14 maio, 2026

SEM FOTOS

 

Percebi há pouco tempo que não tenho fotos dos meus amigos de infância, nenhuma fotozinha embaçada, desfocada, carcomida...nada. Só lembranças.

 A única exceção é uma foto com Verinha, uma amiguinha que faleceu aos oito anos de idade numa cirurgia de garganta, retirada das amigdalas.

 Esse fato influenciou minha vida por uns cinco anos, porque minha mãe não tinha coragem de fazer essa mesma cirurgia que os médicos recomendavam pra mim. Passei esse tempo sofrendo quando tinha infecção de garganta, o que era frequente. Minha tia Laura esfregava em minha garganta a pena, de alguma que não sei qual é. Essa pena era besuntada com dois remédios pavorosos. Era tão apavorante pra mim, que foi impossível esquecer o nome dos remédios: Colubiazol e Azul de Metileno.

Eu e Verinha na Rua da Praia

Se tivéssemos fotografado aqueles momentos eu teria uma foto com Cacilda colocando barquinhos de papel na enxurrada e tomando banho de mar na praia da Pedras. Fotos com Rosângela, Penha, Regina, Lena, jogando Queimado no poeirão em frente à casa de Seu Waldimiro. Uma foto minha e de Elisa sentada no meio-fio conversando sobre sua paixão por Toninho. Eu teria várias fotos com Alcione, sentadas no murinho em frente à igreja Presbiteriana, dançando no quarto com piso de madeira no andar de cima da casa dela, cantado no Coral da Igreja Batista.

Eu e Paulinho, neto de Seu Arnulfo

Reza a lenda que o primeiro beijo a gente nunca esquece. Se não fosse pela foto eu já teria esquecido. 

 No início da nossa juventude surgiram as máquinas fotográficas com aqueles rolinhos de filme. Algumas fotos foram aparecendo, mas ainda eram poucas e raras. A maioria ‘’queimava’’.

 Sem as fotos, só mesmo o que a memória registrou, esse equipamento poderoso que guarda mais imagens do que a “nuvem”,  e que agora, na melhor idade, só funciona quando quer.