As vezes sinto inveja de quem acredita na frase "Deus está no controle".
Resolvi adotar um blog como diário. Não pretendo fazer um guia de viagem, recomendar lugares, onde comer, onde se hospedar, muito menos relatar grandes aventuras, até porque não sou Marco Polo nem Amir Klink, esses sim, grandes aventureiros. Esse blog é uma forma de não perder essa memória que é um recurso para viajar de novo, pelos mesmos lugares, com os olhos da alma. Trago na bagagem muitas lembranças e pouquíssimo souvenir. São os detalhes que fazem cada viagem ser diferente da anterior.
10 maio, 2026
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O PODER
17.04.2016
SHOW DE JAMES TAYLOR E ELTON JOHN
Em Janeiro Rosani surgiu com essa ideia de irmos ao show de Elton John e James Taylor no Rio, em abril. Rosani é conhecida no nosso grupo como "juíza", por causa do seu temperamento decidido e um pouco briguento, então quando ela decide não dá trégua.
Aí, Graça, nossa guia turística predileta, sai em campo para viabilizar os delírios de nossa companheira.
Sou fã dos dois artistas, mas nunca tinha cogitado assistir um show dos dois. Rock in Rio nunca esteve nos meus projetos, tenho um pouco de medo de multidão, prefiro assistir essas apresentações em teatro, quando é acessível ao meu bolso.
Depois de alguma divulgação nos grupos do ZAP, montamos a turma de quatorze pessoas.
01.04.2017Encontramo-nos na casa de Graça por volta das nove horas pra partimos para o Rio. Somos quatorze: Angela, Rosane, Valdea, Maura, Vera, Claudia, Cleuza, Marcia, Rosani, Fátima, Ito, Tânia, Lina e Graça. Tudo gente boa.
Combinamos passar primeiro na Feira de São Cristóvão e depois do almoço iremos para o Sambódromo, local do show. Chegamos ao Rio por volta das 12:00 h. A temperatura estava agradável, um ventinho amigo nos recebeu. Comentei com Rosani que havia previsão de chuva para a hora do show:
- Não vai chover, cinquenta por cento de previsão de chuva não é chuva, não chove pode ter certeza.
Juíza falou tá falado, não discuto com autoridades. Mas na minha bolsa tem uma capa de chuva, uma blusa de manga comprida para o caso da outra molhar e um calçado extra. As autoridades as vezes se enganam feio.
Apesar do clima ameno, aqui dentro do pavilhão onde funciona a Feira faz um calor danado. Caminhamos um pouco pelas lojinhas e as companheiras já começaram a fazer umas comprinhas, como é de praxe. Eu comprei o fantoche de um fantasminha, pra ver se assusto meu neto. Desconfio que ele não se assustará e vai destruir o fantasma em alguns segundos.
Chegamos perto de um dos palcos e já estava rolando um forró. Alguns casais já se arriscavam na dança embaixo do sol de meio dia. Uma velhinha desinibida dançava sozinha no melhor estilo “tô nem aí”. Aquela é Claudinha amanhã. Esse forró deve bombar no finalzinho da tarde, quando o sol dá uma trégua.
Procuramos logo um lugar mais fresquinho num dos restaurantes. No local onde escolhemos pra sentar tinha um ventilador bem grande, turbo, jogando um vento delicioso em cima das nossas costas. Imediatamente me veio uma vontade incontrolável de tomar um chope. Começamos os trabalhos e a turma caiu de boca no torresmo, baião de dois, aipim frito, bolinho de bacalhau, etc.
Depois de toda comilança, saímos do restaurante e fomos andando devagar, desgastando o almoço para enfrentar a segunda jornada. Um céu azul sem nuvens me fez pensar que aquela capa de chuva só serviria para fazer uma sauna, se eu desejasse. Ah, se eu soubesse....
Chegamos cedo, o portão ainda não estava aberto. Entramos na fila (ô sina, essa de enfrentar fila). Um calor danado e a turma que vende capa de chuva já estava a postos.
- Olha a capa de chuva! Tá a dez real, mas quando cumeça a chuvê dobra o preço.
Ninguém se animou. Logo o anjo da guarda dos ambulantes que vendem guarda-chuva, sombrinha e capa, começou a trabalhar e uma nuvenzinha preta começou a surgir lá no horizonte.
- Olha lá, chuva tá vindo! Não sou eu que tá falando, foi a Maju que avisou. O preço da capa vai aumentar - anunciou o vendedor de guarda-chuvas.
O pessoal da fila começou a se movimentar e a venda de capas se intensificou. Logo chegaram os primeiros pingos de chuva. Falei pra juíza:
- E aí, não vai comprar uma capinha?
- De jeito nenhum, cinquenta por cento de previsão não é chuva, é só uma garoinha.
Depois de um bom tempo abriram o portão e entramos. Chegamos à arquibancada e escolhemos o lugar que achamos melhor, sem disputa com ninguém porque ainda era bem cedo. Estendi minha almofada de silicone, empréstimo da nossa amiga Rose pra mim e Rosani. Comecei a maldizer a almofada, que parecia pesar uma tonelada. Tentei encher a infeliz, soprei, soprei...e nada. Desisti, mas mesmo meio vazia ela cumpria sua função. Será que o silicone que botam no peito e na bunda pesam assim? Imagino que não, caso contrário ninguém ia aguentar carregar essas próteses.
E começou a espera pelo show e comecei a pensar “podíamos ter chegado mais tarde, é tão ruim esperar”. Mal sabia eu que “esperar” seria o menor dos problemas, o pior estava por vir. 
De repente o anjo da guarda dos ambulantes que vendem - vcs já sabem o que eles vendem - abriu a torneira dos céus e “tome chuva”. Como é proibido entrar no local com sombrinhas, todo mundo sacou sua capa de chuva para enfrentar a intempérie.
Pontualmente, com um pequeno atraso de oito minutos, James Taylor surgiu no palco. O atraso foi perfeitamente aceitável até porque ele é americano e não britânico como Elton John. Agora, Sir Elton tem que ser rigorosamente pontual pra manter viva a fama de pontuais dos britânicos.
James está com cara de terceira idade, mas sua voz continua maravilhosa, macia, aveludada. Falou um pequeno texto em português onde dizia que estava feliz por estar novamente no Brasil e explicava que não poderia tocar seu violão porque tinha quebrado o dedo. E xingou “merda”. Começou a cantar seus sucessos. Quando cantava "You’ve got a friend'' a chuva despejou. Mesmo assim todos nós cantamos em coro junto com ele. Liiiiindo!!!
E tome chuva. Minhas pernas já estavam totalmente molhadas porque a capa apesar do número GG não chegavam nem a cobrir os joelhos. Quem manda ser alta!
Parou a chuva e surgiram algumas estrelas no céu. Que bom, a chuva vai parar! Quando James terminou de cantar "Fire and Rain" a chuva voltou a cair. Que ironia, nessa música ele fala que viu o fogo e a chuva. Hoje só viu chuva. No telão ele olha pra cima e seus olhos azuis escuro como os do meu pai, transmite tranquilidade.
A chuva voltou e voltou pior. E aí começamos a ver os estragos: capas com vazamento, outras que rasgam com facilidade, almofadas de tecido que ficaram encharcadas molhando a bunda de quem estava em cima delas. Valdea trouxe um cachecol para se aquecer e ele virou uma esponja. Ela enxugava a capa com ele e torcia em seguida:
- Vim aqui para lavar roupa. Quem quer estender essa roupa pra mim?
Por fim eu já estava desejando que James Taylor se retirasse (tadinho) pra desocupar o lugar pra Elton John começar logo o show, antes que a gente congelasse. Aí ele canta a música que fez em homenagem ao Rio de Janeiro depois que participou do primeiro Rock in Rio. Ele merece nosso sacrifício!
Haja bom humor pra enfrentar esse contratempo. A chuva estava de sacanagem, parava e recomeçava, parava e recomeçava... A gente tentava se enxugar um pouco, tirava a capa, sacudia e logo em seguida chovia de novo. Num desses intervalos comi um pedaço de pizza, comi rápido antes que chovesse novamente. Pizza molhada ninguém merece.
Fiquei preocupada com Rosani. Nesse momento ela era quase a verdadeira imagem do pinto molhado. Digo “quase” porque a imagem verdadeira seria a do próprio pinto, o animal, molhado. Mas ela não se aperta, desceu e comprou uma camisa do show e conseguiu a última capa de um ambulante.
Comecei com uma tremedeira incontrolável e decidi sair da chuva. O show de James já tinha acabado então fui para a área do banheiro que é coberta.
- Elton que se foda. Desculpa aí Sir Elton, vc embalou meus sábados à noite, mas não tenho mais idade pra enfrentar temporal só pra ver meus ídolos da juventude. Aliás, vc se cuide que essa chuvinha aí no palco pode lhe resfriar, vc também já está velhinho.Já encontrei Claudinha e Tânia lá na área coberta. Depois chegou Cleuza. Fui ao banheiro e verifiquei que minha calça estava encharcada. Não havia o que fazer. Enxuguei a capa pra tentar pelo menos me aquecer um pouco. Lá de baixo ouvi quando Elton disse “muito obrigado por resistirem a chuva, é um privilégio tocar pra vocês”.
A chuva deu uma trégua e subimos correndo para o alto da escada. Elton vestido num paletó cintilante, que faria inveja a Cauby Peixoto, dedilhava o piano com a vitalidade que lhe é peculiar. Outro estilo, completamente diferente do seu antecessor no palco. James é Zem, doce. Elton é pura energia. Que show, valeu o sacrifício.
Começou a chover novamente, descemos a escada e fomos pra área coberta. Pouco depois Vera veio nos chamar, disse que Graça estava propondo sairmos um pouco antes de terminar pra evitar o tumulto da saída. Concordamos com ela, exceto Rosani que junto com seu irmão e sua cunhada ficaram até o final.
Saímos pelo portão à esquerda e nos deparamos com as ruas interditadas. Graça ligou para o motorista da Van e ele combinou de nos pegar em frente ao prédio do Batalhão de Polícia. No caminho nos perdemos de Creuza e Taninha. Acho que nos perdemos de Lina também.
Aos poucos os retardatários foram chegando. Quando entramos na Van começamos a fazer o inventário do estrago. Valdea molhou até o dinheiro que estava na carteira, vai ter que pendurar pra secar e ver se salva algum. Márcia, que estava com a roupa na mochila, ficou decepcionada quando viu que estava tudo molhado. A solidariedade das amigas a salvou: uma emprestou uma calça leging e outra uma blusinha. Tânia disse que até a pepeca estava resfriada. Eu estava usando uma bolsa de praia, toda furadinha, molhou tudo que estava dentro. Ainda bem que eu deixei tudo na Van e pude vestir um pulôver quentinho e um calçado seco. Maura ainda me emprestou um casaquinho para cobrir minhas pernas. Enfim parei de tremer.
Parece que na viagem de volta, dentro do carro quentinho, todos dormiram. Não vi ninguém reclamar pela Van não ter parado pra fazer xixi e comer. Não parar pra comer? Estavam desmaiadas, com certeza.
É TUDO MENTIRA, HISTÓRIA DE PRIMEIRO DE ABRIL. SÓ QUE NÃO
ELUCUBRANDO
Escrevi sobre determinado assunto num grupo do ZAP e recebi uma crítica agradável de uma amiga:
Porém, em tudo o que escrevemos está presente nossa experiência de vida, tudo o que lemos, o que ouvimos, o que gastamos horas estudando, pensando, avaliando...
Toda essa
memória, que está adormecida nas profundezas do nosso cérebro e que a gente nem
sempre percebe, aflora em determinados momentos, talvez por um gatilho e passa
a compor o cenário que se apresenta naquele momento. Por essa razão o mesmo
fato tem um significado diferente para duas pessoas que viram e vivenciaram o
mesmo fato.
PACTO DE MORTE
Meus pais no dia em que se casaram
Meus pais estiveram casados por 64 anos. Algumas vezes os vi conversarem sobre quem morreria primeiro e dava para perceber a dificuldade que tinham em imaginar a vida sem o companheiro (a) de tantos anos.
Perder o companheiro, mesmo que não seja tão companheiro assim, nesse momento da vida é algo complicado. Se o idoso não tem uma atividade que lhes preencha as horas do dia, a solidão encosta e aí, a falta de um companheiro para partilhar um momento de dificuldade ou até mesmo de alegria, deixa um vazio difícil de ser preenchido.
Por tudo isso meu pai costumava fantasiar que o ideal era que eles morressem juntos.
Um dia vimos na televisão uma matéria sobre um casal de idosos que fizeram um pacto com Deus para que ele os levasse para o além no mesmo dia. Papai comentou que gostaria de fazer o mesmo.
Passado alguns dias, morreram duas pessoas na vizinhança. Perguntei a papai:
- E aí papai, se a morte chegasse aqui do seu lado nesse instante, o que o senhor faria?
Ele olhou para os lados e avistou mamãe debruçada sobre a pia da cozinha. Levantou o braço por cima da cabeça e silenciosamente apontou o dedinho para ela, como se estivesse a indicar para a “morte” que ela deveria ir primeiro. E disse:
- Ela tá mais cansada, eu posso ficar pra depois!
Caí na risada. Na hora “H” ele esqueceu do pacto que queria fazer e só pensou em como seria bom viver um pouco mais.
A PRAIA
Meu pai costumava levar para a praia, toda a criançada da nossa rua. Saíamos bem cedo; íamos a pé e ele de bicicleta, até a Praia das Pedrinhas. Passávamos pela Praia de Imbetiba, depois Praia dos Cavalos (onde algumas pessoas lavavam seus cavalos), contornávamos a sede da Rede Ferroviária e finalmente chegávamos ao nosso destino.
Não havia quase areia nessa praia mas era ótima, pouca onda, mansinha, porque ficava protegida por duas barreiras de pedra que formavam uma pequena enseada. Cacilda, Leomar, Sandrinha, Penha, Rosângela, Fátima e eu, caíamos na água e só saíamos quando a pele já estava murcha de ficar tanto tempo de molho.
Quando conseguíamos uma bóia (câmara de ar de pneu de caminhão) a farra era ainda maior. Sentávamos ao redor da boia, com os pés para dentro, batendo na água e fazendo a boia rodar. Papai costumava mergulhar, vir nadando por baixo d’água e de repente virava a boia. Tbum!!! As que sabiam nadar rapidamente chegavam a areia. Papai ajudava as que não sabiam mas, é claro, elas bebiam alguma água até conseguir sair. Desse jeito, no sufoco, acabamos todas aprendendo a nadar. Método Victório Adamis.
As mais saidinhas arriscavam uma caminhada sobre as pedras e muitas vezes voltavam com os pés cheios de espinhos de ouriços. Dava um trabalhão retirar todos os espinhos, sem contar a dor.
Depois procurávamos uma pedra que fosse um pouco confortável, deitávamos por algum tempo ao sol, sem a preocupação de bronzear o corpo e nem proteger a pele dos raios ultravioleta. Filtro solar ? Ninguém sabia o que era isso !!! O que queríamos era só brincar, brincar e brincar.
A volta para casa tinha que ocorrer antes das 11:30 porque nesse horário saíam para o almoço os empregados da Rede Ferroviária. Quando tocava o buzo (campainha) disparavam centenas de bicicletas pela Av. Agenor Caldas e se não tivéssemos atravessado a Avenida, perdíamos um tempão esperando as bicicletas passarem.
No dia seguinte, mais praia. E assim seria até o término das férias, que naquela época duravam três meses.
FESTA JUNINA
Em Macaé, nas décadas de 60 e 70, aconteciam muitas festas juninas nos bairros, diferentemente de hoje.
No Cajueiros, no mês de junho, as quadrilhas aconteciam em vários lugares. Uma delas, no beco de Walter Foguete, era minha preferida. Eu via a festa da casa de Dna Maria de seu Thomaz, nossa vizinha. O muro dos fundos dava para o beco. Nós subíamos em caixotes e ficávamos assistindo a quadrilha. Sempre fui muito “bicho do mato”, nunca gostei de “aparecer” mas morria de vontade de vestir aquelas roupas coloridas, pintar o rosto com pintinhas pretas e dançar a quadrilha. Como meus pais eram evangélicos, não permitiam. Tinha que me contentar em apenas assistir.
A religião me privou de alguns prazeres na infância e adolescência. Dançar quadrilha foi um deles. Matinê de carnaval, bailes e praia aos domingos pela manhã também eram proibidos. Acho que vem daí minha birra com todas as religiões.
Por outro lado, essas proibições me incentivaram a procurar minha independência financeira desde muito jovem. Por volta dos 13, 14 anos eu já ganhava algum dinheiro pintando lençóis, toalhas, enxoval de bebê, etc... Ana Maria, dona de uma boutique infantil em Niterói, vinha mensalmente a Macaé trazer camisetas para que eu pintasse personagens das histórias em quadrinhos. Eram caixas e mais caixas de camisetas que me ocupavam boa parte das tardes de verão.
Depois que consegui ganhar meu sustento ninguém mais me colocou cabresto. Dancei todas as quadrilhas que eu quis.
PRAIA DE ADOLESCENTE
Nessa época eu costumava ir a praia junto com minha prima Lúcia e seus amigos, a maioria vizinhos dela: Marília, Margarida, Ruza, Loloia, Fátima, Sérgio, Dica, etc.... À noite voltávamos para a Imbetiba onde os jovens se encontravam na Toca do Toti, Redondo, Varandão e 860. Os “sem grana” ficavam sentados no muro de pedra em frente à praia ou na areia, em pequenos grupos, onde uns tocavam violão e cantavam, outros namoravam. Época de hormônios a flor da pele.
Fazíamos festinhas hi-fi (festa informal onde cada pessoa leva algo para comer ou beber) na casa de alguns amigos. Bastava uma varanda ou sala espaçosa, luz negra, uma vitrola e muitos discos. Tomávamos cuba-libre, martini e batida. Cerveja não era nossa preferência naquela época. Comparando com as festinhas dos adolescentes de hoje, parecíamos um bando de idiotas. Mas que “idiotice” deliciosa era dançar de rostinho colado, coxa com coxa, e sentir o cheiro bom de loção pós barba!!
BRINCADEIRA DE CRIANÇA
A casa dos meus pais tinha uma calçada alta onde as donas de casa daquela rua, juntamente com minha mãe, ficavam sentadas nas manhãs de inverno “quarando” no sol enquanto conversavam, faziam crochê ou tricô, e tomavam conta dos filhos que brincavam ali por perto.
E como nós brincávamos na rua de terra batida onde raramente passava um carro!!! Amarelinha, pique - esconde, queimado, três marias, pular corda, andar de bicicleta, etc...eram nossas brincadeiras prediletas.
Os dias de chuva também eram de
diversão. Era hora de preparar os barquinhos de papel para jogar na enxurrada.
Ficávamos um bom tempo olhando os barquinhos descerem rua abaixo até naufragar
na correnteza. Se a chuva fosse
fraquinha e demorasse vários dias, o jeito era brincar dentro de casa. Brincar
de casinha, de preferência.
Na casa de Regina tinha uma varanda
comprida onde improvisávamos os desfiles de misses. O concurso de Miss Brasil
era um sucesso e era também o sonho das adolescentes daquela época. A coroa, o
cetro e o manto eram “fabricados” com apetrechos da casa de Carminha, mãe de
Regina. As mais feinhas e tímidas, como eu, ficavam no júri e as desinibidas
desfilavam. Cacilda fazia caras e bocas e vibrava quando ganhava. Depois
desfilava pela varanda na ponta dos pés, arrastando o manto (um lençol
vermelho) e um sorriso de orelha a orelha.
Passaram-se alguns anos e as senhoras da rua continuavam passando parte da manhã sentadas na calçada na sua tarefa de trocar receitas, pontos de tricô, e falar sobre os acontecimentos do bairro. Lembro-me de um vizinho, um senhor alto e magro, que era um dos poucos do bairro que possuía carro e dirigia muito, muito mal. Quando ele ia retirando o carro da garagem, José Luiz, um rapaz que trabalhava com o pai no bar da esquina, chegava na porta do bar e gritava para as mulheres da calçada e as crianças que brincavam – “Corre que seu Manoel tá saindo com o carro”. Ficavam todas alertas, prontas para sair fora caso seu Manoel se dirigisse em direção à calçada. Todos paravam suas atividades e se preparavam pra correr, caso o “barbeiro” se aproximasse.
Tempo bão!!!!
O ENGANO
Colocar as cadeiras na calçada e prosear, era um hábito da maioria das famílias nas cidades do interior e, na minha rua não era diferente. Assim ficávamos conhecendo e convivendo com a vizinhança. A televisão nos colocou pra dentro de casa e com isso perdemos esse hábito, a meu ver, salutar.
Dna Edemia e o marido, Seu Barroso, junto com seus filhos, costumeiramente no final da tarde sentavam na calçada em frente a casa e por ali ficavam até a noitinha, conversando e vendo a vida passar. Da minha casa eu podia ouvir seu riso alegre e sua voz inconfundível. Quando eu passava, do outro lado da rua, seu Barroso perguntava:
- Ta querendo ficar preta menina? Pra que pegar tanto sol?
Dna Edemia abria um sorriso alegre no rosto redondo e simpático. Ela era uma pessoa extremamente agradável e bem humorada.
Tempos depois ela adoeceu gravemente. A família colocou na sala uma cama hospitalar para dar maior conforto a doente. Nas vezes em que fui visitá-la percebia que ela ainda conseguia manter o espírito brincalhão, apesar da difícil situação em que se encontrava.
Um dos filhos dela, Edemir, trabalhava junto comigo no Unibanco. Numa manhã bem cedinho, quando me arrumava para ir trabalhar, ouvi vozes e pessoas chorando. Olhei por sobre o muro da minha casa e vi que as pessoas estavam na calçada quase em frente a casa de Dna Edemia. Pensei com meus botões – Dna Edemia descansou.
Chegando no banco avisei para os colegas que a mãe de Edemir havia falecido (ele não estava trabalhando). Como não havia telefone na maioria das casas, resolvemos, eu e mais alguns colegas, irmos até a casa de Dna Edemia no intervalo do almoço. Era comum naquela época o corpo ser velado na própria casa. Chegando lá bati à porta, alguém abriu, entramos. Imediatamente ouvi a voz inconfundível de Dna Edemia:
- “Oh minha filha, que bom lhe ver!!!”
- “Trouxe os colegas lá do banco para lhe fazer uma visita.” – respondi com a maior cara de pau.
Teve gente que se espremeu para segurar a risada.
Mais tarde, conversando com minha mãe, descobri que o problema foi na casa da outra vizinha e alguém chorava por causa de uma briga.
PORTA ABERTA
Boa parte da família do meu pai morava no interior (mais interior ainda que Macaé) e quando vinham a Macaé resolver qualquer problema (médico, compras, etc..) apareciam, sem avisar, para almoçar. Isso não era um problema, as famílias já estavam acostumadas com as visitas inesperadas, visto que nessa época os meios de comunicação eram as cartas (que demoravam dias para chegar) e a fofoca que corria de boca em boca. Telefone era para poucos privilegiados.
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| Parte da família Adamis |
07 maio, 2026
Distraída Demais
Sempre fui muito distraída, me desconcentro com muita facilidade, exceto quando estou lendo algo que me interessa muito ou assistindo um filme muito bom. Nesses momentos alguém ao meu lado pode conversar comigo durante um bom tempo sem que eu perceba nada (meu marido que o diga).
Essa minha distração as vezes me coloca em alguma "saia justa" ou em situações engraçadas. Quando criança ouvi, várias vezes, minha mãe reclamar que havia me chamado e eu não tinha respondido. Eu simplesmente não escutava o que acontecia a minha volta quando estava concentrada na leitura de um livro ou de uma revista, a não ser que fosse um barulho fora do normal. Mais tarde, já adulta, ocorria a mesma situação quando eu estava concentrada em alguma tarefa. Os colegas de trabalho repetiam a mesma frase da minha mãe.
22 agosto, 2025
O ENTERRO
Esquecida e Distraída
Essa duas características, esquecida e distraída, me acompanham desde o berço, mas estão se tornando um coquetel perigoso na "melhor idade". Vou citar apenas um exemplo dentre tantos.
Meu pai, Vitório, faleceu em 2003 pouco antes de completar 90 anos. Ele era o segundo mais velho entre dez irmãos. Alguns já tinham partido antes dele e a única irmã ainda viva, Tia Zenita, era um pouco mais nova do que ele.
Passado algum tempo eu e minha prima Terezinha Faturine resolvemos ir ao Rio de Janeiro visitar nossa tia que, já bem idosa, morava com a filha Elizete.
- Ângela, Elizete pediu para não falarmos nada com Tia Zenita sobre a morte de Tio Vitório. Ela não sabe que ele morreu, os filhos acharam melhor não contar nada. Ela ainda pensa que o irmão está doente, acamado, mas vivo – Me recomendou Terezinha.
- Ok, não falo nada – Concordei, cheia de boa intenção.
Chegamos na casa da Elizete, nossa prima que é uma ótima anfitriã e que nos recebeu com sua alegria genuína, junto com nossa tia que também tem um bom humor invejável. Almoçamos, descansamos um pouco e mais tarde nos juntamos todos na sala junto com outros primos que chegaram. A conversa rolava solta, como sempre acontece quando nos encontramos, o que não ocorre com a frequência que desejamos. São lembranças da nossa infância e juventude, imagens e cheiros que retemos na memória e que precisamos lembrar, enquanto ainda podemos.
Em dado momento alguém conta algo novo, um fato engraçado que aconteceu recentemente.
- Ah! Se papai estivesse vivo ia adorar ouvir essa história – eu comentei.
Percebi alguns olhos arregalados, mirados em mim.
- O que? Vitório morreu? – perguntou tia Zenita.
- E agora? Fudeu – Eu pensei.
- Mãe, não falamos nada pra senhora porque não queríamos que ficasse triste e a senhora nem poderia ir até lá no velório. Ele estava sofrendo muito, foi melhor assim – explicou Elizete.
- É...se vocês me esconderam isso é bem capaz que a Iolanda (irmã dela) também já tenha morrido – choramingou tia Zenita.
- Morreu mesmo, morreu antes de papai. Desculpe, tia Zenita, mas já que eu fiz a merda é melhor acertar logo tudo – falei desanimada.
Não sou mais uma pessoa confiável, tenho que avisar aos amigos que não me contem segredos. Correm o risco de ter suas reputações abaladas graças a minha mente cansada.
03 maio, 2025
AS VÉIAS ESQUECIDAS
Aproveitei o feriado do Dia do Trabalhador e fui dar uma caminhada pela areia da praia. Acordei cheia de preguiça, pra variar, mas olhei o mar azul escuro e me rendi ao encanto de uma manhã de outono de céu limpo e ensolarado. Não dá pra desperdiçar esses dias da melhor estação do ano, amanhã pode chover e eu vou me arrepender.
Logo no início da caminhada encontrei minha amiga Silvia, companheira de "sofrimento" nos exercícios de Pilates. Ela estava acompanhada de uma amiga e começamos a conversar. Papo vai, papo vem, mostrei pra elas o estrago que os borrachudos fizeram na minha perna no sábado, quando visitei minhas primas numa fazenda perto de Trapiche. Estava horrível, porque sou alérgica a picada de mosquito.
- Vou continuar minha caminhada, enquanto caminho esqueço a coceira nas pernas.
E segui em direção a Lagoa de Imboassica. No meio do caminho encontro meu amigo Mario Prado e a namorada. Paro e logo me sento com eles pra conversar. Não demora muito e o assunto ''viagem' surge. Diga-se de passagem, a gente sempre acaba falando um pouco sobre as viagens que fizemos ou as que ainda desejamos fazer. Fiquei um bom tempo conversando com os dois.
Segui com a caminhada, mas não resisti muito tempo, voltei. A maré estava subindo e a parte da areia mais firme já estava coberta pela água. O que restou foi a parte de areia fofa e muito inclinada. A Lagoa que me espere.
Preciso fazer um intensivão de caminhadas porque vou aos Lençóis Maranhenses em junho e estou com pouco preparo físico para subir e descer dunas. Nem sei se vou dar conta.
Um quilometro depois encontro minha amiga Jussara Peruzzi, que não via há muito tempo. Fiquei feliz de vê-la tão bem, alegre e saudável. Ficamos um bom tempo conversando, botando o papo em dia.
À noite, minha amiga Silvia me passa uma mensagem dizendo que a amiga que estava na praia com ela, queria saber o nome do remédio que eu tinha falado. Eu não me lembrava de remédio algum.
É o que eu deveria fazer, mas fiquei embatucada com a história do remédio. Será que o alemão está querendo me visitar? Nesse caso, visitar nós três. Ô medo!!
Fiquei rememorando a nossa conversa desde o início e cheguei no momento em que falava das picadas do mosquito e eu comentei que a minha alergia estava piorando com a idade, como é de se esperar. Comentei que os cheiros, bons ou ruins, estão me incomodando muito e até o cheiro do FreeCô estava se tornando insuportável.
Será que é isso? Pensei.
Mais tarde Silvia manda uma mensagem.
- É isso mesmo!!!😂😂😂
Puta que pariu!!! Remédio pra bloquear o cheiro da titica. É cada uma.













