Resolvi adotar um blog como diário. Não pretendo fazer um guia de viagem, recomendar lugares, onde comer, onde se hospedar, muito menos relatar grandes aventuras, até porque não sou Marco Polo nem Amir Klink, esses sim, grandes aventureiros. Esse blog é uma forma de não perder essa memória que é um recurso para viajar de novo, pelos mesmos lugares, com os olhos da alma. Trago na bagagem muitas lembranças e pouquíssimo souvenir. São os detalhes que fazem cada viagem ser diferente da anterior.
22 agosto, 2025
O ENTERRO
Esquecida e Distraída
Essa duas características, esquecida e distraída, me acompanham desde o berço, mas estão se tornando um coquetel perigoso na "melhor idade". Vou citar apenas um exemplo dentre tantos.
Meu pai, Vitório, faleceu em 2003 pouco antes de completar 90 anos. Ele era o segundo mais velho entre dez irmãos. Alguns já tinham partido antes dele e a única irmã ainda viva, Tia Zenita, era um pouco mais nova do que ele.
Passado algum tempo eu e minha prima Terezinha Faturine resolvemos ir ao Rio de Janeiro visitar nossa tia que, já bem idosa, morava com a filha Elizete.
- Ângela, Elizete pediu para não falarmos nada com Tia Zenita sobre a morte de Tio Vitório. Ela não sabe que ele morreu, os filhos acharam melhor não contar nada. Ela ainda pensa que o irmão está doente, acamado, mas vivo – Me recomendou Terezinha.
- Ok, não falo nada – Concordei, cheia de boa intenção.
Chegamos na casa da Elizete, nossa prima que é uma ótima anfitriã e que nos recebeu com sua alegria genuína, junto com nossa tia que também tem um bom humor invejável. Almoçamos, descansamos um pouco e mais tarde nos juntamos todos na sala junto com outros primos que chegaram. A conversa rolava solta, como sempre acontece quando nos encontramos, o que não ocorre com a frequência que desejamos. São lembranças da nossa infância e juventude, imagens e cheiros que retemos na memória e que precisamos lembrar, enquanto ainda podemos.
Em dado momento alguém conta algo novo, um fato engraçado que aconteceu recentemente.
- Ah! Se papai estivesse vivo ia adorar ouvir essa história – eu comentei.
Percebi alguns olhos arregalados, mirados em mim.
- O que? Vitório morreu? – perguntou tia Zenita.
- E agora? Fudeu – Eu pensei.
- Mãe, não falamos nada pra senhora porque não queríamos que ficasse triste e a senhora nem poderia ir até lá no velório. Ele estava sofrendo muito, foi melhor assim – explicou Elizete.
- É...se vocês me esconderam isso é bem capaz que a Iolanda (irmã dela) também já tenha morrido – choramingou tia Zenita.
- Morreu mesmo, morreu antes de papai. Desculpe, tia Zenita, mas já que eu fiz a merda é melhor acertar logo tudo – falei desanimada.
Não sou mais uma pessoa confiável, tenho que avisar aos amigos que não me contem segredos. Correm o risco de ter suas reputações abaladas graças a minha mente cansada.
03 maio, 2025
AS VÉIAS ESQUECIDAS
Aproveitei o feriado do Dia do Trabalhador e fui dar uma caminhada pela areia da praia. Acordei cheia de preguiça, pra variar, mas olhei o mar azul escuro e me rendi ao encanto de uma manhã de outono de céu limpo e ensolarado. Não dá pra desperdiçar esses dias da melhor estação do ano, amanhã pode chover e eu vou me arrepender.
Logo no início da caminhada encontrei minha amiga Silvia, companheira de "sofrimento" nos exercícios de Pilates. Ela estava acompanhada de uma amiga e começamos a conversar. Papo vai, papo vem, mostrei pra elas o estrago que os borrachudos fizeram na minha perna no sábado, quando visitei minhas primas numa fazenda perto de Trapiche. Estava horrível, porque sou alérgica a picada de mosquito.
- Vou continuar minha caminhada, enquanto caminho esqueço a coceira nas pernas.
E segui em direção a Lagoa de Imboassica. No meio do caminho encontro meu amigo Mario Prado e a namorada. Paro e logo me sento com eles pra conversar. Não demora muito e o assunto ''viagem' surge. Diga-se de passagem, a gente sempre acaba falando um pouco sobre as viagens que fizemos ou as que ainda desejamos fazer. Fiquei um bom tempo conversando com os dois.
Segui com a caminhada, mas não resisti muito tempo, voltei. A maré estava subindo e a parte da areia mais firme já estava coberta pela água. O que restou foi a parte de areia fofa e muito inclinada. A Lagoa que me espere.
Preciso fazer um intensivão de caminhadas porque vou aos Lençóis Maranhenses em junho e estou com pouco preparo físico para subir e descer dunas. Nem sei se vou dar conta.
Um quilometro depois encontro minha amiga Jussara Peruzzi, que não via há muito tempo. Fiquei feliz de vê-la tão bem, alegre e saudável. Ficamos um bom tempo conversando, botando o papo em dia.
À noite, minha amiga Silvia me passa uma mensagem dizendo que a amiga que estava na praia com ela, queria saber o nome do remédio que eu tinha falado. Eu não me lembrava de remédio algum.
É o que eu deveria fazer, mas fiquei embatucada com a história do remédio. Será que o alemão está querendo me visitar? Nesse caso, visitar nós três. Ô medo!!
Fiquei rememorando a nossa conversa desde o início e cheguei no momento em que falava das picadas do mosquito e eu comentei que a minha alergia estava piorando com a idade, como é de se esperar. Comentei que os cheiros, bons ou ruins, estão me incomodando muito e até o cheiro do FreeCô estava se tornando insuportável.
Será que é isso? Pensei.
Mais tarde Silvia manda uma mensagem.
- É isso mesmo!!!😂😂😂
Puta que pariu!!! Remédio pra bloquear o cheiro da titica. É cada uma.
Pandemia
MARÇO DE 2020
16.03 a 22.03.2020
Decidimos passar uma temporada no nosso sítio em Quissamã. Por ser um local mais isolado e pelo maior contato com a natureza, achei que seria mais seguro e menos sufocante.
Victor, Eveli e as crianças, Maria e Bernardo, também vieram. Eu e Vilson viemos primeiro e eles uns dias depois. Maria estava numa ansiedade enorme, como sempre, para sair de casa e passear um pouco. Só que no meio do caminho tinha uma barreira sanitária avaliando quem poderia entrar na cidade. Maria já estava nervosa, ficou mais ainda quando o carro teve que parar e o agente da prefeitura não permitiu que Victor continuasse a viagem porque não tinha um comprovante de residência de Carapebus. Chorou até chegar à casa, em Macaé.
Gosto dos dias aqui no sítio, tranquilos, sem compromisso com horários. Acordo sem pressa, faço o café, arrumo a mesa (coisa que não faço em Macaé) e tomo o meu café com banana cozida, batata doce ou aipim, queijo, pão, bolo. Tenho comido muito mais do que nos dias normais, o efeito colateral vou constatar em breve quando subir na balança. Ivo, nosso amigo que ajuda Vilson a cuidar do gado, toma café conosco. Ele é ótima companhia e torna nosso café da manhã muito mais divertido.
Depois do café tomo um pouco de sol e o dia começa.
Passo boa parte das tardes na rede, lendo e às vezes cochilando. Não gosto de dormir durante o dia porque atrapalha meu sono à noite e, por alguma razão que desconheço, quando isso acontece acordo mal-humorada.
Fomos á Macaé para abastecer a despensa, porque a partir dessa semana a população da casa aumenta.
24.03 a 29.03.2020
Retornamos com meu filho, a esposa e meus netos para a segunda temporada na roça. As crianças chegam já fazendo um alvoroço, Bernardo falando ainda mais alto que o normal, correndo atrás das galinhas, .... Será bom pra eles ficarem aqui, já devem estar cansados de ficarem presos em casa, pelo menos terão mais espaço para gastar toda energia reprimida nesse período. 
Bernardo acorda pela manhã e a primeira coisa que faz é sair procurando os ovos que as galinhas põe. Ele fica tão feliz que hoje eu peguei um ovo na geladeira e coloquei no ninho antes dele começar a procurar. Quando encontra o ovinho grita pra todo mundo ver o seu achado e também pra disputar com Maria quem acha mais ovos. Maria pegou o ovo e foi colocar na geladeira, e estranhou:- Ué! Esse ovo parece que tá gelado.E me olhou meio desconfiada. Disfarcei, pra não gerar ciumeira.
Bernardo, que é muito medroso, está começando a perder o medo dos bichinhos. Agora quando vê algum inseto já se arrisca a dar uma chinelada pra matar os bichos. Só não encarou ainda as pererecas e lagartixas. Tem um sapo grande com uma bonita cor esverdeada, que costuma comer insetos aqui na varanda, e desse todos fogem, exceto eu, Vilson e Victor.
Eveli todo dia come banana com aveia no café da manhã. Maria entregou o motivo de tanta aveia:
- Mamãe come aveia porque senão só faz cocô de bolinha.
Ela vive entregando todo mundo. Ontem Vilson encontrou uns rolinhos de papel higiênico:
- Engraçado esses rolinhos, pra que será que serve? - É pra mamãe limpar meleca.
Hoje, dia 25.03, é aniversário de Vilson, faz setenta e cinco anos e não tá nem aí pro Covid-19. Diz que já está imunizado porque esse vírus não se dá bem com álcool, como ele toma uma cachacinha diariamente acha que está livre dessa gripe. Quem sou eu pra duvidar? Essa criatura não tem o menor cuidado com a saúde e não pega gripe, dengue, chicungunha, zica...nadica de nada. Sou mais nova onze anos, mas se eu der mole ele vai me enterrar.
Maria trouxe um quadro negro pra improvisar um presente pra ele. Eu fiz um desenho do rosto dele e um cachimbo, seu companheiro inseparável. Maria desenhou algumas flores e escreveu uma mensagem. Eveli fez um bolo com cobertura de chocolate, cantamos parabéns e comemos o bolo. Ótimo presente de aniversário em tempos de Pandemia.
Vamos a Macaé para resolver alguns assuntos e retornaremos no dia primeiro de abril. Quando chegamos à barreira sanitária o agente não nos deixou entrar na cidade de Carapebus e recomendou que retornássemos e seguíssemos pra Macaé pela BR-101. Putz! Isso vai aumentar muito nosso percurso.Passamos por Conde de Araruama e seguimos para a BR-101. Faz tanto tempo que não passo por aqui...acho que a última vez foi em 1986, quando paramos pra arrancar uma muda de flamboyant que plantamos no quintal da nossa casa. Essa árvore ainda está lá, na casa que hoje é de Victor.
Chegamos ao trevo da BR-101 na altura da estrada que vai pra Macabuzinho. Vilson, como sempre, fica meio perdido qdo entra em um trevo com algumas saídas e eu dou uma ajudinha. Alguns quilômetros à frente ele ameaça entrar numa saída à direita:
- Êpa! Vai fazer o que aí Vilson?
- Ué, achei que já era a entrada pra Macaé.
- Você viu alguma placa falando isso? Então como é que entra assim sem ter certeza?
- Já rodamos uma porção e essa entrada que não chega.
- Não chegamos nem na entrada de Conceição de Macabu e você já quer chegar em Macaé?
Ele tentou disfarçar, mas a verdade é que ele achou que aquele trevo onde saímos anteriormente era o de Conceição. É muito desorientado!
Na chegada à Cabiúnas a fila pra passar pela barreira estava enorme, levamos uns quarenta minutos até chegar na barreira. Lá mediram nossa temperatura, perguntaram nome, idade e pediram comprovante de residência. Uma das atendentes perguntou a Vilson o que ele estava fazendo fora de casa. Ele olhou de cara amarrada e respondeu que estava no sítio descansando.
A gatinha Mari já estava no pé da escada nos esperando. Gato não faz festa como cachorro, mas do jeito dela demonstrou que estava satisfeita com nossa chegada. Ficou se esfregando nas nossas pernas e andando atrás da gente todo o tempo.
Lar doce lar! Mesmo com a casa cheirando a mofo, é bom voltar pra casa.
ABRIL DE 2020
01.04 a 05.04.2020
Toda semana eu faço um bolo pro café, cada semana um bolo diferente. Nessa semana fiz um bolo com banana, mas a massa ficou meio pesada. Ivo, que sempre toma café conosco, é a garantia que o bolo não corre o risco de ficar esquecido na geladeira. Ele é doido por doce. Comeu do meu bolo e em seguida comeu do bolo que Eveli fez. Olhou pra Vilson e disse:
-Esse bolo de hoje não passou no teste do Imetro.
A concorrência é uma merda.
Depois do café Maria foi fazer as tarefas que o colégio tem enviado pros alunos fazerem durante esse período de quarentena e eu tenho tentado ajudar um pouco. Hoje ela me pediu exemplos de verbos da primeira conjugação. Pensei em algum pra ela conjugar e falei o primeiro que me veio à cabeça:
- Conjugue o verbo cagar no presente do indicativo.
Ela só ria e não conjugava nada. Não nasci pra professora, definitivamente.
Victor tem saído pra pescar todos os dias no final da tarde quando o sol está mais fraco. Ele vai pescar nos brejos que tem aqui no sítio e hoje Bernardo quis ir junto. Ajudou a catar minhocas (quem diria) e ficou lá por algum tempo. Victor tem pegado morobá e traíra, mas devolve pra água em seguida (pesca esportiva), mas não é por pena dos peixes não. É preguiça de limpar, temperar e fritar, diz que dá muito trabalho e pouco prazer.
Lá vem Bernardo com a latinha cheia de minhoca – tão bonitinho!
Hoje à noite eu fiz bolinho de chuva, o bolinho que lembra minha mãe. O meu bolinho não fica tão redondinho porque deixo a massa um pouco mais molinha e jogo direto na panela pra fritar. Esse negócio de ficar enrolando um por um é trabalho demais pra mim. Eveli e Maria disseram que o bolinho de chuva de Daniele, irmã de Eveli, parece um monte de tripinha, não fica redondinho. Talvez ela não esteja colocando fermento na massa.

Bernardo tem muiiiita fome. Um dia desses eu estava na pia lavando a louça do almoço, ele chegou na porta da cozinha e perguntou:
-Vovó, tem um lanchinho pra mim?
- Mas você acabou de almoçar.
-Ué, depois do almoço eu gosto de um lanchinho.
Maria também não fica atrás. Às vezes estamos almoçando e ela pergunta o que vai ter na janta. Ô fome!
Dizem que toda crise traz também uma oportunidade. Certamente esse confinamento, ou distanciamento social, serviu para os cantores descobrirem que as lives podem ser uma ótima oportunidade de negócios. No grupo da família meus sobrinhos postam toda a programação de lives da semana e Leo e Andreza capricham nos vídeos dos dois dançando na sala de casa. Aqui no sítio Eveli e Victor assistem a todas as lives enquanto tomam uma cervejinha. Na TV é Corona vírus as vinte quatro horas do dia. Nos finais da tarde o Ministro Mandeta é a estrela do momento. Tô achando que esse senhor está mais pra celebridade do que pra ministro.
Num desses dias, quando começava a anoitecer, eu fui à cozinha e pela janela vi Bernardo e Maria conversando:
- Malia, olha aquela estrela linda lá no céu, só tem ela!
- É Buba
- É Buba? Ele já tá lá um tempão, né? Mais de um ano.
Que saudade, ele gostaria de estar aqui agora.
Amanhã retornamos a Macaé.
08.04 a 12.04.2020
Dessa vez eu trouxe um bolo que leva iogurte e gelatina de limão na massa. Pra essa semana Eveli fez uns biscoitinhos, que eu não sei do que é feito, e brownie. Trouxe também uns belisquetes pra tomar com cerveja, arsenal para acompanhar as inúmeras lives.
Na hora do café Vilson chegou na mesa com um copo e, distraidamente pediu:
- Coloca uma dose de café aí pra mim. Ih! Me enganei, é um gole de café.
Bebum é uma merda mesma.
Vicente, Valquiria, Soraya e Guilherme virão se juntar a nós. Ficarão até sábado.
As crianças ficaram contentes com a chegada deles. Maria agora tem a companhia de Soraya que tem a idade mais próxima da dela. Bernardo gosta de brincar com Vicente e adora Guilherme, que é um bebê. Ele pegou Guilherme no colo e disse “é meu filhinho”. Eveli também adora dar colo pra neném. Bernardo até ajudou a trocar a roupa de Guilherme, acho que pra ele é mais uma brincadeira.
Agora Victor arrumou uma companhia pra pescaria: Vicente. Lá foram os dois com os caniços rumo ao brejo. Devem estar lembrando os tempos de criança quando pescavam, tomavam banho no tanque dos peixes Tambacus, andavam a cavalo por toda essa região com os amigos da vizinhança....O tempo passou rápido, os cabelos já começam a branquear, os gostos mudaram, os amigos são outros. Tiveram uma boa infância, com muito mais liberdade do que os filhos tem hoje, outros tempos.
Estou com pena de Vicente e Valquiria, o colchão da cama não é dos melhores. Ainda bem que enfermeira dorme em qualquer lugar, segundo uma amiga que me diz que quando sobra um tempinho no plantão ela dorme sentada, deitada, encostado, do jeito que der.
Pro almoço fizemos um bacalhau com legumes ao forno e Vilson fritou uns filezinhos de cação pra quem não gosta de bacalhau. Eu amo bacalhau, de qualquer jeito : assado, frito, gratinado no suflê, todos os petiscos. Só não gostei muito do bacalhau fresco, daquele jeito que você fica sabendo que esse peixe tem cabeça.Depois do almoço Maria, Bernardo e Soraia passaram um bom tempo estudando. Não tem aula física, mas tem virtual. Será que isso vai dar certo?

À tardinha Eveli e Maria costumam se arrumar e ir pra baixo do pé de ipê, se balançar, ouvir música, tirar fotos. Maria costuma dizer que vão ao shopping passear. Vilson também gosta de ficar sentado lá olhando as vacas do outro lado da estradinha e o movimento das pessoas e carros que passam, são poucos, mas ajudam a quebrar o silêncio desse lugar. Hoje Eveli estendeu uma toalha, levou uns belisquetes, cerveja e enfeitou o piquenique com uma garrafinha com flores de bougainville.
À noite Eveli fez hambúrguer com molho gorgonzola. Uma delícia, a carne que Eveli preparou e o molho, tudo ótimo. Pena que hoje é sexta-feira da paixão e muitos não comem carne. Soraia já ia esquecendo, quando Vicente e Valquiria pediram a ela que não comesse carne. Acho que ela ficou com água na boca.
No dia seguinte pela manhã, Victor e a turma dele foram para Macaé. Resolveram não ficar para a Pascoa e não disseram o motivo. Que pena! Eu comprei ovos e ovinhos de Páscoa para fazer a caça ao tesouro com as crianças. Eles adoram essa brincadeira que sempre fazemos nesse dia.
Valquiria está sofrendo com cravos na sola do pé, dois grandões. Vilson ofereceu seus serviços pra retirar os cravos, com canivete amolado e sem anestesia. É assim que ele faz com os deles. Claro que ela não aceitou. Vai ao médico porque já retirou os cravos antes com uma podóloga e depois surgiram outros.
No final do dia Vicente e os demais também foram pra Macaé, como eles já haviam previsto. No Domingo levantei mais tarde porque dormi mal a noite, tomei meu café e em seguida fui pra rede, agora sem concorrência pois a casa está vazia.
Passei a manhã lendo e tomando banho de sol. Que delícia.
Vilson reclamou do silêncio da casa sem as crianças.
É estranho mesmo, parece que falta alguma coisa.
Depois do almoço retornamos pra Macaé, mas voltaremos na próxima semana.
02 maio, 2025
Encontro das Primas
Temos nos encontrado algumas vezes nos últimos anos. Veio a pandemia e interrompemos esse hábito, que na verdade, ainda não estava consolidado. Recentemente faleceu nossa tia Natalina e lá estávamos nós, vários primos que raramente se encontram, fazendo um propósito de agora em diante nos aproximarmos mais. Nessa altura da vida já sei que para a intenção se transformar em ação é preciso uma boa dose de vontade. Tem uma frase de Albert Einstein que diz que "Existe uma força mais poderosa que a eletricidade, o vapor e a energia atômica: é a Vontade". Então vamos esperar que alguém dessa família tenha essa força interior que nos leva a realizar um propósito.
19 abril, 2025
Viajante
01 abril, 2025
A Sombra
Lembro-me das noites de domingo, quando criança, em que acompanhava meus pais pelas ruas mal iluminadas do meu bairro, para assistir ao culto da Igreja Batista. Eu ia pulando sobre a sombra deles que mudava de posição à medida que se aproximavam de um novo foco de luz. Eu ficava intrigada e com um pouco de medo, sem entender direito o motivo pelo qual aquela coisa se arrastava pelo chão e mudava de direção a todo instante. Uma hora estava atrás deles, em seguida na frente, algumas vezes ameaçava desaparecer, para em seguida ir aumentando de tamanho assustadoramente. Pensava que a sombra nos acompanhava mesmo quando não era visível, não a víamos, mas ela estava em algum lugar nos vigiando sempre, fazia parte de nós e aparecia quando queria.
Minha mãe em algum momento explicou-me o porquê da existência da sombra, mas duvidei, achei que ela queria apenas me tranquilizar. Dúvida? O seu nome é Ângela.
Já não tenho medo da sombra, mas ainda desconfio que ela nos espreita silenciosamente e aparece de vez em quando para nos assombrar. São aqueles sentimentos incontroláveis que surgem contra a nossa vontade, brotam talvez do nosso inconsciente. No meu caso, a Dúvida (ou devia chama-la de Desconfiança?) com certeza faz parte dessa sombra que habita meu inconsciente.
Pensando um pouco mais sobre esse assunto, observei que a sombra é resultado desse dualismo “luz e escuridão” duas realidades antagônicas que produzem uma terceira coisa que..... viajei...Será que é assim também com Consciente e Subconsciente, Guerra e Paz, Amor e Ódio, Corpo e Alma? Será que quando essas ideias antagônicas se confrontam, produzem sempre alguma reação?
06 março, 2025
É Errando Que Se Aprende
28 fevereiro, 2025
Dona de Casa? Jamais
06 fevereiro, 2025
Aristóteles e os Peripatéticos
Recentemente, enquanto tomava meu café matinal, a TV mostrava uma entrevista com uma secretária de educação de uma grande cidade do estado de São Paulo. Só depois de tomar o meu café é que saio do estado de letargia que me domina depois que acordo pela manhã e foi nesse estado de lerdeza que ouvi a dita secretária falar de um projeto que estava sendo implantado em algumas escolas da cidade. Ele consistia, entre outras coisas que eu não cheguei a ouvir, em levar as aulas para fora das paredes das salas e das escolas, o que tornaria o aprendizado mais rico e realista e blá blá blá...
E ela ia falando como se tudo aquilo fosse algo novo, uma descoberta recente e importante. Esse é um hábito muito comum nos políticos, mas percebo que a nossa classe de educadores também peca nesse quesito.
No período que trabalhei na Petrobras, participei de muitos cursos interessantes. Em um deles, no início da década de noventa, chamado Curso de Criatividade, o professor utilizou uma sala de grande dimensão com colchões espalhados pelo chão e nesses colchões os alunos sentavam ou deitavam e ali discutíamos os temas desenvolvidos através de desafios, jogos e brincadeiras que realizávamos fora dessa sala, nos jardins que faziam parte desse hotel fazenda.
O curso foi muito bom a ainda hoje lembro de alguns ensinamentos que levei pra minha vida. No entanto me surpreendia o fato dele, o professor, achar que aquilo era uma método diferente, um jeito novo de ensinar.
Como faz falta o estudo da filosofia. Esse método didático é do tempo de Aristóteles da Grécia antiga. Talvez até anterior a ele, porque Sócrates já falava aos seus alunos nas praças de Atenas. Aristóteles dizia que o principal papel da educação é conduzir o homem à felicidade e que esse conhecimento deveria ser prático e útil. Ele fundou sua escola num local integrado a natureza e gostava de ensinar enquanto caminhava com os alunos por diversos ambientes, oferecendo a eles o contato direto com o mundo a sua volta, desenvolvendo neles a capacidade de observação e percepção. Seus alunos eram chamados de peripatéticos - lembro o nome mas esqueci o significado.
Todo professor deveria estudar os grandes filósofos, eu acho. Eu estudei menos do que eu gostaria e mais do que eu precisava para as funções laborais que eu exerci. Continuo lendo a respeito, mas minha memória HD quase não comporta nenhuma nova informação, infelizmente.
01 fevereiro, 2025
Um Frango Chamado Bebeto
Meu marido gosta de criar galinhas lá no sítio. Eu reclamo com ele porque algumas galinhas as vezes cagam na varanda, outras põe seus ovos dentro do fogão à lenha, dentro da pia da varanda de Vilson, e outros lugares inusitados. Quando eu reclamo ele responde:
- Você não gosta de ovo da roça? Então, galinha que é criada presa não bota tanto ovo e não fica com gema avermelhada porque elas só comem ração.
É verdade. Isso compensa a sujeira na varanda, é só lavar.
Tem galinha, tem garnizé, tem galinhola...e tem o frango Bebeto, o único que tem nome. Ele lembra um cara meio maluco que mora próximo ao sítio da minha sogra, e tem esse nome. O frango é grande, tem pernas compridas e é bonito, mas completamente doido. Dispara numa corrida repentina, briga com as galinhas por causa de comida, belisca quem dá milho pra eles, rouba o que a gente estiver comendo próximo a mureta da varanda e se deixar o copo de cerveja em cima da mureta, é bom ficar de olho porque ele vai querer beber sua cerveja. Todos que frequentam o sítio conhecem Bebeto e se divertem com as maluquices dele.
Meu marido vive dizendo que vai dar um fim no frango, porque ele não serve pra ser galo o destino dele é a panela. Eu perguntei pra Vilson:
- Porque ele não serve pra ser galo, acho que ele vai ficar um galo bonito.
- Ele não sabe o que é galinha, é um abestado. O galinho garnizé que é miúdo não perdoa nem as galinhas grandes, é de arrancar as penas das costas das galinhas e Bebeto, que devia proteger as galinhas, fica disputando comida com elas. Não serve pra galo.
Nesse final de semana fomos pro sítio. Estava um calor dos infernos, passava o dia me molhando na cascatinha, lendo e ouvindo música. De vez em quando assaltava a geladeira e comia uns jambos, depois jaca e só ia preparar o almoço lá pelas quatro horas da tarde, quando o dia começava a refrescar.
Dei falta de Bebeto, não apareceu nem uma vez pra tentar bicar meu copo de cerveja. Perguntei a Vilson:
- Cadê Bebeto? Não apareceu por aqui.
- Desencarnou. Estava bicando os pintinhos que soltei do poleiro há pouco tempo. Dei ele pra Ivo e fizeram um frango ensopado com aipim.
Puxa vida! Ele não fazia isso por mal. Vou sentir falta do frango, era tão simpático.
Agora as visitas que vão ao sítio sempre perguntam por Bebeto e eu conto sobre o triste destino desse frango: a panela.
Lembrei-me do poema "Uma Galinha" de Clarice Linspector, onde ela conta a história de uma galinha que se tornou a rainha da casa, mas no final cumpriu o seu destino, virou canja.










