiquei analisando o que ela disse. Penso que aquele que fala ou escreve sobre o que viveu, o que viu com os próprios olhos, sentiu na própria pele, tem maior chance de descrever melhor do que aquele que fala ou escreve sobre o que não vivenciou.

Porém, em tudo o que escrevemos está presente nossa experiência de vida, tudo o que lemos, o que ouvimos, o que gastamos horas estudando, pensando, avaliando...

Toda essa memória, que está adormecida nas profundezas do nosso cérebro e que a gente nem sempre percebe, aflora em determinados momentos, talvez por um gatilho e passa a compor o cenário que se apresenta naquele momento. Por essa razão o mesmo fato tem um significado diferente para duas pessoas que viram e vivenciaram o mesmo fato.

SONHO DE ADOLESCENTE

Um dia, já bem distante, sonhei em ser uma artista plástica. Um ateliê enorme, um espécie de galpão, com uma luz dourada entrando por uma claraboia no teto. Nas paredes várias telas enormes, algumas inacabadas. Próximo a janela uma mesa de madeira clara, já bem suja de tinta. Eu usava uma roupa bem exótica, o cabelo crespo e rebelde preso em uma boina. Provavelmente vi esta cena em algum filme porque, até aquela data, nunca tinha entrado em um ateliê. 

Meu irmão mais velho, Vanderlei, percebeu que eu tinha algum talento para a pintura e me presenteou com tintas, pincéis, terebintina e tela. E fui pintando, copiando imagens que eu buscava em revistas, pinturas de artistas impressionistas famosos, etc. Nada autoral, somente cópias. Nunca gostei de vender nada e logo percebi que pra ser uma verdadeira artista me faltava criatividade. Fui distribuindo meus quadros entre parentes e amigos, para liberar espaço na casa da minha mãe. Então, para preservar meus amigos e poupá-los dos presentes de grego de quadros fajutos, decidi encerrar minha carreira de aspirante a artista plástica. 

Ufa! Nada de arte, tenho mesmo é que bater carimbo em cheque, contar o dinheiro que não era meu (trabalhava em banco nessa época) e torcer para não faltar dinheiro no caixa no final do dia.

Até hoje não sei exatamente qual a minha vocação, mas gostei de todas as atividades que executei nos meus 44 anos de trabalho.

  

PACTO DE MORTE

Meus pais no dia em que se casaram

Meus pais estiveram casados por 64 anos. Algumas vezes os vi conversarem sobre quem morreria primeiro e dava para perceber a dificuldade que tinham em imaginar a vida sem o companheiro (a) de tantos anos.

Perder o companheiro, mesmo que não seja tão companheiro assim, nesse momento da vida é algo complicado. Se o idoso não tem uma atividade que lhes preencha as horas do dia, a solidão encosta e aí, a falta de um companheiro para partilhar um momento de dificuldade ou até mesmo de alegria, deixa um vazio difícil de ser preenchido.

Por tudo isso meu pai costumava fantasiar que o ideal era que eles morressem juntos.

Um dia vimos na televisão uma matéria sobre um casal de idosos que fizeram um pacto com Deus para que ele os levasse para o além no mesmo dia. Papai comentou que gostaria de fazer o mesmo.

Passado alguns dias, morreram duas pessoas na vizinhança. Perguntei a papai:

- E aí papai, se a morte chegasse aqui do seu lado nesse instante, o que o senhor faria?

Ele olhou para os lados e avistou mamãe debruçada sobre a pia da cozinha. Levantou o braço por cima da cabeça e silenciosamente apontou o dedinho para ela, como se estivesse a indicar para a “morte” que ela deveria ir primeiro. E disse:

- Ela tá mais cansada, eu posso ficar pra depois!

Caí na risada. Na hora “H” ele esqueceu do pacto que queria fazer e só pensou em como seria bom viver um pouco mais.

A PRAIA

 Calçadão da praia de Imbetiba

Eu sou a menininha de jardineira

Meu pai costumava levar para a praia, toda a criançada da nossa rua. Saíamos bem cedo; íamos a pé e ele de bicicleta, até a Praia das Pedrinhas. Passávamos pela Praia de Imbetiba, depois Praia dos Cavalos (onde algumas pessoas lavavam seus cavalos), contornávamos a sede da Rede Ferroviária e finalmente chegávamos ao nosso destino. 

Não havia quase areia nessa praia mas era ótima, pouca onda, mansinha, porque ficava protegida por duas barreiras de pedra que formavam uma pequena enseada. Cacilda, Leomar, Sandrinha, Penha, Rosângela, Fátima e eu, caíamos na água e só saíamos quando a pele já estava murcha de ficar tanto tempo de molho.

Quando conseguíamos uma bóia (câmara de ar de pneu de caminhão) a farra era ainda maior. Sentávamos ao redor da boia, com os pés para dentro, batendo na água e fazendo a boia rodar. Papai costumava mergulhar, vir nadando por baixo d’água e de repente virava a boia. Tbum!!! As que sabiam nadar rapidamente chegavam a areia. Papai ajudava as que não sabiam mas, é claro, elas bebiam alguma água até conseguir sair. Desse jeito, no sufoco, acabamos todas aprendendo a nadar. Método Victório Adamis.

As mais saidinhas arriscavam uma caminhada sobre as pedras e muitas vezes voltavam com os pés cheios de espinhos de ouriços. Dava um trabalhão retirar todos os espinhos, sem contar a dor.  

Depois procurávamos uma pedra que fosse um pouco confortável, deitávamos por algum tempo ao sol, sem a preocupação de bronzear o corpo e nem proteger a pele dos raios ultravioleta. Filtro solar ? Ninguém sabia o que era isso !!! O que queríamos era só brincar, brincar e brincar.

A volta para casa tinha que ocorrer antes das 11:30 porque nesse horário saíam para o almoço os empregados da Rede Ferroviária. Quando tocava o buzo (campainha) disparavam centenas de bicicletas pela Av. Agenor Caldas e se não tivéssemos atravessado a Avenida, perdíamos um tempão esperando as bicicletas passarem.

No dia seguinte, mais praia. E assim seria até o término das férias, que naquela época duravam três meses.


FESTA JUNINA

 Em Macaé, nas décadas de 60 e 70, aconteciam muitas festas juninas nos bairros, diferentemente de hoje.

No Cajueiros, no mês de junho, as quadrilhas aconteciam em vários lugares. Uma delas, no beco de Walter Foguete, era minha preferida. Eu via a festa da casa de Dna Maria de seu Thomaz, nossa vizinha. O muro dos fundos dava para o beco. Nós subíamos em caixotes e ficávamos assistindo a quadrilha. Sempre fui muito “bicho do mato”, nunca gostei de “aparecer” mas morria de vontade de vestir aquelas roupas coloridas, pintar o rosto com pintinhas pretas e dançar a quadrilha. Como meus pais eram evangélicos, não permitiam. Tinha que me contentar em apenas assistir.

A religião dos meus pais me privou de alguns prazeres na infância e adolescência. Dançar quadrilha foi um deles. Matinê de carnaval, bailes e praia aos domingos pela manhã também eram proibidos. Acho que vem daí minha birra com todas as religiões.

Por outro lado, essas proibições me incentivaram a procurar minha independência financeira desde muito jovem. Por volta dos 13, 14 anos eu já ganhava algum dinheiro pintando lençóis, toalhas, enxoval de bebê, etc... Ana Maria, dona de uma boutique infantil em Niterói, vinha mensalmente a Macaé trazer camisetas para que eu pintasse personagens das histórias em quadrinhos. Eram caixas e mais caixas de camisetas que me ocupavam boa parte das tardes de verão. 

Depois que consegui ganhar meu sustento ninguém mais me colocou cabresto. Dancei todas as quadrilhas que eu quis.



PRAIA DE ADOLESCENTE

Ir a praia todos os dias no período de férias, era sagrado. Era um tempo de “faça você mesmo” porque o dinheiro era pouco e a criatividade era muita. Sendo assim, costumávamos fazer nossos próIprios biquínis. Aprendi com Marília, vizinha da minha prima Lúcia, a fazer biquíni de jérsei, tecido muito usado na época. Para bronzear a pele, misturávamos óleo Johnson e urucum ou iodo. Quanto mais "queimadas" melhor. Ainda não sabíamos do buraco na camada de ozônio e o buraco que nos interessava naquele momento era aquele que fazíamos na areia para acomodar a toalha onde íamos deitar. O que queríamos era desfilar os corpos morenos pela praia e a Praia de Imbetiba era o point. Praia dos Cavaleiros era distante, deserta e brava; nem pensar.

Nessa época eu costumava ir a praia junto com minha prima Lúcia e seus amigos, a maioria vizinhos dela: Marília, Margarida, Ruza, Loloia, Fátima, Sérgio, Dica, etc.... À noite voltávamos para a Imbetiba onde os jovens se encontravam na Toca do Toti, Redondo, Varandão e 860. Os “sem grana” ficavam sentados no muro de pedra em frente á praia ou na areia, em pequenos grupos, onde uns tocavam violão e cantavam, outros namoravam. Época de hormônios a flor da pele.

Fazíamos festinhas hi-fi (festa informal onde cada pessoa leva algo para comer ou beber) na casa de alguns amigos. Bastava uma varanda ou sala espaçosa, luz negra, uma vitrola e muitos discos. Tomávamos cuba-libre, martini e batida. Cerveja não era nossa preferência naquela época. Comparando com as festinhas dos adolescentes de hoje, parecíamos um bando de idiotas. Mas que “idiotice” deliciosa era dançar de rostinho colado, coxa com coxa, e sentir o cheiro bom de loção pós barba!!


BRINCADEIRA DE CRIANÇA

A casa dos meus pais tinha uma calçada alta onde as donas de casa daquela rua, juntamente com minha mãe, ficavam sentadas nas manhãs de inverno “quarando” no sol enquanto conversavam, faziam crochê ou tricô, e tomavam conta dos filhos que brincavam ali por perto. 

E como nós brincávamos na rua de terra batida onde raramente passava um carro!!! Amarelinha, pique - esconde, queimado, três marias, pular corda, andar de bicicleta, etc...eram nossas brincadeiras prediletas.

Os dias de chuva também eram de diversão. Era hora de preparar os barquinhos de papel para jogar na enxurrada. Ficávamos um bom tempo olhando os barquinhos descerem rua abaixo até naufragar na correnteza.  Se a chuva fosse fraquinha e demorasse vários dias, o jeito era brincar dentro de casa. Brincar de casinha, de preferência.

Na casa de Regina tinha uma varanda comprida onde improvisávamos os desfiles de misses. O concurso de Miss Brasil era um sucesso e era também o sonho das adolescentes daquela época. A coroa, o cetro e o manto eram “fabricados” com apetrechos da casa de Carminha, mãe de Regina. As mais feinhas e tímidas, como eu, ficavam no júri e as desinibidas desfilavam. Cacilda fazia caras e bocas e vibrava quando ganhava. Depois desfilava pela varanda na ponta dos pés, arrastando o manto (um lençol vermelho) e um sorriso de orelha a orelha.

Passaram-se alguns anos e as senhoras da rua continuavam passando parte da manhã sentadas na calçada na sua tarefa de trocar receitas, pontos de tricô, e falar sobre os acontecimentos do bairro. Lembro-me de um vizinho, um senhor alto e magro, que era um dos poucos do bairro que possuía carro e dirigia muito, muito mal. Quando ele ia retirando o carro da garagem, José Luiz, um rapaz que trabalhava no bar da esquina, chegava na porta do bar e gritava para as mulheres da calçada e as crianças que brincavam – “Corre que seu Manoel tá saindo com o carro”. Ficavam todas alertas, prontas para sair fora caso seu Manoel se dirigisse em direção à calçada. Todos paravam suas atividades e se preparavam pra correr, caso o “barbeiro” se aproximasse.

 

Tempo bão!!!!


O ENGANO

 Colocar as cadeiras na calçada e prosear, era um hábito da maioria das famílias nas cidades do interior e, na minha rua não era diferente. Assim ficávamos conhecendo e convivendo com a vizinhança. A televisão nos colocou pra dentro de casa e com isso perdemos esse hábito, a meu ver, salutar.

Dna Edemia e o marido, Seu Barroso, junto com seus filhos, costumeiramente no final da tarde sentavam na calçada em frente a casa e por ali ficavam até a noitinha, conversando e vendo a vida passar. Da minha casa eu podia ouvir seu riso alegre e sua voz inconfundível. Quando eu passava, do outro lado da rua, seu Barroso perguntava:

- Ta querendo ficar preta menina? Pra que pegar tanto sol?

Dna Edemia abria um sorriso alegre no rosto redondo e simpático. Ela era uma pessoa extremamente agradável e bem humorada.

Tempos depois ela adoeceu gravemente. A família colocou na sala uma cama hospitalar para dar maior conforto a doente. Nas vezes em que fui visitá-la percebia que ela ainda conseguia manter o espírito brincalhão, apesar da difícil situação em que se encontrava.

Um dos filhos dela, Edemir, trabalhava junto comigo no Unibanco. Numa manhã bem cedinho, quando me arrumava para ir trabalhar, ouvi vozes e pessoas chorando. Olhei por sobre o muro da minha casa e vi que as pessoas estavam na calçada quase em frente a casa de Dna Edemia. Pensei com meus botões – Dna Edemia descansou.

Chegando no banco avisei para os colegas que a mãe de Edemir havia falecido (ele não estava trabalhando). Como não havia telefone na maioria das casas, resolvemos, eu e mais alguns colegas, irmos até a casa de Dna Edemia no intervalo do almoço. Era comum naquela época o corpo ser velado na própria casa. Chegando lá bati à porta, alguém abriu, entramos. Imediatamente ouvi a voz inconfundível de Dna Edemia:

- “Oh minha filha, que bom lhe ver!!!”

- “Trouxe os colegas lá do banco para lhe fazer uma visita.” – respondi com a maior cara de pau.

Teve gente que se espremeu para segurar a risada. 

Mais tarde, conversando com minha mãe, descobri que o problema foi na casa da outra vizinha e alguém chorava por causa de uma briga.

INSÔNIA

 

Tenho dormido mal. Acho que é por causa da menopausa. Acordo no meio da madrugada e não consigo pegar no sono novamente. Na tentativa de dormir novamente, tenho recorrido a um velho truque que eu usava quando criança.

Na minha infância, dos 8 aos 11 anos mais ou menos, tive insônia. Eu ficava com muito medo de ficar acordada enquanto todas as outras pessoas da casa dormiam. O quarto dos meus pais tinha uma porta que dava para o meu quarto e que ficava aberta durante a noite, para que eu me sentisse mais tranquila. A toda hora, eu chamava pela minha mãe:

- “Mããããeee!!!" Você tá acordada?

- “Tôôô." – Ela sempre respondia.

E assim eu ia repetindo a pergunta, até adormecer.

Uma noite, depois de perturbar o sono da minha mãe, ela veio até minha cama e falou:

- “Tente cantar mentalmente um cântico da igreja. Vá repetindo sem parar, sem dar espaço que é pra não entrar nenhum outro pensamento na sua cabeça.“

Ela cantou a musiquinha “meu barco é pequeno, tão grande é o mar, Jesus segura minha mão, ele é meu piloto e tudo vai bem, na viagem pra Jerusalém”. Fiz o que ela ensinou e não é que a coisa funcionou?

Hoje esse recurso não está mais resolvendo. Porque será?

Fiz ioga durante um período e em determinado momento entoávamos uma melodia, um mantra. A intenção era entrarmos num estado de meditação, ou pelo menos de relaxamento, visto que meditação requer uma pouco mais de preparo, segundo o professor. Íamos repetindo, repetindo...quando eu percebia estava quase dormindo.

O cântico que minha mãe me ensinou tinha as mesmas características melódicas daquele mantra, um som monocórdico, monótono. Com certeza ela nem sabia o que é um mantra, mas sem saber, recomendou o que era adequado.

Muitas vezes queremos não pensar em determinada coisa mas a mente não nos obedece, parece que tem vida própria. Se isso acontece na madrugada então, é fatal. Ela escolhe os piores pensamentos para atrapalhar seu sono. Parece que faz de propósito. Você tenta ludibria-la mas quando percebe aquele pensamento recorrente volta a ocupar espaço na sua cabeça.   Você procura o sono mas à mente manda ele embora. E nessa guerra com a mente você às vezes sai derrotada, vê o dia clarear e vai trabalhar com um quilo de areia em cada olho.

Acho que o meu mantra da infância está defasado. Com o passar dos anos a minha mente ficou mais esperta e agora acho que preciso de um mantra mais poderoso para dar conta do recado.

E agora mamãe não está no quarto ao lado para me ajudar.


PORTA ABERTA

Parte da Família Adami



Boa parte da família do meu pai morava no interior (mais interior ainda que Macaé) e quando vinham a Macaé resolver qualquer problema (médico, compras, etc..) apareciam, sem avisar, para almoçar. Isso não era um problema, as famílias já estavam acostumadas com as visitas inesperadas, visto que nessa época os meios de comunicação eram: cartas (que demoravam dias para chegar) pombo correio e... sinais de fumaça. Telefone era para poucos privilegiados.

De repente a mesa do almoço ficava rodeada de primos e tios e o falatório era grande. Meu avô repetindo sempre as mesmas histórias (problemas da idade avançada), Tia Mafalda e Tia Mabel sorrindo discretamente, Tio Augusto e seus “causos”. E outros tantos tios, tias, primos e amigos, apareciam sem data e hora marcada.

Os que residiam em Macaé também compareciam para um café e um bate-papo. Zé Porto, Tio Pedro, Tio João Figueiró, Eutália, Zélia, Tia Fina, Tia Laura (parentes da minha mãe) chegavam quase sempre à tarde para uma conversa despretensiosa cujo único objetivo era fortalecer a amizade.

São poucas as casas que hoje mantêm a porta aberta para os parentes e amigos. Até porque temos tão pouco tempo livre, ocupados que estamos em trabalhar, nas compras, no trânsito, no facebook, etc... Convivência agora só virtual.

E quanto maior o poder aquisitivo da família, maior o seu distanciamento desse modelo antigo de relacionamento.

Que saudade do cheiro do café (de coador de pano), da broa quentinha saindo do forno e da mesa onde os adultos conversavam e eu, ainda criança, apenas ouvia e não dava pitaco.

07 maio, 2026

Distraída Demais

Sempre fui muito distraída, me desconcentro com muita facilidade, exceto quando estou lendo algo que me interessa muito ou assistindo um filme muito bom. Nesses momentos alguém ao meu lado pode conversar comigo durante um bom tempo sem que eu perceba nada (meu marido que o diga). 

Essa minha distração as vezes me coloca em alguma "saia justa" ou em situações engraçadas. Quando criança ouvi, várias vezes, minha mãe reclamar que havia me chamado e eu não tinha respondido. Eu simplesmente não escutava o que acontecia a minha volta quando estava concentrada na leitura de um livro ou de uma revista, a não ser que fosse um barulho fora do normal. Mais tarde, já adulta, ocorria a mesma situação quando eu estava concentrada em alguma tarefa. Os colegas de trabalho repetiam a mesma frase da minha mãe.

 

22 agosto, 2025

O ENTERRO


Meu marido não sabe se portar em enterros. Álias, ele não sabe se comportar em outros ambientes também, está cada vez mais “sem noção”, com a idade avançando está perdendo a noção de perigo. Recentemente fomos ao enterro de uma senhora de 86 anos. A maioria das pessoas que ali estavam se conheciam porque eram moradores do mesmo bairro, da mesma vila.

No momento do sepultamento propriamente dito, momento esse que eu penso que é o mais difícil para os familiares, nós estávamos num grupinho um pouco mais afastados da cova. Avistamos Tony Volks caminhando por entre os túmulos. Parecia que estava lendo a lápide de cada um deles, o que é um hábito que eu também tenho. Gosto de ler o epitáfio, tem alguns bem interessantes, tipo o de um velho conhecido meu: “Descanse em paz, seu exemplo de amor e dedicação permanecerá para sempre”. Nada a ver...a vida dele era mais parecida com filme de ação americano. Sabe como é, né? Tiro, porrada e bomba.

De repente Tony se abaixa e pega uma placa de granito, coloca sobre o ombro e sai carregando a pedra. 
 
- Vixe! Acho que Toninho roubou a pedra do túmulo – disse Vilson.

Quando ele passou por nós Vilson perguntou:

- Vai pra onde com essa pedra, Tony?
- É da minha irmã, já morreu um tempão e eu não coloquei o nome dela aqui, só tem o nome dos outros da família.
- Ah, que bom!!! Pensei que você tava roubando de algum morto. Dá um azar danado.

O resto do grupo caiu na risada.

- Vilson, pelo amor de Deus, se comporte. Está chamando a atenção do pessoal que tá enterrando Dona Maria. Isso aqui não é enterro de Arlindo Cruz, não meu filho, sambista é que gosta de animação no enterro. – Repreendi meu marido.

Aí foi que Kelly riu mais alto. Como diria meu pai ‘uma risada de rico”, não que Kelly seja rica, mas a risada é.

Não adianta pedir a ele para que mude seu comportamento, já passou da idade em que isso era possível. Se eu lhe peço para não falar determinada coisa, aí é que ele fala mesmo. Comportamento de velho e de criança são bem parecidos.
 
Decidi sair de perto de Vilson. 

- Vou fingir que nem conheço vocês - avisei.

E saí andando pra longe do túmulo. Kelly ria ainda mais e me chamava.

- Volta Ângela, vem cá....

Preciso escolher melhor as minhas companhias em enterros.

Esquecida e Distraída

 Essa duas características, esquecida e distraída, me acompanham desde o berço, mas estão se tornando um coquetel perigoso na "melhor idade". Vou citar apenas um exemplo dentre tantos.

Meu pai, Vitório, faleceu em 2003 pouco antes de completar 90 anos. Ele era o segundo mais velho entre dez irmãos. Alguns já tinham partido antes dele e a única irmã ainda viva, Tia Zenita, era um pouco mais nova do que ele.

Passado algum tempo eu e minha prima Terezinha Faturine resolvemos ir ao Rio de Janeiro visitar nossa tia que, já bem idosa, morava com a filha Elizete.

- Ângela, Elizete pediu para não falarmos nada com Tia Zenita sobre a morte de Tio Vitório. Ela não sabe que ele morreu, os filhos acharam melhor não contar nada. Ela ainda pensa que o irmão está doente, acamado, mas vivo – Me recomendou Terezinha.

- Ok, não falo nada – Concordei, cheia de boa intenção.

Chegamos na casa da Elizete, nossa prima que é uma ótima anfitriã e que nos recebeu com sua alegria genuína, junto com nossa tia que também tem um bom humor invejável. Almoçamos, descansamos um pouco e mais tarde nos juntamos todos na sala junto com outros primos que chegaram. A conversa rolava solta, como sempre acontece quando nos encontramos, o que não ocorre com a frequência que desejamos. São lembranças da nossa infância e juventude, imagens e cheiros que retemos na memória e que precisamos lembrar, enquanto ainda podemos.

Em dado momento alguém conta algo novo, um fato engraçado que aconteceu recentemente.

- Ah! Se papai estivesse vivo ia adorar ouvir essa história – eu comentei.

Percebi alguns olhos arregalados, mirados em mim.

- O que? Vitório morreu? – perguntou tia Zenita.

- E agora? FudeuEu pensei.

- Mãe, não falamos nada pra senhora porque não queríamos que ficasse triste e a senhora nem poderia ir até lá no velório. Ele estava sofrendo muito, foi melhor assim – explicou Elizete.

- É...se vocês me esconderam isso é bem capaz que a Iolanda (irmã dela) também já tenha morrido – choramingou tia Zenita.

- Morreu mesmo, morreu antes de papai. Desculpe, tia Zenita, mas já que eu fiz a merda é melhor acertar logo tudo – falei desanimada.

 Minha tia ficou tristinha, mas não por muito tempo.

Não sou mais uma pessoa confiável, tenho que avisar aos amigos que não me contem segredos. Correm o risco de ter suas reputações abaladas graças a minha mente cansada.