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10 maio, 2026

FESTA DE ANIVERSÁRIO

 Sou uma distraída incurável.

Erro data, troco nomes, já peguei objetos de amigas pensando que eram os meus (óculos, bolsa, celular, máquina fotográfica,etc...). Já fui a casamento errado e já velei morto desconhecido achando que era um amigo falecido que estava em outra capela.
Nos últimos tempos tenho me comportado razoavelmente bem, até que na última semana tive uma recaída.
Há uns vinte dias atrás recebi por e-mail o convite de aniversário da netinha de minha amiga Rosani. Deixei o convite na minha caixa de entrada para não esquecer. Na semana passada ligo para Valdéa para conversar sobre um cruzeiro que faremos em fevereiro. No final do papo Valdéa me pergunta:
-Vc vai ao aniversário de Thais?
- Vou. Que dia é mesmo?
- Sábado agora, as 17 h.
- Tá legal, nos vemos lá.
Liguei para minha nora e avisei que no sábado levaria minha neta Maria Alice na festinha.
Conforme combinado peguei minha neta e fui para o salão de festas. Maria, três aninhos, está naquela fase que adooooora festa. Foi pulando pelo caminho até chegarmos ao local da festa. Entrei e vi que apenas um casal de idosos ocupava uma mesa, todas as demais estavam vazias. Maria disparou em direção ao pula-pula.
Quando uma mulher que trabalhava no Buffet saiu da cozinha, perguntei:
Estranho já passa das 18 h e até agora não chegou nenhum familiar?
- A festa está marcada para as 19.
- É isso! Enganei-me com o horário, achei que fosse as 17 h. 

Culpa de Valdéa, filha da mãe, me informou a hora errada. Liguei pra ela:
- Valdéa, ainda está em casa? Estou aqui na festa e não chegou ninguém.
- Estou na casa de Valéria. Já tô chegando aí. 

As pessoas foram chegando. Maria arrumou uma amiguinha e estava se esbaldando nos brinquedos. Reparei que o tema da decoração era o Batman, tudo preto e azul – que estranho, festa do Batman para uma menina de um ano? 

Sento-me em uma mesa, o garçom me entrega um copo de cerveja, e fico aguardando Valdéa. Uma moça simpática se aproxima e me pergunta:

- Vc é mãe de alguma das crianças da creche?
- Não, sou amiga da avó de Thais.

A moça se afasta com uma cara estranha.

Gente, e eu lá tenho cara e idade pra ser mãe de criança que ainda frequenta creche? 

Meu Deus!!!! Thais não está em creche, à festa começava as 19 h, decoração do Batman. Tô no lugar errrraaaado!!!!! Ligo pra Rosani:

Rosani, qual o local da festa de Thais?
- Num salão de festa na rua em frente ao salão M Beauty. Buffet da Fátima.
Pensei um pouco – o salão fica numa esquina, a rua que estou fica em frente ao salão, mas tem uma rua ao lado. Deve haver outro salão na rua ao lado. 

- Rosani? Acho que já sei, tô indo pra lá.
- Hellooooo  Ângela. O aniversário é amanhã. Tá maluca? 

Puta que pariu!!!! Vou matar Valdéa!!!
E lá vem Valdéa toda faceira. Saia de cintura alta, muitas pulseiras, sorriso até a orelha. No caminho até a mesa pega um sanduíche e um refrigerante. Tenho uma crise de riso e não consigo nem falar. Só consigo chorar, de rir. A dona da festa nos olha meio espantada. Deve estar pensando “quem é essa outra estranha?”  Valdéa não está entendendo nada. Quando enfim consigo contar o equívoco, Valdéa arregala os olhos, olha para o sanduíche, olha para a cara da dona da festa, olha pra mim.
- Que merda!! E agora ?
Chamei a dona da festa e nos explicamos, pedimos mil desculpas e disse que ia pegar minha neta e no retirarmos. A mãe do aniversariante, um menino de quatro anos, foi muitíssimo simpática. Convidou-nos para continuar na festa porque o que ela mais queria era que houvesse muitas, muitas crianças na festa e como minha neta já estava brincando, gostaria que ela permanecesse na festa. O pai do menino também foi muito atencioso e reforçou o convite.

Fiquei meio sem graça e tentei tirar Maria da brincadeira. Quem disse que ela aceitou sair? Tinha arrumado uma amiguinha pra lá de levada. Queria ficar e dançar o funk das poderosas. É, não vai ser fácil arrancar ela daqui.
Resolvi ficar, já tinha dado vexame mesmo, um pouco mais um pouco menos, não faria diferença. Valdéa também ficou, acho que com pena de me deixar sozinha. Passou alguém na mesa e perguntou: 

– Quer que coloque os presentes na caixa?
- Nãããooooo! É para uma menina de um ano.

Tivemos que explicar. O que esse pessoal vai pensar, quando formos embora levando os presentes? Duas loucas. 

Rosani ligou: - Ângela, onde vcs estão?
- Na festa do menino fã do Batman.
- Tá brincando, vcs ainda estão aí? Vcs são malucas e eu sou ainda mais louca por andar com vcs!!!

Saímos da festa depois dos “parabéns”. Maria ainda entrou na fila da lembrancinha e ganhou um monte de brinquedinhos e doces. Minha neta, estava suada, pé todo sujo de andar descalça, cabelo todo desarrumado. Valeu o vexame.

No dia seguinte voltei ao mesmo local para a festa de Thais. A moça da cozinha me olhou meio sem entender. Deve ter pensado:- Essa mulher aqui de noooovo?????

DEUS ESTÁ NO CONTROLE

 As vezes sinto inveja de quem acredita na frase "Deus está no controle".

A fé é um consolo e tanto.

Minha mãe era religiosa, sem exageros, mas com uma fé genuína em Deus. Na década de quarenta meu pai perdeu todo o dinheiro que tinha guardado em um Banco. O Banco (não lembro o nome) quebrou e o dinheirinho que ele economizou durante anos para comprar um caminhão, foi pro ralo. E lá se foi o sonho de deixar o trabalho na roça e se tornar motorista de caminhão.
Minha mãe disse:

- Se Deus não permitiu é porque ele sabe o que é melhor pra nós.

E pronto, tudo resolvido sem choro nem vela.
Eu jamais saberei se ele foi mais feliz porque não se tornou motorista de caminhão. Ela tinha certeza de que foi melhor assim.
Parece-me tão simplista acreditar que tudo que deu errado foi porque "Deus sabe o que é melhor" e tudo que deu certo foi "Graças a vontade de Deus".

Parece que somos meros joguetes na mão do todo poderoso e que ele escolhe caminhos bem tortuosos para chegar ao lugar certo.

Gostaria de acreditar, mas não é fácil.

FILHOS

 20.08.2016

Meus Filhos
Quando os meus filhos nasceram eu imaginava que o papel dos pais seria o fator mais importante na formação do caráter deles. Sabia que o ambiente em que eles viveriam também era importante. Porém, naquela época, eu ainda não tinha a dimensão da influência decisiva da carga genética transmitida pelos pais, trazidas de outras gerações da nossa família.

A idéia de que os recebemos como uma folha em branco e que, recebendo uma educação adequada, irão corresponder a nossa expectativa, é totalmente equivocada. Há momentos em que me surpreendo com nossa total impotência diante do que a natureza determina. Eles serão, sem sombra de dúvida, uma mistura do que eles já trouxeram quando chegaram nesse mundo mais o que esse mundo oferecerá a eles. Só não sei qual será o fator predominante.

Analisando uma situação que ocorre em uma família, fico a imaginar como a personalidade de um filho pode ser completamente diferente dos pais e avós? É como se todos os valores transmitidos pelos pais durante anos não tivessem encontrado chance de penetrar na formação do caráter do filho. Parece que apenas os traços genéticos e os instintos naturais sobreviveram. E esses traços negativos ainda foram acentuados pelo meio onde passou a viver depois de adulto (profissional e familiar). Vejo nos demais irmãos traços da educação que receberam. No entanto, em um deles, não consigo reconhecer nenhum desses valores transmitidos pelos pais. Talvez alguma parte tenha sido absorvida por ele, porém é imperceptível para os outros integrantes da família.

Bom, não sei por que ainda me surpreendo. É assim, segundo reza a lenda, desde os tempos de Caim e Abel.

O ENGANO

 Colocar as cadeiras na calçada e prosear, era um hábito da maioria das famílias nas cidades do interior e, na minha rua não era diferente. Assim ficávamos conhecendo e convivendo com a vizinhança. A televisão nos colocou pra dentro de casa e com isso perdemos esse hábito, a meu ver, salutar.

Dna Edemia e o marido, Seu Barroso, junto com seus filhos, costumeiramente no final da tarde sentavam na calçada em frente a casa e por ali ficavam até a noitinha, conversando e vendo a vida passar. Da minha casa eu podia ouvir seu riso alegre e sua voz inconfundível. Quando eu passava, do outro lado da rua, seu Barroso perguntava:

- Ta querendo ficar preta menina? Pra que pegar tanto sol?

Dna Edemia abria um sorriso alegre no rosto redondo e simpático. Ela era uma pessoa extremamente agradável e bem humorada.

Tempos depois ela adoeceu gravemente. A família colocou na sala uma cama hospitalar para dar maior conforto a doente. Nas vezes em que fui visitá-la percebia que ela ainda conseguia manter o espírito brincalhão, apesar da difícil situação em que se encontrava.

Um dos filhos dela, Edemir, trabalhava junto comigo no Unibanco. Numa manhã bem cedinho, quando me arrumava para ir trabalhar, ouvi vozes e pessoas chorando. Olhei por sobre o muro da minha casa e vi que as pessoas estavam na calçada quase em frente a casa de Dna Edemia. Pensei com meus botões – Dna Edemia descansou.

Chegando no banco avisei para os colegas que a mãe de Edemir havia falecido (ele não estava trabalhando). Como não havia telefone na maioria das casas, resolvemos, eu e mais alguns colegas, irmos até a casa de Dna Edemia no intervalo do almoço. Era comum naquela época o corpo ser velado na própria casa. Chegando lá bati à porta, alguém abriu, entramos. Imediatamente ouvi a voz inconfundível de Dna Edemia:

- “Oh minha filha, que bom lhe ver!!!”

- “Trouxe os colegas lá do banco para lhe fazer uma visita.” – respondi com a maior cara de pau.

Teve gente que se espremeu para segurar a risada. 

Mais tarde, conversando com minha mãe, descobri que o problema foi na casa da outra vizinha e alguém chorava por causa de uma briga.

07 maio, 2026

Distraída Demais

Sempre fui muito distraída, me desconcentro com muita facilidade, exceto quando estou lendo algo que me interessa muito ou assistindo um filme muito bom. Nesses momentos alguém ao meu lado pode conversar comigo durante um bom tempo sem que eu perceba nada (meu marido que o diga). 

Essa minha distração as vezes me coloca em alguma "saia justa" ou em situações engraçadas. Quando criança ouvi, várias vezes, minha mãe reclamar que havia me chamado e eu não tinha respondido. Eu simplesmente não escutava o que acontecia a minha volta quando estava concentrada na leitura de um livro ou de uma revista, a não ser que fosse um barulho fora do normal. Mais tarde, já adulta, ocorria a mesma situação quando eu estava concentrada em alguma tarefa. Os colegas de trabalho repetiam a mesma frase da minha mãe.

 

22 agosto, 2025

O ENTERRO


Meu marido não sabe se portar em enterros. Álias, ele não sabe se comportar em outros ambientes também, está cada vez mais “sem noção”, com a idade avançando está perdendo a noção de perigo. Recentemente fomos ao enterro de uma senhora de 86 anos. A maioria das pessoas que ali estavam se conheciam porque eram moradores do mesmo bairro, da mesma vila.

No momento do sepultamento propriamente dito, momento esse que eu penso que é o mais difícil para os familiares, nós estávamos num grupinho um pouco mais afastados da cova. Avistamos Tony Volks caminhando por entre os túmulos. Parecia que estava lendo a lápide de cada um deles, o que é um hábito que eu também tenho. Gosto de ler o epitáfio, tem alguns bem interessantes, tipo o de um velho conhecido meu: “Descanse em paz, seu exemplo de amor e dedicação permanecerá para sempre”. Nada a ver...a vida dele era mais parecida com filme de ação americano. Sabe como é, né? Tiro, porrada e bomba.

De repente Tony se abaixa e pega uma placa de granito, coloca sobre o ombro e sai carregando a pedra. 
 
- Vixe! Acho que Toninho roubou a pedra do túmulo – disse Vilson.

Quando ele passou por nós Vilson perguntou:

- Vai pra onde com essa pedra, Tony?
- É da minha irmã, já morreu um tempão e eu não coloquei o nome dela aqui, só tem o nome dos outros da família.
- Ah, que bom!!! Pensei que você tava roubando de algum morto. Dá um azar danado.

O resto do grupo caiu na risada.

- Vilson, pelo amor de Deus, se comporte. Está chamando a atenção do pessoal que tá enterrando Dona Maria. Isso aqui não é enterro de Arlindo Cruz, não meu filho, sambista é que gosta de animação no enterro. – Repreendi meu marido.

Aí foi que Kelly riu mais alto. Como diria meu pai ‘uma risada de rico”, não que Kelly seja rica, mas a risada é.

Não adianta pedir a ele para que mude seu comportamento, já passou da idade em que isso era possível. Se eu lhe peço para não falar determinada coisa, aí é que ele fala mesmo. Comportamento de velho e de criança são bem parecidos.
 
Decidi sair de perto de Vilson. 

- Vou fingir que nem conheço vocês - avisei.

E saí andando pra longe do túmulo. Kelly ria ainda mais e me chamava.

- Volta Ângela, vem cá....

Preciso escolher melhor as minhas companhias em enterros.

03 maio, 2025

AS VÉIAS ESQUECIDAS

Aproveitei o feriado do Dia do Trabalhador e fui dar uma caminhada pela areia da praia. Acordei cheia de preguiça, pra variar, mas olhei o mar azul escuro e me rendi ao encanto de uma manhã de outono de céu limpo e ensolarado. Não dá pra desperdiçar esses dias da melhor estação do ano, amanhã pode chover e eu vou me arrepender. 

Logo no início da caminhada encontrei minha amiga Silvia, companheira de "sofrimento" nos exercícios de Pilates. Ela estava acompanhada de uma amiga e começamos a conversar. Papo vai, papo vem, mostrei pra elas o estrago que os borrachudos fizeram na minha perna no sábado, quando visitei minhas primas numa fazenda perto de Trapiche. Estava horrível, porque sou alérgica a picada de mosquito. 

- Vou continuar minha caminhada, enquanto caminho esqueço a coceira nas pernas.

E segui em direção a Lagoa de Imboassica. No meio do caminho encontro meu amigo Mario Prado e a namorada. Paro e logo me sento com eles pra conversar. Não demora muito e o assunto ''viagem' surge. Diga-se de passagem, a gente sempre acaba falando um pouco sobre as viagens que fizemos ou as que ainda desejamos fazer. Fiquei um bom tempo conversando com os dois. 

Segui com a caminhada, mas não resisti muito tempo, voltei. A maré estava subindo e a parte da areia mais firme já estava coberta pela água. O que restou foi a parte de areia fofa e muito inclinada. A Lagoa que me espere.

Preciso fazer um intensivão de caminhadas porque vou aos Lençóis Maranhenses em junho e estou com pouco preparo físico para subir e descer dunas. Nem sei se vou dar conta.

Um quilometro depois encontro minha amiga Jussara Peruzzi, que não via há muito tempo. Fiquei feliz de vê-la tão bem, alegre e saudável. Ficamos um bom tempo conversando, botando o papo em dia. 

À noite, minha amiga Silvia me passa uma mensagem dizendo que a amiga que estava na praia com ela, queria saber o nome do remédio que eu tinha falado. Eu não me lembrava de remédio algum.

- É pra que doença é esse remédio que eu falei?
- Eu não me lembro e ela também não. Kkkkk. 
- Gente do céu, é muita véia doida. Silvia, eu conversei com vocês, depois encontrei Mario Prado e conversei mais um tempão e depois encontrei Jussara e conversei outro tanto. A essa altura do campeonato já misturei as três conversas e vai ser difícil lembrar de alguma coisa, minha memória é uma bosta.
- Deixa pra lá - Concluiu Silvia.

É o que eu deveria fazer, mas fiquei embatucada com a história do remédio. Será que o alemão está querendo me visitar? Nesse caso, visitar nós três. Ô medo!!

Fiquei rememorando a nossa conversa desde o início e cheguei no momento em que falava das picadas do mosquito e eu comentei que a minha alergia estava piorando com a idade, como é de se esperar. Comentei que os cheiros, bons ou ruins, estão me incomodando muito e até o cheiro do FreeCô estava se tornando insuportável.

- O que é isso, FreeCô? - Perguntou a amiga de Silvia.
- É um desodorizador para banheiro - Respondi.
- Eu também uso lá em casa - Informou Silvia

Será que é isso? Pensei.

- Silvia, será que o "remédio" que ela está querendo lembrar é o FreeCô?
- Vou perguntar a ela.

Mais tarde Silvia manda uma mensagem.

- É isso mesmo!!!😂😂😂

Puta que pariu!!! Remédio pra bloquear o cheiro da titica. É cada uma.

19 abril, 2025

Viajante

Gostaria de ser uma viajante mas me falta espírito aventureiro. Sou só uma turista. Turista é um ser estranho, acha graça em coisas que normalmente não vê nenhuma graça no seu dia a dia. Não visita os pontos turísticos da sua própria cidade, não vai aos museus, não contribui para conservar a cultura de sua própria terra...enfim, nosso olhar está direcionado para outras coisas.

Explico porque.

Moro numa cidade pequena que não é uma cidade turística mas tem suas belezas naturais. Tem praia, tem restinga, serra, um pequeno arquipélago, etc... Nasci aqui há 56 anos atrás e só agora recentemente conheci uma cachoeira linda que fica há pouco mais de uma hora de carro da minha casa. E tem outras cachoeiras que ainda não conheço. Nunca fiz uma trilha na Pedra do Frade, essa montanha que eu via da janela da casa da fazenda onde nasci (mas já subi ao cume do monte Etna para ver a cratera do vulcão). Não prestigio os eventos sobre a obra do compositor Benedito Lacerda, nascido em Macaé.

Fora da minha cidade, em outro país, faço questão de visitar todos os pontos turísticos, ir aos museus, igrejas, comer comidas típicas. Acho que a gente acaba olhando tudo com outros olhos, como se tudo fosse realmente uma novidade. Bobagem.

Se eu tivesse realmente espírito de viajante olharia minha própria terra com mais curiosidade. Ia percorrer cada cantinho da minha rua, do meu bairro, da minha cidade, município, e dai por diante.

06 março, 2025

É Errando Que Se Aprende

Conheci recentemente uma mulher que está numa fase “encruzilhada”. Próxima dos 50 anos, insatisfeita no casamento, deseja encontrar sua independência financeira ou viver um grande amor. De preferência as duas coisas juntas.

Mas na hora de selecionar os parceiros... o dedinho podre entra em ação!!!! E pelo visto esse dispositivo (o dedinho) já funciona assim faz muito tempo.

Tudo começa como numa paixonite adolescente. Troca de mensagens safadinhas ou melosas, telefonemas, ansiedade pelos encontros marcados, etc... Aí começa a dança do acasalamento.

De repente o príncipe inicia sua caminhada a passos largos para a lagoa. Virou sapo.

Somente no último ano ela se enrabichou com um paulista maluco, um carioca veado e um baiano trambiqueiro. Ô dedinho!!!!

Pelo menos a paixonite acaba rápido e ela logo desencana.

Fico pensando sobre o que leva mulheres já maduras (experientes é melhor, né?) a repetir sempre os mesmos erros. Por que procurar por homens infelizes, confusos, problemáticos ? Ou então se encantar com uma conversinha mole, um joguinho de sedução. Porque perder tempo com homens que não vão acrescentar nada a sua vida? Freud deve explicar.

Falo pra ela, que está "na pista", que até mesmo para “ficantes” há que se ter muito cuidado. Quando surge o interesse por algum homem, é melhor controlar os hormônios e ligar o desconfiômetro. Em tempos de vida exposta em redes sociais, todo cuidado é pouco, até porque ela continua casada.


28 fevereiro, 2025

Dona de Casa? Jamais


Meu marido é um homem conservador. Nesse caso é um eufemismo pra antiquado, machista...mas é meu marido, então eu me permito ser um pouco tolerante, fazer "vista grossa". Só um pouco.
Ele ainda acredita que a mulher deve ser a "dona da casa". Isso equivale a dizer que é papel da mulher lavar, passar, limpar, cozinhar, cuidar da educação dos filhos, etc...

Quando me casei contratei uma doméstica e durante esses trinta e tantos anos de casamento ela exerceu o papel da "dona da casa". Há dois anos, a "dona da casa suplente" aposentou e a titular (euzinha) assumi o cargo. Descobri, nesse instante, que meu marido não tinha evoluído e que achava que esse é o papel que me cabe nesse latifúndio. Tentei explicar que isso acontecia quando as mulheres eram sustentadas pelo marido, mas que isso não tem mais cabimento hoje em dia. Sem sucesso.

Resolvi "desenhar" para facilitar o entendimento e falei sobre uma conversa que tive com nossa faxineira Nãna, que é Adventista e, por isso, não come carne de porco. Como aqui em casa comemos muita carne de porco, linguiça de porco, partes do porco no feijão, etc...sempre que ela almoça aqui procuro fazer uma outra carne pra que ela fique em paz com sua crença. Só não falo pra ela que eu uso gordura de porco pra cozinhar e ela come sem saber. Deus há de perdoá-la porque a culpada, nesse caso, sou eu.

-Vilson, você sabe por que a Nãna não come carne de porco?

- Não.

- Porque na Bíblia está escrito que Deus falou a Moisés e a Aarão que os filhos de Israel não podiam comer carne de porco, porque é um animal impuro. Então eu disse pra ela:

- Isso não tem lógica Nâna! A Bíblia também diz que Deus criou todas as coisas, inclusive o porco. Porque ele iria criar um animal impuro? Qual a finalidade disso? Você deveria levar em consideração que Deus nunca veio falar nada pessoalmente ao povo de Israel, mandava seu Porta Voz, como fazem os presidentes da república hoje em dia. Sabe-se lá se Moisés tinha alguma coisa contra o porco, ou algum desafeto seu era dono de uma pocilga?

Ela riu, mas nem analisou a minha teoria. O crente (aquele que crê) não perde tempo com as evidências, lhe basta a fé, tipo Petista que não consegue enxergar as fraquezas de Lula.

Resumindo: Os crentes Adventistas vêm repetindo para seus fiéis essa informação através dos anos e então Nãna não come carne de porco porque alguém, que ela não conheceu, há mais de quatro mil anos atrás disse que não deveríamos comer esse animal impuro.

- Tá, mas o que isso tem a ver com as obrigações da "dona da casa"? Perguntou Vilson.

Vou continuar "desenhando".

Veja bem, há muitos séculos que a sociedade acredita que o homem é um ser superior a mulher. É um mito, mas até hoje tem gente que acredita nessa lorota. Bem, essa desigualdade foi perpetuada na sociedade, com a contribuição do Estado e da Igreja (novamente a Igreja) e, portanto, a instituição familiar deveria servir aos interesses do homem. Não foi sempre assim. Na sociedade primitiva havia um matriarcado....

- O que é isso?

Deixa pra lá. Continuando: já que a mulher é um ser inferior ela deve servir ao homem (ao irmão, ao pai, ao marido, etc) e, em contrapartida, ser sustentada por eles. Esse paradigma mudou, mas muitos homens e algumas mulheres, ainda acham que esse papel nos cabe. E os homens, no modelo antigo, achavam que estavam fazendo um favor as mulheres quando lhes davam um dinheirinho para comprar uma roupa, cuidar dos cabelos, pintar as unhas. E elas faziam isso para agradá-los porque além de ralar o dia todo na faxina, ainda deveriam estar bonitas e cheirosas pra diminuir o risco de serem trocadas por uma escrava mais nova. Eu disse escrava porque quem realiza um trabalho em troca de alojamento e comida sem receber salário, é um trabalhador escravo. É o que diz a lei.

O mundo mudou, Vilson, mas você está fazendo o mesmo que Nâna: repetindo o que ouviu do seu pai, que ouviu o mesmo do seu avô, que aprendeu com seu bisavô...Você acha que eu vou aceitar o papel de Dona de Casa? Que eu, uma mulher emancipada, que ganho meu dinheiro desde os quatorze anos, que nunca foi submissa, vou fazer esse sacrifício só para ter um piru caseiro? Nuuuuuuca!

Vilson me olhou com cara de poucos amigos, e disse:

- Não entendi nada dessa história. O quê que o porco tem a ver com isso?

Puta que pariu! Gastei todo o meu latim pra ouvir isso.

Fui ao cesto de roupa suja, esvaziei e separei minha roupa e a dele. Coloquei em sacos separados e levei pra sala.

- Esse é o seu saco de roupa e aquele é o meu. O meu eu vou lavar e passar, o seu eu não faço idéia do que acontecerá com ele. A faxineira cuida da limpeza, a cozinha fica dividida entre nós dois: três dias são seus e três são meus, no sétimo a gente descansa e almoça na rua (novamente a Bíblia). Vc tem a opção de almoçar fora, caso não queira assumir os seus três dias na cozinha. Estamos conversados.

Agora ele entendeu.

06 fevereiro, 2025

Aristóteles e os Peripatéticos

Recentemente, enquanto tomava meu café matinal, a TV mostrava uma entrevista com uma secretária de educação de uma grande cidade do estado de São Paulo. Só depois de tomar o meu café é que saio do estado de letargia que me domina depois que acordo pela manhã e foi nesse estado de lerdeza que ouvi a dita secretária falar de um projeto que estava sendo implantado em algumas escolas da cidade. Ele consistia, entre outras coisas que eu não cheguei a ouvir, em levar as aulas para fora das paredes das salas e das escolas, o que tornaria o aprendizado mais rico e realista e blá blá blá...

E ela ia falando como se tudo aquilo fosse algo novo, uma descoberta recente e importante. Esse é um hábito muito comum nos políticos, mas percebo que a nossa classe de educadores também peca nesse quesito.

No período que trabalhei na Petrobras, participei de muitos cursos interessantes. Em um deles, no início da década de noventa, chamado Curso de Criatividade, o professor utilizou uma sala de grande dimensão com colchões espalhados pelo chão e nesses colchões os alunos sentavam ou deitavam e ali discutíamos os temas desenvolvidos através de desafios, jogos e brincadeiras que realizávamos fora dessa sala, nos jardins que faziam parte desse hotel fazenda.

O curso foi muito bom a ainda hoje lembro de alguns ensinamentos que levei pra minha vida. No entanto me surpreendia o fato dele, o professor, achar que aquilo era uma método diferente, um jeito novo de ensinar.

Como faz falta o estudo da filosofia. Esse método didático é do tempo de Aristóteles da Grécia antiga. Talvez até anterior a ele, porque Sócrates já falava aos seus alunos nas praças de Atenas. Aristóteles dizia que o principal papel da educação é conduzir o homem à felicidade e que esse conhecimento deveria ser prático e útil. Ele fundou sua escola num local integrado a natureza e gostava de ensinar enquanto caminhava com os alunos por diversos ambientes, oferecendo a eles o contato direto com o mundo a sua volta, desenvolvendo neles a capacidade de observação e percepção. Seus alunos eram chamados de peripatéticos - lembro o nome mas esqueci o significado.

Todo professor deveria estudar os grandes filósofos, eu acho. Eu estudei menos do que eu gostaria e mais do que eu precisava para as funções laborais que eu exerci.  Continuo lendo a respeito, mas minha memória HD quase não comporta nenhuma nova informação, infelizmente.

01 fevereiro, 2025

Um Frango Chamado Bebeto

Meu marido gosta de criar galinhas lá no sítio. Eu reclamo com ele porque algumas galinhas as vezes cagam na varanda, outras põe seus ovos dentro do fogão à lenha, dentro da pia da varanda de Vilson, e outros lugares inusitados. Quando eu reclamo ele responde:

- Você não gosta de ovo da roça? Então, galinha que é criada presa não bota tanto ovo e não fica com gema avermelhada porque elas só comem ração.

É verdade. Isso compensa a sujeira na varanda, é só lavar.

Tem galinha, tem garnizé, tem galinhola...e tem o frango Bebeto, o único que tem nome. Ele lembra um cara meio maluco que mora próximo ao sítio da minha sogra, e tem esse nome. O frango é grande, tem pernas compridas e é bonito, mas completamente doido. Dispara numa corrida repentina, briga com as galinhas por causa de comida, belisca quem dá milho pra eles, rouba o que a gente estiver comendo próximo a mureta da varanda e se deixar o copo de cerveja em cima da mureta, é bom ficar de olho porque ele vai querer beber sua cerveja. Todos que frequentam o sítio conhecem Bebeto e se divertem com as maluquices dele.

Meu marido vive dizendo que vai dar um fim no frango, porque ele não serve pra ser galo o destino dele é a panela. Eu perguntei pra Vilson:

- Porque ele não serve pra ser galo, acho que ele vai ficar um galo bonito. 

- Ele não sabe o que é galinha, é um abestado. O galinho garnizé que é miúdo não perdoa nem as galinhas grandes, é de arrancar as penas das costas das galinhas e Bebeto, que devia proteger as galinhas, fica disputando comida com elas. Não serve pra galo.

Nesse final de semana fomos pro sítio. Estava um calor dos infernos, passava o dia me molhando na cascatinha, lendo e ouvindo música. De vez em quando assaltava a geladeira e comia uns jambos, depois jaca e só ia preparar o almoço lá pelas quatro horas da tarde, quando o dia começava a refrescar.

Dei falta de Bebeto, não apareceu nem uma vez pra tentar bicar meu copo de cerveja. Perguntei a Vilson:

- Cadê Bebeto? Não apareceu por aqui.

- Desencarnou. Estava bicando os pintinhos que soltei do poleiro há pouco tempo. Dei ele pra Ivo e fizeram um frango ensopado com aipim.

Puxa vida! Ele não fazia isso por mal. Vou sentir falta do frango, era tão simpático.

Agora as visitas que vão ao sítio sempre perguntam por Bebeto e eu conto sobre o triste destino desse frango: a panela.

Lembrei-me do poema "Uma Galinha" de Clarice Linspector, onde ela conta a história de uma galinha que se tornou a rainha da casa, mas no final cumpriu o seu destino, virou canja.

25 setembro, 2024

Solidão

02.06.2016

Sempre convivi com pessoas que falam muito: no trabalho, nas relações de amizade, na escola. Na família não, somos mais calados. Na casa dos meus pais ninguém era de muita falação e hoje, na minha casa, o padrão é o mesmo.

Sou mais introvertida, mais voltada para o mundo interno do que para o externo. Muitas vezes gosto mais de conversar comigo mesma do que com outras pessoas. Sinto prazer em algumas atividades solitárias: ir ao cinema, ler, caminhar na praia, tomar café em alguma cafeteria enquanto olho o movimento na rua, ouvir música quando estou sozinha em casa, etc. Gosto da convivência com outras pessoas, adoro estar com meus amigos, inclusive as “faladeiras”, mas sinto falta de um pouco de solidão.

As pessoas mais extrovertidas dependem mais da presença de outras pessoas. É através do olhar do outro que elas podem exercer sua extroversão. Algumas vezes uma postura mais introvertida é mais adequada e, em outras, a extroversão é mais apropriada. Muitas vezes desejei ser mais extrovertida e talvez tenha perdido alguns bons momentos por causa disso. Somos do jeito que somos e o melhor é aproveitar o lado bom. Como diria um amigo meu, “aceita que dói menos”. Hoje me sinto bem comigo mesmo e não sinto necessidade de mudar nada.

Nesse tempo de muita exposição pessoal, tenho encontrado alguma dificuldade com a convivência através das redes sociais. Falta-me paciência pra tanta falação e tão poucos assuntos interessantes, úteis, criativos. É claro que o problema está em mim, que não curto cachorrinhos, religião, mensagens de autoajuda, radicalismo político, lavação de roupa suja, recadinhos malcriados, exposição excessiva da vida particular, fotos e fotos e mais fotos. Não sobra muita coisa, né?
Também não quero me afastar dos amigos, então procuro me adaptar sem exagerar na dose e me manter conectada. 

Às vezes preciso passar uns dois dias off-line. Cuido das plantas, termino de ler algum livro que está abandonado na cabeceira da cama, faço alguma costura que já está há muito programada, deito-me no sofá da sala, apago as luzes e ouço uma música instrumental. Fecho os olhos e não penso em nada, só sinto a música. É o meu detox.