10 maio, 2026

PACTO DE MORTE

Meus pais no dia em que se casaram

Meus pais estiveram casados por 64 anos. Algumas vezes os vi conversarem sobre quem morreria primeiro e dava para perceber a dificuldade que tinham em imaginar a vida sem o companheiro (a) de tantos anos.

Perder o companheiro, mesmo que não seja tão companheiro assim, nesse momento da vida é algo complicado. Se o idoso não tem uma atividade que lhes preencha as horas do dia, a solidão encosta e aí, a falta de um companheiro para partilhar um momento de dificuldade ou até mesmo de alegria, deixa um vazio difícil de ser preenchido.

Por tudo isso meu pai costumava fantasiar que o ideal era que eles morressem juntos.

Um dia vimos na televisão uma matéria sobre um casal de idosos que fizeram um pacto com Deus para que ele os levasse para o além no mesmo dia. Papai comentou que gostaria de fazer o mesmo.

Passado alguns dias, morreram duas pessoas na vizinhança. Perguntei a papai:

- E aí papai, se a morte chegasse aqui do seu lado nesse instante, o que o senhor faria?

Ele olhou para os lados e avistou mamãe debruçada sobre a pia da cozinha. Levantou o braço por cima da cabeça e silenciosamente apontou o dedinho para ela, como se estivesse a indicar para a “morte” que ela deveria ir primeiro. E disse:

- Ela tá mais cansada, eu posso ficar pra depois!

Caí na risada. Na hora “H” ele esqueceu do pacto que queria fazer e só pensou em como seria bom viver um pouco mais.