22 agosto, 2025

O ENTERRO


Meu marido não sabe se portar em enterros. Álias, ele não sabe se comportar em outros ambientes também, está cada vez mais “sem noção”, com a idade avançando está perdendo a noção de perigo. Recentemente fomos ao enterro de uma senhora de 86 anos. A maioria das pessoas que ali estavam se conheciam porque eram moradores do mesmo bairro, da mesma vila.

No momento do sepultamento propriamente dito, momento esse que eu penso que é o mais difícil para os familiares, nós estávamos num grupinho um pouco mais afastados da cova. Avistamos Tony Volks caminhando por entre os túmulos. Parecia que estava lendo a lápide de cada um deles, o que é um hábito que eu também tenho. Gosto de ler o epitáfio, tem alguns bem interessantes, tipo o de um velho conhecido meu: “Descanse em paz, seu exemplo de amor e dedicação permanecerá para sempre”. Nada a ver...a vida dele era mais parecida com filme de ação americano. Sabe como é, né? Tiro, porrada e bomba.

De repente Tony se abaixa e pega uma placa de granito, coloca sobre o ombro e sai carregando a pedra. 
 
- Vixe! Acho que Toninho roubou a pedra do túmulo – disse Vilson.

Quando ele passou por nós Vilson perguntou:

- Vai pra onde com essa pedra, Tony?
- É da minha irmã, já morreu um tempão e eu não coloquei o nome dela aqui, só tem o nome dos outros da família.
- Ah, que bom!!! Pensei que você tava roubando de algum morto. Dá um azar danado.

O resto do grupo caiu na risada.

- Vilson, pelo amor de Deus, se comporte. Está chamando a atenção do pessoal que tá enterrando Dona Maria. Isso aqui não é enterro de Arlindo Cruz, não meu filho, sambista é que gosta de animação no enterro. – Repreendi meu marido.

Aí foi que Kelly riu mais alto. Como diria meu pai ‘uma risada de rico”, não que Kelly seja rica, mas a risada é.

Não adianta pedir a ele para que mude seu comportamento, já passou da idade em que isso era possível. Se eu lhe peço para não falar determinada coisa, aí é que ele fala mesmo. Comportamento de velho e de criança são bem parecidos.
 
Decidi sair de perto de Vilson. 

- Vou fingir que nem conheço vocês - avisei.

E saí andando pra longe do túmulo. Kelly ria ainda mais e me chamava.

- Volta Ângela, vem cá....

Preciso escolher melhor as minhas companhias em enterros.

Esquecida e Distraída

 Essa duas características, esquecida e distraída, me acompanham desde o berço, mas estão se tornando um coquetel perigoso na "melhor idade". Vou citar apenas um exemplo dentre tantos.

Meu pai, Vitório, faleceu em 2003 pouco antes de completar 90 anos. Ele era o segundo mais velho entre dez irmãos. Alguns já tinham partido antes dele e a única irmã ainda viva, Tia Zenita, era um pouco mais nova do que ele.

Passado algum tempo eu e minha prima Terezinha Faturine resolvemos ir ao Rio de Janeiro visitar nossa tia que, já bem idosa, morava com a filha Elizete.

- Ângela, Elizete pediu para não falarmos nada com Tia Zenita sobre a morte de Tio Vitório. Ela não sabe que ele morreu, os filhos acharam melhor não contar nada. Ela ainda pensa que o irmão está doente, acamado, mas vivo – Me recomendou Terezinha.

- Ok, não falo nada – Concordei, cheia de boa intenção.

Chegamos na casa da Elizete, nossa prima que é uma ótima anfitriã e que nos recebeu com sua alegria genuína, junto com nossa tia que também tem um bom humor invejável. Almoçamos, descansamos um pouco e mais tarde nos juntamos todos na sala junto com outros primos que chegaram. A conversa rolava solta, como sempre acontece quando nos encontramos, o que não ocorre com a frequência que desejamos. São lembranças da nossa infância e juventude, imagens e cheiros que retemos na memória e que precisamos lembrar, enquanto ainda podemos.

Em dado momento alguém conta algo novo, um fato engraçado que aconteceu recentemente.

- Ah! Se papai estivesse vivo ia adorar ouvir essa história – eu comentei.

Percebi alguns olhos arregalados, mirados em mim.

- O que? Vitório morreu? – perguntou tia Zenita.

- E agora? FudeuEu pensei.

- Mãe, não falamos nada pra senhora porque não queríamos que ficasse triste e a senhora nem poderia ir até lá no velório. Ele estava sofrendo muito, foi melhor assim – explicou Elizete.

- É...se vocês me esconderam isso é bem capaz que a Iolanda (irmã dela) também já tenha morrido – choramingou tia Zenita.

- Morreu mesmo, morreu antes de papai. Desculpe, tia Zenita, mas já que eu fiz a merda é melhor acertar logo tudo – falei desanimada.

 Minha tia ficou tristinha, mas não por muito tempo.

Não sou mais uma pessoa confiável, tenho que avisar aos amigos que não me contem segredos. Correm o risco de ter suas reputações abaladas graças a minha mente cansada.

03 maio, 2025

AS VÉIAS ESQUECIDAS

Aproveitei o feriado do Dia do Trabalhador e fui dar uma caminhada pela areia da praia. Acordei cheia de preguiça, pra variar, mas olhei o mar azul escuro e me rendi ao encanto de uma manhã de outono de céu limpo e ensolarado. Não dá pra desperdiçar esses dias da melhor estação do ano, amanhã pode chover e eu vou me arrepender. 

Logo no início da caminhada encontrei minha amiga Silvia, companheira de "sofrimento" nos exercícios de Pilates. Ela estava acompanhada de uma amiga e começamos a conversar. Papo vai, papo vem, mostrei pra elas o estrago que os borrachudos fizeram na minha perna no sábado, quando visitei minhas primas numa fazenda perto de Trapiche. Estava horrível, porque sou alérgica a picada de mosquito. 

- Vou continuar minha caminhada, enquanto caminho esqueço a coceira nas pernas.

E segui em direção a Lagoa de Imboassica. No meio do caminho encontro meu amigo Mario Prado e a namorada. Paro e logo me sento com eles pra conversar. Não demora muito e o assunto ''viagem' surge. Diga-se de passagem, a gente sempre acaba falando um pouco sobre as viagens que fizemos ou as que ainda desejamos fazer. Fiquei um bom tempo conversando com os dois. 

Segui com a caminhada, mas não resisti muito tempo, voltei. A maré estava subindo e a parte da areia mais firme já estava coberta pela água. O que restou foi a parte de areia fofa e muito inclinada. A Lagoa que me espere.

Preciso fazer um intensivão de caminhadas porque vou aos Lençóis Maranhenses em junho e estou com pouco preparo físico para subir e descer dunas. Nem sei se vou dar conta.

Um quilometro depois encontro minha amiga Jussara Peruzzi, que não via há muito tempo. Fiquei feliz de vê-la tão bem, alegre e saudável. Ficamos um bom tempo conversando, botando o papo em dia. 

À noite, minha amiga Silvia me passa uma mensagem dizendo que a amiga que estava na praia com ela, queria saber o nome do remédio que eu tinha falado. Eu não me lembrava de remédio algum.

- É pra que doença é esse remédio que eu falei?
- Eu não me lembro e ela também não. Kkkkk. 
- Gente do céu, é muita véia doida. Silvia, eu conversei com vocês, depois encontrei Mario Prado e conversei mais um tempão e depois encontrei Jussara e conversei outro tanto. A essa altura do campeonato já misturei as três conversas e vai ser difícil lembrar de alguma coisa, minha memória é uma bosta.
- Deixa pra lá - Concluiu Silvia.

É o que eu deveria fazer, mas fiquei embatucada com a história do remédio. Será que o alemão está querendo me visitar? Nesse caso, visitar nós três. Ô medo!!

Fiquei rememorando a nossa conversa desde o início e cheguei no momento em que falava das picadas do mosquito e eu comentei que a minha alergia estava piorando com a idade, como é de se esperar. Comentei que os cheiros, bons ou ruins, estão me incomodando muito e até o cheiro do FreeCô estava se tornando insuportável.

- O que é isso, FreeCô? - Perguntou a amiga de Silvia.
- É um desodorizador para banheiro - Respondi.
- Eu também uso lá em casa - Informou Silvia

Será que é isso? Pensei.

- Silvia, será que o "remédio" que ela está querendo lembrar é o FreeCô?
- Vou perguntar a ela.

Mais tarde Silvia manda uma mensagem.

- É isso mesmo!!!😂😂😂

Puta que pariu!!! Remédio pra bloquear o cheiro da titica. É cada uma.

Pandemia

MARÇO DE 2020

16.03 a 22.03.2020

Há uns quinzes dias estamos confinados em casa, eu e Vilson, em virtude da pandemia do Coronavirus, que nos irrita e amedronta.

 Decidimos passar uma temporada no nosso sítio em Quissamã. Por ser um local mais isolado e pelo maior contato com a natureza, achei que seria mais seguro e menos sufocante.

Victor, Eveli e as crianças, Maria e Bernardo, também vieram. Eu e Vilson viemos primeiro e eles uns dias depois. Maria estava numa ansiedade enorme, como sempre, para sair de casa e passear um pouco. Só que no meio do caminho tinha uma barreira sanitária avaliando quem poderia entrar na cidade. Maria já estava nervosa, ficou mais ainda quando o carro teve que parar e o agente da prefeitura não permitiu que Victor continuasse a viagem porque não tinha um comprovante de residência de Carapebus. Chorou até chegar à casa, em Macaé.

Gosto dos dias aqui no sítio, tranquilos, sem compromisso com horários. Acordo sem pressa, faço o café, arrumo a mesa (coisa que não faço em Macaé) e tomo o meu café com banana cozida, batata doce ou aipim, queijo, pão, bolo. Tenho comido muito mais do que nos dias normais, o efeito colateral vou constatar em breve quando subir na balança. Ivo, nosso amigo que ajuda Vilson a cuidar do gado, toma café conosco. Ele é ótima companhia e torna nosso café da manhã muito mais divertido.

Depois do café tomo um pouco de sol e o dia começa.

Passo boa parte das tardes na rede, lendo e às vezes cochilando. Não gosto de dormir durante o dia porque atrapalha meu sono à noite e, por alguma razão que desconheço, quando isso acontece acordo mal-humorada.

Fomos á Macaé para abastecer a despensa, porque a partir dessa semana a população da casa aumenta.


24.03 a 29.03.2020

Retornamos com meu filho, a esposa e meus netos para a segunda temporada na roça. As crianças chegam já fazendo um alvoroço, Bernardo falando ainda mais alto que o normal, correndo atrás das galinhas, .... Será bom pra eles ficarem aqui, já devem estar cansados de ficarem presos em casa, pelo menos terão mais espaço para gastar toda energia reprimida nesse período. Bernardo acorda pela manhã e a primeira coisa que faz é sair procurando os ovos que as galinhas põe. Ele fica tão feliz que hoje eu peguei um ovo na geladeira e coloquei no ninho antes dele começar a procurar. Quando encontra o ovinho grita pra todo mundo ver o seu achado e também pra disputar com Maria quem acha mais ovos. Maria pegou o ovo e foi colocar na geladeira, e estranhou:- Ué! Esse ovo parece que tá gelado.E me olhou meio desconfiada. Disfarcei, pra não gerar ciumeira.

Bernardo, que é muito medroso, está começando a perder o medo dos bichinhos. Agora quando vê algum inseto já se arrisca a dar uma chinelada pra matar os bichos. Só não encarou ainda as pererecas e lagartixas. Tem um sapo grande com uma bonita cor esverdeada, que costuma comer insetos aqui na varanda, e desse todos fogem, exceto eu, Vilson e Victor. 

Eveli todo dia come banana com aveia no café da manhã. Maria entregou o motivo de tanta aveia:

- Mamãe come aveia porque senão só faz cocô de bolinha.

Ela vive entregando todo mundo. Ontem Vilson encontrou uns rolinhos de papel higiênico:


- Engraçado esses rolinhos, pra que será que serve? 
- É pra mamãe limpar meleca.

Hoje, dia 25.03, é aniversário de Vilson, faz setenta e cinco anos e não tá nem aí pro Covid-19. Diz que já está imunizado porque esse vírus não se dá bem com álcool, como ele toma uma cachacinha diariamente acha que está livre dessa gripe. Quem sou eu pra duvidar? Essa criatura não tem o menor cuidado com a saúde e não pega gripe, dengue, chicungunha, zica...nadica de nada. Sou mais nova onze anos, mas se eu der mole ele vai me enterrar.

Maria trouxe um quadro negro pra improvisar um presente pra ele. Eu fiz um desenho do rosto dele e um cachimbo, seu companheiro inseparável. Maria desenhou algumas flores e escreveu uma mensagem. Eveli fez um bolo com cobertura de chocolate, cantamos parabéns e comemos o bolo. Ótimo presente de aniversário em tempos de Pandemia.

Vamos a Macaé para resolver alguns assuntos e retornaremos no dia primeiro de abril. Quando chegamos à barreira sanitária o agente não nos deixou entrar na cidade de Carapebus e recomendou que retornássemos e seguíssemos pra Macaé pela BR-101. Putz! Isso vai aumentar muito nosso percurso.Passamos por Conde de Araruama e seguimos para a BR-101. Faz tanto tempo que não passo por aqui...acho que a última vez foi em 1986, quando paramos pra arrancar uma muda de flamboyant que plantamos no quintal da nossa casa. Essa árvore ainda está lá, na casa que hoje é de Victor. 

Chegamos ao trevo da BR-101 na altura da estrada que vai pra Macabuzinho. Vilson, como sempre, fica meio perdido qdo entra em um trevo com algumas saídas e eu dou uma ajudinha. Alguns quilômetros à frente ele ameaça entrar numa saída à direita:

- Êpa! Vai fazer o que aí Vilson?

- Ué, achei que já era a entrada pra Macaé.

- Você viu alguma placa falando isso? Então como é que entra assim sem ter certeza?

- Já rodamos uma porção e essa entrada que não chega.

- Não chegamos nem na entrada de Conceição de Macabu e você já quer chegar em Macaé?

Ele tentou disfarçar, mas a verdade é que ele achou que aquele trevo onde saímos anteriormente era o de Conceição. É muito desorientado!

Na chegada à Cabiúnas a fila pra passar pela barreira estava enorme, levamos uns quarenta minutos até chegar na barreira. Lá mediram nossa temperatura, perguntaram nome, idade e pediram comprovante de residência. Uma das atendentes perguntou a Vilson o que ele estava fazendo fora de casa. Ele olhou de cara amarrada e respondeu que estava no sítio descansando.

A gatinha Mari já estava no pé da escada nos esperando. Gato não faz festa como cachorro, mas do jeito dela demonstrou que estava satisfeita com nossa chegada. Ficou se esfregando nas nossas pernas e andando atrás da gente todo o tempo.

Lar doce lar! Mesmo com a casa cheirando a mofo, é bom voltar pra casa.


ABRIL DE 2020 

01.04 a 05.04.2020

Toda semana eu faço um bolo pro café, cada semana um bolo diferente. Nessa semana fiz um bolo com banana, mas a massa ficou meio pesada. Ivo, que sempre toma café conosco, é a garantia que o bolo não corre o risco de ficar esquecido na geladeira. Ele é doido por doce. Comeu do meu bolo e em seguida comeu do bolo que Eveli fez. Olhou pra Vilson e disse:

-Esse bolo de hoje não passou no teste do Imetro.

A concorrência é uma merda.

Depois do café Maria foi fazer as tarefas que o colégio tem enviado pros alunos fazerem durante esse período de quarentena e eu tenho tentado ajudar um pouco. Hoje ela me pediu exemplos de verbos da primeira conjugação. Pensei em algum pra ela conjugar e falei o primeiro que me veio à cabeça:

- Conjugue o verbo cagar no presente do indicativo.

Ela só ria e não conjugava nada. Não nasci pra professora, definitivamente.

Victor tem saído pra pescar todos os dias no final da tarde quando o sol está mais fraco. Ele vai pescar nos brejos que tem aqui no sítio e hoje Bernardo quis ir junto. Ajudou a catar minhocas (quem diria) e ficou lá por algum tempo. Victor tem pegado morobá e traíra, mas devolve pra água em seguida (pesca esportiva), mas não é por pena dos peixes não. É preguiça de limpar, temperar e fritar, diz que dá muito trabalho e pouco prazer.

Lá vem Bernardo com a latinha cheia de minhoca – tão bonitinho!

Hoje à noite eu fiz bolinho de chuva, o bolinho que lembra minha mãe. O meu bolinho não fica tão redondinho porque deixo a massa um pouco mais molinha e jogo direto na panela pra fritar. Esse negócio de ficar enrolando um por um é trabalho demais pra mim. Eveli e Maria disseram que o bolinho de chuva de Daniele, irmã de Eveli, parece um monte de tripinha, não fica redondinho. Talvez ela não esteja colocando fermento na massa.


Bernardo tem muiiiita fome. Um dia desses eu estava na pia lavando a louça do almoço, ele chegou na porta da cozinha e perguntou:

-Vovó, tem um lanchinho pra mim?

- Mas você acabou de almoçar.

-Ué, depois do almoço eu gosto de um lanchinho. 

Maria também não fica atrás. Às vezes estamos almoçando e ela pergunta o que vai ter na janta. Ô fome!

Dizem que toda crise traz também uma oportunidade. Certamente esse confinamento, ou distanciamento social, serviu para os cantores descobrirem que as lives podem ser uma ótima oportunidade de negócios. No grupo da família meus sobrinhos postam toda a programação de lives da semana e Leo e Andreza capricham nos vídeos dos dois dançando na sala de casa. Aqui no sítio Eveli e Victor assistem a todas as lives enquanto tomam uma cervejinha. Na TV é Corona vírus as vinte quatro horas do dia. Nos finais da tarde o Ministro Mandeta é a estrela do momento. Tô achando que esse senhor está mais pra celebridade do que pra ministro.

Num desses dias, quando começava a anoitecer, eu fui à cozinha e pela janela vi Bernardo e Maria conversando:

- Malia, olha aquela estrela linda lá no céu, só tem ela!

- É Buba

- É Buba? Ele já tá lá um tempão, né? Mais de um ano.

Que saudade, ele gostaria de estar aqui agora.

Amanhã retornamos a Macaé.


08.04 a 12.04.2020

Dessa vez eu trouxe um bolo que leva iogurte e gelatina de limão na massa. Pra essa semana Eveli fez uns biscoitinhos, que eu não sei do que é feito, e brownie. Trouxe também uns belisquetes pra tomar com cerveja, arsenal para acompanhar as inúmeras lives.

Na hora do café Vilson chegou na mesa com um copo e, distraidamente pediu:

- Coloca uma dose de café aí pra mim. Ih! Me enganei, é um gole de café.

Bebum é uma merda mesma.

Vicente, Valquiria, Soraya e Guilherme virão se juntar a nós. Ficarão até sábado.

As crianças ficaram contentes com a chegada deles. Maria agora tem a companhia de Soraya que tem a idade mais próxima da dela. Bernardo gosta de brincar com Vicente e adora Guilherme, que é um bebê. Ele pegou Guilherme no colo e disse “é meu filhinho”. Eveli também adora dar colo pra neném. Bernardo até ajudou a trocar a roupa de Guilherme, acho que pra ele é mais uma brincadeira.

Agora Victor arrumou uma companhia pra pescaria: Vicente. Lá foram os dois com os caniços rumo ao brejo. Devem estar lembrando os tempos de criança quando pescavam, tomavam banho no tanque dos peixes Tambacus, andavam a cavalo por toda essa região com os amigos da vizinhança....O tempo passou rápido, os cabelos já começam a branquear, os gostos mudaram, os amigos são outros. Tiveram uma boa infância, com muito mais liberdade do que os filhos tem hoje, outros tempos.

Estou com pena de Vicente e Valquiria, o colchão da cama não é dos melhores. Ainda bem que enfermeira dorme em qualquer lugar, segundo uma amiga que me diz que quando sobra um tempinho no plantão ela dorme sentada, deitada, encostado, do jeito que der.

Pro almoço fizemos um bacalhau com legumes ao forno e Vilson fritou uns filezinhos de cação pra quem não gosta de bacalhau. Eu amo bacalhau, de qualquer jeito : assado, frito, gratinado no suflê, todos os petiscos. Só não gostei muito do bacalhau fresco, daquele jeito que você fica sabendo que esse peixe tem cabeça.Depois do almoço Maria, Bernardo e Soraia passaram um bom tempo estudando. Não tem aula física, mas tem virtual. Será que isso vai dar certo?


À tardinha Eveli e Maria costumam se arrumar e ir pra baixo do pé de ipê, se balançar, ouvir música, tirar fotos. Maria costuma dizer que vão ao shopping passear. Vilson também gosta de ficar sentado lá olhando as vacas do outro lado da estradinha e o movimento das pessoas e carros que passam, são poucos, mas ajudam a quebrar o silêncio desse lugar. Hoje Eveli estendeu uma toalha, levou uns belisquetes, cerveja e enfeitou o piquenique com uma garrafinha com flores de bougainville.

À noite Eveli fez hambúrguer com molho gorgonzola. Uma delícia, a carne que Eveli preparou e o molho, tudo ótimo. Pena que hoje é sexta-feira da paixão e muitos não comem carne. Soraia já ia esquecendo, quando Vicente e Valquiria pediram a ela que não comesse carne. Acho que ela ficou com água na boca.

No dia seguinte pela manhã, Victor e a turma dele foram para Macaé. Resolveram não ficar para a Pascoa e não disseram o motivo. Que pena! Eu comprei ovos e ovinhos de Páscoa para fazer a caça ao tesouro com as crianças. Eles adoram essa brincadeira que sempre fazemos nesse dia.

Valquiria está sofrendo com cravos na sola do pé, dois grandões. Vilson ofereceu seus serviços pra retirar os cravos, com canivete amolado e sem anestesia. É assim que ele faz com os deles. Claro que ela não aceitou. Vai ao médico porque já retirou os cravos antes com uma podóloga e depois surgiram outros.

No final do dia Vicente e os demais também foram pra Macaé, como eles já haviam previsto. No Domingo levantei mais tarde porque dormi mal a noite, tomei meu café e em seguida fui pra rede, agora sem concorrência pois a casa está vazia. 

Passei a manhã lendo e tomando banho de sol. Que delícia.

Vilson reclamou do silêncio da casa sem as crianças. 

É estranho mesmo, parece que falta alguma coisa.

Depois do almoço retornamos pra Macaé, mas voltaremos na próxima semana.



02 maio, 2025

Encontro das Primas

Temos nos encontrado algumas vezes nos últimos anos. Veio a pandemia e interrompemos esse hábito, que na verdade, ainda não estava consolidado. Recentemente faleceu nossa tia Natalina e lá estávamos nós, vários primos que raramente se encontram, fazendo um propósito de agora em diante nos aproximarmos mais. Nessa altura da vida já sei que para a intenção se transformar em ação é preciso uma boa dose de vontade. Tem uma frase de Albert Einstein que diz que "Existe uma força mais poderosa que a eletricidade, o vapor e a energia atômica: é a Vontade". Então vamos esperar que alguém dessa família tenha essa força interior que nos leva a realizar um propósito. 


Marilene, Leila e Terezinha deram  o pontapé inicial para que esse desejo se concretizasse, agora depende de todos nós que esses encontros ocorram e que outras primas participem.

29.04.2023
        




Chegamos na Fazenda Montelage que pertence as primas e primos Faturine Adami, por volta das 09h e depois dos abraços já fomos pra mesa do café. 
Trouxemos uma broa com goiabada, um bolo de aipim, pão, presunto e queijo. Eu gosto de bolo de aipim, mas não qualquer bolo, esses que ficam meio borrachudos não gosto.  Esse que Ana Eliza fez está realmente com uma textura de bolo.  Adorei! O Fogão a lenha esquentando o ambiente e o filtro de barro me trazem tantas lembranças: o cheiro de banana cozida na chapa, o angu da panela de ferro, o perfume da Açucena na beirada do rio, as férias na Fazenda onde nasci, no Frade, e os passeios na casa de meus avós no Córrego do Ouro. Tia Mafalda agachada na cozinha, os demais sentados em volta ouvindo os causos que ela e papai adoravam contar, o calor do fogo esquentando a noite fria. Acho que a maioria dos meus tios tinham essa mania, de contar fatos engraçados.
Terezinha as voltas com o angu de banana pro almoço e o resto do povo comendo e fofocando, menos Júnior, que ficava quietinho observando a mulherada falar. 

As histórias dos apertos intestinais foram o assunto do dia, quem diria. Uma das primas tinha que fazer um exame e tomou muito laxante. Caminhava para fazer o tal exame e sentiu que o intestino desandava. Quando chegou em frente à loja Resumo da Moda a situação complicou. Viu que tinha um empregado abrindo a loja e se dirigiu a ele:

- Moço, dá pra eu usar o banheiro, tô passando muito mal.

O rapaz foi solidário e levou-a até ao banheiro no fundo da loja. Foi a sorte, mais alguns minutos e o estrago estaria feito. Ela viu que havia um chuveiro e resolveu jogar uma água no corpo para refrescar, tinha suado muito com as cólicas. Depois procurou algo para se secar e só achou um saco de chão dobradinho, que parecia estar meio limpo. "Seja o que Deus quiser" e se secou com o pano de chão. Atravessou a loja, que já estava cheia de clientes, e seguiu aliviada para a rua. 
Num outro dia estava ela no centro da cidade quando a dor de barriga começou. Pensou "Vou pegar um táxi para chegar mais rápido em casa, a coisa tá ficando preta". Entrou no carro e pediu pressa ao motorista. O cara não deu muita importância e logo em seguida o trânsito ficou parado e o motorista cantarolando calmamente.

- Olha só, eu pedi ao senhor que se adiantasse, mas o senhor não deu bola. Aviso-lhe que se demorar muito é bem provável que eu cague no seu carro. 

O taxista achou uma brecha entre os carros e acelerou. Quando chegou em casa ela pagou a corrida e nem esperou o troco. Foi o tempo de abrir o portão e a bosta escorrer pela perna até o pé. Caminhou lentamente até o banheiro deixando um rastro de titica pelo caminho. Ufa!!! Essa foi por pouco.

Uma outra passou pelo aperto dentro de um ônibus indo pra serra. Esses ônibus que fazem esse percurso não costumam ter banheiros. Foi se espremendo até o destino e chegou lá quase desmaiando. 

Uma das primas teve uma prisão de ventre violenta e quando foi evacuar o toletão não saía, botava a carinha pra fora, mas não tinha força. A solução foi pegar uma escova de dente e enfiar o cabo no meio do toletão para desmanchar as fezes duras. Depois de alguns minutos o problema estava resolvido (aviso que a escova foi pro lixo).

Uma outra prima teve uma diarreia anunciada enquanto fazia compras com a nora em pleno Saara no centro do Rio de Janeiro. Avistou um Mac Donalds na esquina e partiu pra lá. Por sorte não tinha fila, sentou-se no vaso sanitário e fez uma escultura maior que um Big  Mac. Seguiu para as compras e quando estava retornando, rumo ao Metro, sentiu o aperto novamente. "Pra ooooode vou?- Pensou''. Um pouco mais a frente encontrou um Bob´s. Que alívio!!! Graças a Deus e a Nossa Senhora dos Fast Foods, escapou da desgraça. 
Seguiram para o Metro e qual não foi a surpresa quando o trem partiu? Isso mesmo que você pensou, a dor de barriga voltou com força. Ela não conseguia nem conversar com a nora que estava junto, só respirava e apertava as pernas uma contra outra para impedir que o mundo viesse abaixo. Ainda bem que eram só duas estações e o hotel ficava em frente a saída do Metro. Se arrastou até o Hotel e nem subiu para o quarto, foi direto ao banheiro da recepção. Nesse mesmo dia tinha que voltar pra Macaé. Quando chegou no guichê para comprar a passagem, perguntou ao atendente:

- Esse ônibus tem banheiro?
- Claro que tem. - Respondeu meio surpreso.
- Então me vê uma passagem no corredor ao fundo do ônibus, se possível.

Outra história se passa em uma viagem que ia muito bem, até que a prima contou aos amigos que viajavam com ela que o intestino dela não funcionava há oito dias. Seus amigos (duas médicas, um médico e uma enfermeira) resolveram que iam dar um jeito na situação. A enfermeira comprou um óleo mineral e obrigava a coitada a tomar aquele óleo em jejum. 

- E aí foi ao banheiro? Já funcionou? - Perguntou a amiga enfermeira.
- Não, só tá uma ronqueira danada, mas quando me sento no vaso só sai um óleo escuro.

No dia seguinte chegaram em outra cidade e compraram dois Clisteres para lavagem intestinal e lhe deram. O amigo médico recomendou.
 - Vá pro hotel e nós ficamos por aqui passeando. Assim você fica calminha, sozinha, e aplica os dois clister. Quando a gente chegar você já estará mais leve uns dois quilos.

E assim foi feito conforme a orientação dos especialistas. E quem disse que esse intestino se deixa impressionar. Só funciona quando quer e ainda não era a hora. A única coisa que saiu dele foi o líquido injetado e o resto do óleo mineral.
Já completara 12 dias sem evacuar. Os amigos já não a deixavam comer nada além de verduras. No dia seguinte iriam pegar um avião a tarde e continuar a viagem por mais 16 dias. Os amigos tinham decidido levá-la a um hospital para que retirassem as fezes que, provavelmente, já teriam se transformado em um fecaloma. Não avisaram nada pra ela. 
Na madrugada desse dia, ela acordou com vontade de fazer xixi e quando sentou-se no vaso e fez um pouco de força para saírem os gases, caiu algo pesado dentro do vaso. Ficou sentada quietinha, sentindo um vazio dentro da barriga.

- Meu Deus, parece até um aborto. Será que meu intestino saiu pra fora?

Levantou-se com cuidado e olhou apavorada pra dentro do vaso. Nada demais. apenas a bosta que estava guardada todo esse tempo.

Quando chegou na mesa do café da manhã e encontrou os amigos, falou:

-Tenho um aviso pra vocês. CAGUEI!!!!

Ana Eliza comentou que fez uma cirurgia bariátrica e cortou dois metros do intestino.
- Não é muito? - Perguntei.
- Não. Dizem que o intestino tem entre nove e dez metros.
- Credo! Isso tudo?
- É isso mesmo, o meu tem nove metros - Informou Leila.
- Uma médica, minha amiga, disse que meu intestino deve ser bem longo, por isso passo muitos dias sem evacuar e não sinto nenhum desconforto.

Fiquei curiosa, será que essa é uma característica das Adami? Além da orelha grande que eu sei que é herança da nossa avó Elisa. 

Uma delas me perguntou:

- Prima vc peida muito? 
- Sim, principalmente pela manhã logo qdo acordo, mas são só gases não tem cheiro.
- Ah! Sempre tem algum fedido pelo meio - disse Ana Eliza.

Parece que esse é o tema desse nosso encontro, os dissabores intestinais. Pode parecer estranho, mas não é de todo ruim. A maioria de nós já está próximo dos sessenta, ou até mais, e nessa idade é comum falarmos de doenças e ninguém aqui lembrou disso, só demos foi risada dessas situações vexatórias.



Terezinha disse que não quis ter filhos e não aconselha ninguém a tê-los.

- Só dão trabalho, despesa e prende muito a gente.
- É verdade, mas você agora tá presa, cuidando dos gatos, cachorros, galinhas....
- Mesmo que eu tivesse encontrado um marido legal, eu não ia querer. Teve até um cara que era bom, marcou um encontro comigo e eu fui toda animada. Quando cheguei lá, que vi o cara, desanimei. Era um ''picolé de asfalto" muito feio. Ouvi dizer que hoje está muito bem financeiramente. Deus sabe de todas as coisas, não era pra ser.

Eu falei que sempre gostei dos neguinhos, Luciana também disse que essa é a preferência dela. Júnior que estava quietinho, logo se manifestou:

- Eu também gosto de uma neguinha.

Todo mundo politicamente incorreto. Quanto mais velho mais difícil de mudar o vocabulário. Um dia a gente chega lá, se não morrer cedo.

Ana lembrou da cozinha de farinha da Fazenda de vovô e do biju que a gente comia fresquinho. Lembrei também do biju, só que esse era da fábrica de farinha da Fazenda do Banco, onde nasci. Quando criança eu gostava de ficar olhando as máquinas trabalharem, e no processo de torragem da massa da mandioca escapava de vez em quando uma pequena porção que ia rodando, rodando, ficava enrolada e torradinha. Eu ficava vigiando para pegar o biju quentinho.

Ana Eliza comentou que a imagem que ela tinha da casa da Fazenda de vovô, era de uma casa muito grande e espaçosa. Ficou muito tempo sem ir até lá depois que a Fazenda foi vendida e quando lá retornou viu que a casa, na verdade, é bem pequena. Eu tive a mesma sensação quando vi a casa muitos anos depois. Acho que na infância temos uma visão exagerada de tudo e quando atingimos a maturidade colocamos tudo na sua devida dimensão. 

No final do dia chegaram Jorge, Lamon e Iris, filha de Lamon. Iris é o xodó das tias. Logo já estava solta no terreiro correndo atrás dos cachorros e dos gatos. São três cachorros, seis gatos e umas quarenta galinhas. Os gatos são lindos, todos gordinhos e preguiçosos, ficam dormindo em cima da cama um ao lado do outro.

Por volta das quatro horas começamos a nos movimentarmos pra retornar a Macaé. Tiramos fotos, nos despedimos e às 17h pegamos a estrada de volta a Macaé, antes que escurecesse. Até chegar na estrada principal, abrimos e fechamos algumas porteiras. Lembrei de passar por aqui a cavalo junto com Lene, indo para a Fazenda de Eraldo Resende, onde residiu por um tempo nossa tia Mafalda, que morava com a filha e o genro que era administrador da Fazenda. Éramos adolescentes e esse passeio ficou na minha memória. Não tinha tantas porteiras como agora.

Chegando em Macaé encontramos com uma cavalgada. Ana Eliza disse que a filha e a neta estão lá, as duas gostam de cavalgar. Passamos o dia sem celular, lá na Fazenda atualmente não tem sinal de Internet. Agora que chegamos aqui, o telefone já começa a dar sinal de vida e nos traz de volta a rotina do dia a dia. 

Agora é pensar no próximo encontro e não nos privarmos desses momentos.



19 abril, 2025

Viajante

Gostaria de ser uma viajante mas me falta espírito aventureiro. Sou só uma turista. Turista é um ser estranho, acha graça em coisas que normalmente não vê nenhuma graça no seu dia a dia. Não visita os pontos turísticos da sua própria cidade, não vai aos museus, não contribui para conservar a cultura de sua própria terra...enfim, nosso olhar está direcionado para outras coisas.

Explico porque.

Moro numa cidade pequena que não é uma cidade turística mas tem suas belezas naturais. Tem praia, tem restinga, serra, um pequeno arquipélago, etc... Nasci aqui há 56 anos atrás e só agora recentemente conheci uma cachoeira linda que fica há pouco mais de uma hora de carro da minha casa. E tem outras cachoeiras que ainda não conheço. Nunca fiz uma trilha na Pedra do Frade, essa montanha que eu via da janela da casa da fazenda onde nasci (mas já subi ao cume do monte Etna para ver a cratera do vulcão). Não prestigio os eventos sobre a obra do compositor Benedito Lacerda, nascido em Macaé.

Fora da minha cidade, em outro país, faço questão de visitar todos os pontos turísticos, ir aos museus, igrejas, comer comidas típicas. Acho que a gente acaba olhando tudo com outros olhos, como se tudo fosse realmente uma novidade. Bobagem.

Se eu tivesse realmente espírito de viajante olharia minha própria terra com mais curiosidade. Ia percorrer cada cantinho da minha rua, do meu bairro, da minha cidade, município, e dai por diante.

01 abril, 2025

A Sombra

Lembro-me das noites de domingo, quando criança, em que acompanhava meus pais pelas ruas mal iluminadas do meu bairro, para assistir ao culto da Igreja Batista. Eu ia pulando sobre a sombra deles que mudava de posição à medida que se aproximavam de um novo foco de luz. Eu ficava intrigada e com um pouco de medo, sem entender direito o motivo pelo qual aquela coisa se arrastava pelo chão e mudava de direção a todo instante. Uma hora estava atrás deles, em seguida na frente, algumas vezes ameaçava desaparecer, para em seguida ir aumentando de tamanho assustadoramente. Pensava que a sombra nos acompanhava mesmo quando não era visível, não a víamos, mas ela estava em algum lugar nos vigiando sempre, fazia parte de nós e aparecia quando queria.

Minha mãe em algum momento explicou-me o porquê da existência da sombra, mas duvidei, achei que ela queria apenas me tranquilizar. Dúvida? O seu nome é Ângela.

Já não tenho medo da sombra, mas ainda desconfio que ela nos espreita silenciosamente e aparece de vez em quando para nos assombrar. São aqueles sentimentos incontroláveis que surgem contra a nossa vontade, brotam talvez do nosso inconsciente. No meu caso, a Dúvida (ou devia chama-la de Desconfiança?) com certeza faz parte dessa sombra que habita meu inconsciente. 

Pensando um pouco mais sobre esse assunto, observei que a sombra é resultado desse dualismo “luz e escuridão” duas realidades antagônicas que produzem uma terceira coisa que..... viajei...Será que é assim também com Consciente e Subconsciente, Guerra e Paz, Amor e Ódio, Corpo e Alma?  Será que quando essas ideias antagônicas se confrontam, produzem sempre alguma reação?


06 março, 2025

É Errando Que Se Aprende

Conheci recentemente uma mulher que está numa fase “encruzilhada”. Próxima dos 50 anos, insatisfeita no casamento, deseja encontrar sua independência financeira ou viver um grande amor. De preferência as duas coisas juntas.

Mas na hora de selecionar os parceiros... o dedinho podre entra em ação!!!! E pelo visto esse dispositivo (o dedinho) já funciona assim faz muito tempo.

Tudo começa como numa paixonite adolescente. Troca de mensagens safadinhas ou melosas, telefonemas, ansiedade pelos encontros marcados, etc... Aí começa a dança do acasalamento.

De repente o príncipe inicia sua caminhada a passos largos para a lagoa. Virou sapo.

Somente no último ano ela se enrabichou com um paulista maluco, um carioca veado e um baiano trambiqueiro. Ô dedinho!!!!

Pelo menos a paixonite acaba rápido e ela logo desencana.

Fico pensando sobre o que leva mulheres já maduras (experientes é melhor, né?) a repetir sempre os mesmos erros. Por que procurar por homens infelizes, confusos, problemáticos ? Ou então se encantar com uma conversinha mole, um joguinho de sedução. Porque perder tempo com homens que não vão acrescentar nada a sua vida? Freud deve explicar.

Falo pra ela, que está "na pista", que até mesmo para “ficantes” há que se ter muito cuidado. Quando surge o interesse por algum homem, é melhor controlar os hormônios e ligar o desconfiômetro. Em tempos de vida exposta em redes sociais, todo cuidado é pouco, até porque ela continua casada.


28 fevereiro, 2025

Dona de Casa? Jamais


Meu marido é um homem conservador. Nesse caso é um eufemismo pra antiquado, machista...mas é meu marido, então eu me permito ser um pouco tolerante, fazer "vista grossa". Só um pouco.
Ele ainda acredita que a mulher deve ser a "dona da casa". Isso equivale a dizer que é papel da mulher lavar, passar, limpar, cozinhar, cuidar da educação dos filhos, etc...

Quando me casei contratei uma doméstica e durante esses trinta e tantos anos de casamento ela exerceu o papel da "dona da casa". Há dois anos, a "dona da casa suplente" aposentou e a titular (euzinha) assumi o cargo. Descobri, nesse instante, que meu marido não tinha evoluído e que achava que esse é o papel que me cabe nesse latifúndio. Tentei explicar que isso acontecia quando as mulheres eram sustentadas pelo marido, mas que isso não tem mais cabimento hoje em dia. Sem sucesso.

Resolvi "desenhar" para facilitar o entendimento e falei sobre uma conversa que tive com nossa faxineira Nãna, que é Adventista e, por isso, não come carne de porco. Como aqui em casa comemos muita carne de porco, linguiça de porco, partes do porco no feijão, etc...sempre que ela almoça aqui procuro fazer uma outra carne pra que ela fique em paz com sua crença. Só não falo pra ela que eu uso gordura de porco pra cozinhar e ela come sem saber. Deus há de perdoá-la porque a culpada, nesse caso, sou eu.

-Vilson, você sabe por que a Nãna não come carne de porco?

- Não.

- Porque na Bíblia está escrito que Deus falou a Moisés e a Aarão que os filhos de Israel não podiam comer carne de porco, porque é um animal impuro. Então eu disse pra ela:

- Isso não tem lógica Nâna! A Bíblia também diz que Deus criou todas as coisas, inclusive o porco. Porque ele iria criar um animal impuro? Qual a finalidade disso? Você deveria levar em consideração que Deus nunca veio falar nada pessoalmente ao povo de Israel, mandava seu Porta Voz, como fazem os presidentes da república hoje em dia. Sabe-se lá se Moisés tinha alguma coisa contra o porco, ou algum desafeto seu era dono de uma pocilga?

Ela riu, mas nem analisou a minha teoria. O crente (aquele que crê) não perde tempo com as evidências, lhe basta a fé, tipo Petista que não consegue enxergar as fraquezas de Lula.

Resumindo: Os crentes Adventistas vêm repetindo para seus fiéis essa informação através dos anos e então Nãna não come carne de porco porque alguém, que ela não conheceu, há mais de quatro mil anos atrás disse que não deveríamos comer esse animal impuro.

- Tá, mas o que isso tem a ver com as obrigações da "dona da casa"? Perguntou Vilson.

Vou continuar "desenhando".

Veja bem, há muitos séculos que a sociedade acredita que o homem é um ser superior a mulher. É um mito, mas até hoje tem gente que acredita nessa lorota. Bem, essa desigualdade foi perpetuada na sociedade, com a contribuição do Estado e da Igreja (novamente a Igreja) e, portanto, a instituição familiar deveria servir aos interesses do homem. Não foi sempre assim. Na sociedade primitiva havia um matriarcado....

- O que é isso?

Deixa pra lá. Continuando: já que a mulher é um ser inferior ela deve servir ao homem (ao irmão, ao pai, ao marido, etc) e, em contrapartida, ser sustentada por eles. Esse paradigma mudou, mas muitos homens e algumas mulheres, ainda acham que esse papel nos cabe. E os homens, no modelo antigo, achavam que estavam fazendo um favor as mulheres quando lhes davam um dinheirinho para comprar uma roupa, cuidar dos cabelos, pintar as unhas. E elas faziam isso para agradá-los porque além de ralar o dia todo na faxina, ainda deveriam estar bonitas e cheirosas pra diminuir o risco de serem trocadas por uma escrava mais nova. Eu disse escrava porque quem realiza um trabalho em troca de alojamento e comida sem receber salário, é um trabalhador escravo. É o que diz a lei.

O mundo mudou, Vilson, mas você está fazendo o mesmo que Nâna: repetindo o que ouviu do seu pai, que ouviu o mesmo do seu avô, que aprendeu com seu bisavô...Você acha que eu vou aceitar o papel de Dona de Casa? Que eu, uma mulher emancipada, que ganho meu dinheiro desde os quatorze anos, que nunca foi submissa, vou fazer esse sacrifício só para ter um piru caseiro? Nuuuuuuca!

Vilson me olhou com cara de poucos amigos, e disse:

- Não entendi nada dessa história. O quê que o porco tem a ver com isso?

Puta que pariu! Gastei todo o meu latim pra ouvir isso.

Fui ao cesto de roupa suja, esvaziei e separei minha roupa e a dele. Coloquei em sacos separados e levei pra sala.

- Esse é o seu saco de roupa e aquele é o meu. O meu eu vou lavar e passar, o seu eu não faço idéia do que acontecerá com ele. A faxineira cuida da limpeza, a cozinha fica dividida entre nós dois: três dias são seus e três são meus, no sétimo a gente descansa e almoça na rua (novamente a Bíblia). Vc tem a opção de almoçar fora, caso não queira assumir os seus três dias na cozinha. Estamos conversados.

Agora ele entendeu.

06 fevereiro, 2025

Aristóteles e os Peripatéticos

Recentemente, enquanto tomava meu café matinal, a TV mostrava uma entrevista com uma secretária de educação de uma grande cidade do estado de São Paulo. Só depois de tomar o meu café é que saio do estado de letargia que me domina depois que acordo pela manhã e foi nesse estado de lerdeza que ouvi a dita secretária falar de um projeto que estava sendo implantado em algumas escolas da cidade. Ele consistia, entre outras coisas que eu não cheguei a ouvir, em levar as aulas para fora das paredes das salas e das escolas, o que tornaria o aprendizado mais rico e realista e blá blá blá...

E ela ia falando como se tudo aquilo fosse algo novo, uma descoberta recente e importante. Esse é um hábito muito comum nos políticos, mas percebo que a nossa classe de educadores também peca nesse quesito.

No período que trabalhei na Petrobras, participei de muitos cursos interessantes. Em um deles, no início da década de noventa, chamado Curso de Criatividade, o professor utilizou uma sala de grande dimensão com colchões espalhados pelo chão e nesses colchões os alunos sentavam ou deitavam e ali discutíamos os temas desenvolvidos através de desafios, jogos e brincadeiras que realizávamos fora dessa sala, nos jardins que faziam parte desse hotel fazenda.

O curso foi muito bom a ainda hoje lembro de alguns ensinamentos que levei pra minha vida. No entanto me surpreendia o fato dele, o professor, achar que aquilo era uma método diferente, um jeito novo de ensinar.

Como faz falta o estudo da filosofia. Esse método didático é do tempo de Aristóteles da Grécia antiga. Talvez até anterior a ele, porque Sócrates já falava aos seus alunos nas praças de Atenas. Aristóteles dizia que o principal papel da educação é conduzir o homem à felicidade e que esse conhecimento deveria ser prático e útil. Ele fundou sua escola num local integrado a natureza e gostava de ensinar enquanto caminhava com os alunos por diversos ambientes, oferecendo a eles o contato direto com o mundo a sua volta, desenvolvendo neles a capacidade de observação e percepção. Seus alunos eram chamados de peripatéticos - lembro o nome mas esqueci o significado.

Todo professor deveria estudar os grandes filósofos, eu acho. Eu estudei menos do que eu gostaria e mais do que eu precisava para as funções laborais que eu exerci.  Continuo lendo a respeito, mas minha memória HD quase não comporta nenhuma nova informação, infelizmente.

01 fevereiro, 2025

Um Frango Chamado Bebeto

Meu marido gosta de criar galinhas lá no sítio. Eu reclamo com ele porque algumas galinhas as vezes cagam na varanda, outras põe seus ovos dentro do fogão à lenha, dentro da pia da varanda de Vilson, e outros lugares inusitados. Quando eu reclamo ele responde:

- Você não gosta de ovo da roça? Então, galinha que é criada presa não bota tanto ovo e não fica com gema avermelhada porque elas só comem ração.

É verdade. Isso compensa a sujeira na varanda, é só lavar.

Tem galinha, tem garnizé, tem galinhola...e tem o frango Bebeto, o único que tem nome. Ele lembra um cara meio maluco que mora próximo ao sítio da minha sogra, e tem esse nome. O frango é grande, tem pernas compridas e é bonito, mas completamente doido. Dispara numa corrida repentina, briga com as galinhas por causa de comida, belisca quem dá milho pra eles, rouba o que a gente estiver comendo próximo a mureta da varanda e se deixar o copo de cerveja em cima da mureta, é bom ficar de olho porque ele vai querer beber sua cerveja. Todos que frequentam o sítio conhecem Bebeto e se divertem com as maluquices dele.

Meu marido vive dizendo que vai dar um fim no frango, porque ele não serve pra ser galo o destino dele é a panela. Eu perguntei pra Vilson:

- Porque ele não serve pra ser galo, acho que ele vai ficar um galo bonito. 

- Ele não sabe o que é galinha, é um abestado. O galinho garnizé que é miúdo não perdoa nem as galinhas grandes, é de arrancar as penas das costas das galinhas e Bebeto, que devia proteger as galinhas, fica disputando comida com elas. Não serve pra galo.

Nesse final de semana fomos pro sítio. Estava um calor dos infernos, passava o dia me molhando na cascatinha, lendo e ouvindo música. De vez em quando assaltava a geladeira e comia uns jambos, depois jaca e só ia preparar o almoço lá pelas quatro horas da tarde, quando o dia começava a refrescar.

Dei falta de Bebeto, não apareceu nem uma vez pra tentar bicar meu copo de cerveja. Perguntei a Vilson:

- Cadê Bebeto? Não apareceu por aqui.

- Desencarnou. Estava bicando os pintinhos que soltei do poleiro há pouco tempo. Dei ele pra Ivo e fizeram um frango ensopado com aipim.

Puxa vida! Ele não fazia isso por mal. Vou sentir falta do frango, era tão simpático.

Agora as visitas que vão ao sítio sempre perguntam por Bebeto e eu conto sobre o triste destino desse frango: a panela.

Lembrei-me do poema "Uma Galinha" de Clarice Linspector, onde ela conta a história de uma galinha que se tornou a rainha da casa, mas no final cumpriu o seu destino, virou canja.