A casa dos meus pais tinha uma calçada alta onde as donas de casa daquela rua, juntamente com minha mãe, ficavam sentadas nas manhãs de inverno “quarando” no sol enquanto conversavam, faziam crochê ou tricô, e tomavam conta dos filhos que brincavam ali por perto.
E como nós brincávamos na rua de terra batida onde raramente passava um carro!!! Amarelinha, pique - esconde, queimado, três marias, pular corda, andar de bicicleta, etc...eram nossas brincadeiras prediletas.
Os dias de chuva também eram de
diversão. Era hora de preparar os barquinhos de papel para jogar na enxurrada.
Ficávamos um bom tempo olhando os barquinhos descerem rua abaixo até naufragar
na correnteza. Se a chuva fosse
fraquinha e demorasse vários dias, o jeito era brincar dentro de casa. Brincar
de casinha, de preferência.
Na casa de Regina tinha uma varanda
comprida onde improvisávamos os desfiles de misses. O concurso de Miss Brasil
era um sucesso e era também o sonho das adolescentes daquela época. A coroa, o
cetro e o manto eram “fabricados” com apetrechos da casa de Carminha, mãe de
Regina. As mais feinhas e tímidas, como eu, ficavam no júri e as desinibidas
desfilavam. Cacilda fazia caras e bocas e vibrava quando ganhava. Depois
desfilava pela varanda na ponta dos pés, arrastando o manto (um lençol
vermelho) e um sorriso de orelha a orelha.
Passaram-se alguns anos e as senhoras da rua continuavam passando parte da manhã sentadas na calçada na sua tarefa de trocar receitas, pontos de tricô, e falar sobre os acontecimentos do bairro. Lembro-me de um vizinho, um senhor alto e magro, que era um dos poucos do bairro que possuía carro e dirigia muito, muito mal. Quando ele ia retirando o carro da garagem, José Luiz, um rapaz que trabalhava no bar da esquina, chegava na porta do bar e gritava para as mulheres da calçada e as crianças que brincavam – “Corre que seu Manoel tá saindo com o carro”. Ficavam todas alertas, prontas para sair fora caso seu Manoel se dirigisse em direção à calçada. Todos paravam suas atividades e se preparavam pra correr, caso o “barbeiro” se aproximasse.
Tempo bão!!!!