10 maio, 2026

DEUS ESTÁ NO CONTROLE

 As vezes sinto inveja de quem acredita na frase "Deus está no controle".

A fé é um consolo e tanto.

Minha mãe era religiosa, sem exageros, mas com uma fé genuína em Deus. Na década de quarenta meu pai perdeu todo o dinheiro que tinha guardado em um Banco. O Banco (não lembro o nome) quebrou e o dinheirinho que ele economizou durante anos para comprar um caminhão, foi pro ralo. E lá se foi o sonho de deixar o trabalho na roça e se tornar motorista de caminhão.
Minha mãe disse:

- Se Deus não permitiu é porque ele sabe o que é melhor pra nós.

E pronto, tudo resolvido sem choro nem vela.
Eu jamais saberei se ele foi mais feliz porque não se tornou motorista de caminhão. Ela tinha certeza de que foi melhor assim.
Parece-me tão simplista acreditar que tudo que deu errado foi porque "Deus sabe o que é melhor" e tudo que deu certo foi "Graças a vontade de Deus".

Parece que somos meros joguetes na mão do todo poderoso e que ele escolhe caminhos bem tortuosos para chegar ao lugar certo.

Gostaria de acreditar, mas não é fácil.

FILHOS

 20.08.2016

Meus Filhos
Quando os meus filhos nasceram eu imaginava que o papel dos pais seria o fator mais importante na formação do caráter deles. Sabia que o ambiente em que eles viveriam também era importante. Porém, naquela época, eu ainda não tinha a dimensão da influência decisiva da carga genética transmitida pelos pais, trazidas de outras gerações da nossa família.

A idéia de que os recebemos como uma folha em branco e que, recebendo uma educação adequada, irão corresponder a nossa expectativa, é totalmente equivocada. Há momentos em que me surpreendo com nossa total impotência diante do que a natureza determina. Eles serão, sem sombra de dúvida, uma mistura do que eles já trouxeram quando chegaram nesse mundo mais o que esse mundo oferecerá a eles. Só não sei qual será o fator predominante.

Analisando uma situação que ocorre em uma família, fico a imaginar como a personalidade de um filho pode ser completamente diferente dos pais e avós? É como se todos os valores transmitidos pelos pais durante anos não tivessem encontrado chance de penetrar na formação do caráter do filho. Parece que apenas os traços genéticos e os instintos naturais sobreviveram. E esses traços negativos ainda foram acentuados pelo meio onde passou a viver depois de adulto (profissional e familiar). Vejo nos demais irmãos traços da educação que receberam. No entanto, em um deles, não consigo reconhecer nenhum desses valores transmitidos pelos pais. Talvez alguma parte tenha sido absorvida por ele, porém é imperceptível para os outros integrantes da família.

Bom, não sei por que ainda me surpreendo. É assim, segundo reza a lenda, desde os tempos de Caim e Abel.

O PODER

 17.04.2016

Estive acompanhando pela televisão a votação sobre o impeachment da Presidenta Dilma, e observando aquela estranha fauna que trabalha (muito menos do que deveria) naquele ambiente. Depois de algum tempo de observação lembrei-me de uma palestra que assisti em um evento de RH, que falava sobre instintos básicos do ser humano: o desejo sexual, a busca do prazer, a agressividade, anseio pelo poder e outros que não me lembro. Segundo o palestrante esses instintos, que todos nós temos, visam à perpetuação da espécie, a preservação da própria vida, etc.

O anseio pelo poder, que me parece estar relacionado à autoestima, fica bem evidente nesse grupo. O ser humano é um bicho interessante. Na empresa onde trabalhei, ficava frequentemente boquiaberta diante da atitude de algumas pessoas que almejavam ocupar cargos ou para se perpetuarem neles. E ficava pensando por que uns desejam tanto o poder e outros não. 

Com o passar dos anos fui entendendo (a idade avançada serve pra alguma coisa) que o desejo de poder está em todos nós. Porque são vários tipos de poder e certamente já fomos afetados por algum deles: político, material, intelectual, físico, estético, etc. Possuímos esse desejo de poder, esse prazer em ser superior ao outro. O prazer de ser mais rico, o mais inteligente, o mais bonito, o mais corajoso, o melhor amante, o mais poderoso, o mais caridoso entre todos os caridosos do seu convívio, o mais cruel entre todos os bandidos, e por aí vai. E esse poder é sempre exercido sobre outro semelhante: filhos, marido, esposa, pais, amigos, empregados, etc.

Muitas vezes esse desejo pelo poder é bem disfarçado. Tive um exemplo claro desse tipo de disfarce utilizado, talvez inconscientemente, por uma colega de trabalho na Petrobras, que utilizava a caridade para alimentar seu ego, seu desejo de ser notada. Talvez por não ser bela ou inteligente ou rica, a bondade foi o seu recurso para ser notada, ser admirada. Sempre tenho um pé atrás com pessoas muito bondosas, faz parte da minha cota de preconceito. 

Quanto a conheci, mantive minha descrença habitual naqueles que são muito caridosos, muito religiosos, muito pudicos. Algumas vezes, com o passar do tempo, percebo que em algumas pessoas essa bondade é genuína, mas é raro. 
Fiquei a observá-la e tempos depois, no episódio da morte de uma cunhada que foi acompanhada por ela durante o período da doença, percebi a verdadeira motivação: poder e vaidade. Enquanto descrevia com detalhes minuciosos o sofrimento pelo qual padecia a enferma nos seus últimos dias, percebi o prazer em seu olhar. O que ela desejava não era minorar a dor da cunhada, mas obter a gratidão de toda a família, criar uma dívida impagável, a dependência da família em relação a ela. A super caridosa.

Não é de se admirar que nas altas esferas de poder todos os pudores sejam abolidos. Se não tivermos instituições fortes e atuantes, não há quem coloque freio nesse desejo incontrolável de poder. Não tenho muita esperança de ver o meu país livre dessa gang que se instalou no governo, em todos os níveis da estrutura.

Não somos muito melhores que os políticos, a diferença é que para os "sem poder" o estrago pode ser menor. Que bicho estranho somos nós !

SHOW DE JAMES TAYLOR E ELTON JOHN

 

Em Janeiro Rosani surgiu com essa ideia de irmos ao show de Elton John e James Taylor no Rio, em abril. Rosani é conhecida no nosso grupo como "juíza", por causa do seu temperamento decidido e um pouco briguento, então quando ela decide não dá trégua. 

Aí, Graça, nossa guia turística predileta, sai em campo para viabilizar os delírios de nossa companheira.

Sou fã dos dois artistas, mas nunca tinha cogitado assistir um show dos dois. Rock in Rio nunca esteve nos meus projetos, tenho um pouco de medo de multidão, prefiro assistir essas apresentações em teatro, quando é acessível ao meu bolso.

Depois de alguma divulgação nos grupos do ZAP, montamos a turma de quatorze pessoas.

01.04.2017


Encontramo-nos na casa de Graça por volta das nove horas pra partimos para o Rio. Somos quatorze: Angela, Rosane, Valdea, Maura, Vera, Claudia, Cleuza, Marcia, Rosani, Fátima, Ito, Tânia, Lina e Graça. Tudo gente boa.

Combinamos passar primeiro na Feira de São Cristóvão e depois do almoço iremos para o Sambódromo, local do show. 
Chegamos ao Rio por volta das 12:00 h. A temperatura estava agradável, um ventinho amigo nos recebeu. Comentei com Rosani que havia previsão de chuva para a hora do show:

- Não vai chover, cinquenta por cento de previsão de chuva não é chuva, não chove pode ter certeza.

Juíza falou tá falado, não discuto com autoridades. Mas na minha bolsa tem uma capa de chuva, uma blusa de manga comprida para o caso da outra molhar e um calçado extra. As autoridades as vezes se enganam feio.

Apesar do clima ameno, aqui dentro do pavilhão onde funciona a Feira faz um calor danado. Caminhamos um pouco pelas lojinhas e as companheiras já começaram a fazer umas comprinhas, como é de praxe.  Eu comprei o fantoche de um fantasminha, pra ver se assusto meu neto. Desconfio que ele não se assustará e vai destruir o fantasma em alguns segundos.

Chegamos perto de um dos palcos e já estava rolando um forró. Alguns casais já se arriscavam na dança embaixo do sol de meio dia. Uma velhinha desinibida dançava sozinha no melhor estilo “tô nem aí”. Aquela é Claudinha amanhã. Esse forró deve bombar no finalzinho da tarde, quando o sol dá uma trégua.

Procuramos logo um lugar mais fresquinho num dos restaurantes. No local onde escolhemos pra sentar tinha um ventilador bem grande, turbo, jogando um vento delicioso em cima das nossas costas. Imediatamente me veio uma vontade incontrolável de tomar um chope. Começamos os trabalhos e a turma caiu de boca no torresmo, baião de dois, aipim frito, bolinho de bacalhau, etc.

Depois de toda comilança, saímos do restaurante e fomos andando devagar, desgastando o almoço para enfrentar a segunda jornada. Um céu azul sem nuvens me fez pensar que aquela capa de chuva só serviria para fazer uma sauna, se eu desejasse. Ah, se eu soubesse....

Chegamos cedo, o portão ainda não estava aberto. Entramos na fila (ô sina, essa de enfrentar fila). Um calor danado e a turma que vende capa de chuva já estava a postos.

- Olha a capa de chuva! Tá a dez real, mas quando cumeça a chuvê dobra o preço.

Ninguém se animou. Logo o anjo da guarda dos ambulantes que vendem guarda-chuva, sombrinha e capa, começou a trabalhar e uma nuvenzinha preta começou a surgir lá no horizonte.

- Olha lá, chuva tá vindo! Não sou eu que tá falando, foi a Maju que avisou. O preço da capa vai aumentar - anunciou o vendedor de guarda-chuvas.

O pessoal da fila começou a se movimentar e a venda de capas se intensificou. Logo chegaram os primeiros pingos de chuva. Falei pra juíza:

- E aí, não vai comprar uma capinha?

- De jeito nenhum, cinquenta por cento de previsão não é chuva, é só uma garoinha.
 
Depois de um bom tempo abriram o portão e entramos. Chegamos à arquibancada e escolhemos o lugar que achamos melhor, sem disputa com ninguém porque ainda era bem cedo. Estendi minha almofada de silicone, empréstimo da nossa amiga Rose pra mim e Rosani. Comecei a maldizer a almofada, que parecia pesar uma tonelada. Tentei encher a infeliz, soprei, soprei...e nada. Desisti, mas mesmo meio vazia ela cumpria sua função. Será que o silicone que botam no peito e na bunda pesam assim?  Imagino que não, caso contrário ninguém ia aguentar carregar essas próteses.

E começou a espera pelo show e comecei a pensar “podíamos ter chegado mais tarde, é tão ruim esperar”. Mal sabia eu que “esperar” seria o menor dos problemas, o pior estava por vir. 

De repente o anjo da guarda dos ambulantes que vendem - vcs já sabem o que eles vendem - abriu a torneira dos céus e “tome chuva”. Como é proibido entrar no local com sombrinhas, todo mundo sacou sua capa de chuva para enfrentar a intempérie.

Pontualmente, com um pequeno atraso de oito minutos, James Taylor surgiu no palco. O atraso foi perfeitamente aceitável até porque ele é americano e não britânico como Elton John. Agora, Sir Elton tem que ser rigorosamente pontual pra manter viva a fama de pontuais dos britânicos.

James está com cara de terceira idade, mas sua voz continua maravilhosa, macia, aveludada. Falou um pequeno texto em português onde dizia que estava feliz por estar novamente no Brasil e explicava que não poderia tocar seu violão porque tinha quebrado o dedo. E xingou “merda”. Começou a cantar seus sucessos. Quando cantava "You’ve got a friend'' a chuva despejou. Mesmo assim todos nós cantamos em coro junto com ele. Liiiiindo!!!

E tome chuva. Minhas pernas já estavam totalmente molhadas porque a capa apesar do número GG não chegavam nem a cobrir os joelhos. Quem manda ser alta!

Parou a chuva e surgiram algumas estrelas no céu. Que bom, a chuva vai parar! Quando James terminou de cantar "Fire and Rain" a chuva voltou a cair. Que ironia, nessa música ele fala que viu o fogo e a chuva. Hoje só viu chuva. No telão ele olha pra cima e seus olhos azuis escuro como os do meu pai, transmite tranquilidade.

A chuva voltou e voltou pior.  E aí começamos a ver os estragos: capas com vazamento, outras que rasgam com facilidade, almofadas de tecido que ficaram encharcadas molhando a bunda de quem estava em cima delas. Valdea trouxe um cachecol para se aquecer e ele virou uma esponja. Ela enxugava a capa com ele e torcia em seguida:

- Vim aqui para lavar roupa. Quem quer estender essa roupa pra mim?

Por fim eu já estava desejando que James Taylor se retirasse (tadinho) pra desocupar o lugar pra Elton John começar logo o show, antes que a gente congelasse. Aí ele canta a música que fez em homenagem ao Rio de Janeiro depois que participou do primeiro Rock in Rio. Ele merece nosso sacrifício!

Haja bom humor pra enfrentar esse contratempo. A chuva estava de sacanagem, parava e recomeçava, parava e recomeçava... A gente tentava se enxugar um pouco, tirava a capa, sacudia e logo em seguida chovia de novo. Num desses intervalos comi um pedaço de pizza, comi rápido antes que chovesse novamente. Pizza molhada ninguém merece.

Fiquei preocupada com Rosani. Nesse momento ela era quase a verdadeira imagem do pinto molhado. Digo “quase” porque a imagem verdadeira seria a do próprio pinto, o animal, molhado. Mas ela não se aperta, desceu e comprou uma camisa do show e conseguiu a última capa de um ambulante.

Comecei com uma tremedeira incontrolável e decidi sair da chuva. O show de James já tinha acabado então fui para a área do banheiro que é coberta.

- Elton que se foda. Desculpa aí Sir Elton, vc embalou meus sábados à noite, mas não tenho mais idade pra enfrentar temporal só pra ver meus ídolos da juventude. Aliás, vc se cuide que essa chuvinha aí no palco pode lhe resfriar, vc também já está velhinho.
Já encontrei Claudinha e Tânia lá na área coberta. Depois chegou Cleuza. Fui ao banheiro e verifiquei que minha calça estava encharcada. Não havia o que fazer. Enxuguei a capa pra tentar pelo menos me aquecer um pouco. Lá de baixo ouvi quando Elton disse “muito obrigado por resistirem a chuva, é um privilégio tocar pra vocês”.

A chuva deu uma trégua e subimos correndo para o alto da escada. Elton vestido num paletó cintilante, que faria inveja a Cauby Peixoto, dedilhava o piano com a vitalidade que lhe é peculiar. Outro estilo, completamente diferente do seu antecessor no palco. James é Zem, doce. Elton é pura energia. Que show, valeu o sacrifício.

Começou a chover novamente, descemos a escada e fomos pra área coberta.   Pouco depois Vera veio nos chamar, disse que Graça estava propondo sairmos um pouco antes de terminar pra evitar o tumulto da saída. Concordamos com ela, exceto Rosani que junto com seu irmão e sua cunhada ficaram até o final.

Saímos pelo portão à esquerda e nos deparamos com as ruas interditadas. Graça ligou para o motorista da Van e ele combinou de nos pegar em frente ao prédio do Batalhão de Polícia. No caminho nos perdemos de Creuza e Taninha. Acho que nos perdemos de Lina também.

Aos poucos os retardatários foram chegando. Quando entramos na Van começamos a fazer o inventário do estrago. Valdea molhou até o dinheiro que estava na carteira, vai ter que pendurar pra secar e ver se salva algum. Márcia, que estava com a roupa na mochila, ficou decepcionada quando viu que estava tudo molhado. A solidariedade das amigas a salvou: uma emprestou uma calça leging e outra uma blusinha. Tânia disse que até a pepeca estava resfriada. Eu estava usando uma bolsa de praia, toda furadinha, molhou tudo que estava dentro. Ainda bem que eu deixei tudo na Van e pude vestir um pulôver quentinho e um calçado seco. Maura ainda me emprestou um casaquinho para cobrir minhas pernas. Enfim parei de tremer.

Parece que na viagem de volta, dentro do carro quentinho, todos dormiram. Não vi ninguém reclamar pela Van não ter parado pra fazer xixi e comer. Não parar pra comer? Estavam desmaiadas, com certeza.

É TUDO MENTIRA, HISTÓRIA DE PRIMEIRO DE ABRIL. 
SÓ QUE NÃO






ELUCUBRANDO

Escrevi sobre determinado assunto num grupo do ZAP e recebi uma crítica agradável de uma amiga:

 - Você escreveu tão bem, parece que você viveu naquele lugar e que vivenciou aqueles momentos. Eu que estive lá tanto tempo não percebi metade das coisas que vc descreveu.

 Fiquei analisando o que ela disse. Penso que aquele que fala ou escreve sobre o que viveu, o que viu com os próprios olhos, sentiu na própria pele, tem maior chance de descrever melhor do que aquele que fala ou escreve sobre o que não vivenciou.

Porém, em tudo o que escrevemos está presente nossa experiência de vida, tudo o que lemos, o que ouvimos, o que gastamos horas estudando, pensando, avaliando...

Toda essa memória, que está adormecida nas profundezas do nosso cérebro e que a gente nem sempre percebe, aflora em determinados momentos, talvez por um gatilho e passa a compor o cenário que se apresenta naquele momento. Por essa razão o mesmo fato tem um significado diferente para duas pessoas que viram e vivenciaram o mesmo fato.

PACTO DE MORTE

Meus pais no dia em que se casaram

Meus pais estiveram casados por 64 anos. Algumas vezes os vi conversarem sobre quem morreria primeiro e dava para perceber a dificuldade que tinham em imaginar a vida sem o companheiro (a) de tantos anos.

Perder o companheiro, mesmo que não seja tão companheiro assim, nesse momento da vida é algo complicado. Se o idoso não tem uma atividade que lhes preencha as horas do dia, a solidão encosta e aí, a falta de um companheiro para partilhar um momento de dificuldade ou até mesmo de alegria, deixa um vazio difícil de ser preenchido.

Por tudo isso meu pai costumava fantasiar que o ideal era que eles morressem juntos.

Um dia vimos na televisão uma matéria sobre um casal de idosos que fizeram um pacto com Deus para que ele os levasse para o além no mesmo dia. Papai comentou que gostaria de fazer o mesmo.

Passado alguns dias, morreram duas pessoas na vizinhança. Perguntei a papai:

- E aí papai, se a morte chegasse aqui do seu lado nesse instante, o que o senhor faria?

Ele olhou para os lados e avistou mamãe debruçada sobre a pia da cozinha. Levantou o braço por cima da cabeça e silenciosamente apontou o dedinho para ela, como se estivesse a indicar para a “morte” que ela deveria ir primeiro. E disse:

- Ela tá mais cansada, eu posso ficar pra depois!

Caí na risada. Na hora “H” ele esqueceu do pacto que queria fazer e só pensou em como seria bom viver um pouco mais.

A PRAIA

Meu pai costumava levar para a praia, toda a criançada da nossa rua. Saíamos bem cedo; íamos a pé e ele de bicicleta, até a Praia das Pedrinhas. Passávamos pela Praia de Imbetiba, depois Praia dos Cavalos (onde algumas pessoas lavavam seus cavalos), contornávamos a sede da Rede Ferroviária e finalmente chegávamos ao nosso destino. 

Não havia quase areia nessa praia mas era ótima, pouca onda, mansinha, porque ficava protegida por duas barreiras de pedra que formavam uma pequena enseada. Cacilda, Leomar, Sandrinha, Penha, Rosângela, Fátima e eu, caíamos na água e só saíamos quando a pele já estava murcha de ficar tanto tempo de molho.

Quando conseguíamos uma bóia (câmara de ar de pneu de caminhão) a farra era ainda maior. Sentávamos ao redor da boia, com os pés para dentro, batendo na água e fazendo a boia rodar. Papai costumava mergulhar, vir nadando por baixo d’água e de repente virava a boia. Tbum!!! As que sabiam nadar rapidamente chegavam a areia. Papai ajudava as que não sabiam mas, é claro, elas bebiam alguma água até conseguir sair. Desse jeito, no sufoco, acabamos todas aprendendo a nadar. Método Victório Adamis.

As mais saidinhas arriscavam uma caminhada sobre as pedras e muitas vezes voltavam com os pés cheios de espinhos de ouriços. Dava um trabalhão retirar todos os espinhos, sem contar a dor.  

Depois procurávamos uma pedra que fosse um pouco confortável, deitávamos por algum tempo ao sol, sem a preocupação de bronzear o corpo e nem proteger a pele dos raios ultravioleta. Filtro solar ? Ninguém sabia o que era isso !!! O que queríamos era só brincar, brincar e brincar.

A volta para casa tinha que ocorrer antes das 11:30 porque nesse horário saíam para o almoço os empregados da Rede Ferroviária. Quando tocava o buzo (campainha) disparavam centenas de bicicletas pela Av. Agenor Caldas e se não tivéssemos atravessado a Avenida, perdíamos um tempão esperando as bicicletas passarem.

No dia seguinte, mais praia. E assim seria até o término das férias, que naquela época duravam três meses.


FESTA JUNINA

Em Macaé, nas décadas de 60 e 70, aconteciam muitas festas juninas nos bairros, diferentemente de hoje.

No Cajueiros, no mês de junho, as quadrilhas aconteciam em vários lugares. Uma delas, no beco de Walter Foguete, era minha preferida. Eu via a festa da casa de Dna Maria de seu Thomaz, nossa vizinha. O muro dos fundos dava para o beco. Nós subíamos em caixotes e ficávamos assistindo a quadrilha. Sempre fui muito “bicho do mato”, nunca gostei de “aparecer” mas morria de vontade de vestir aquelas roupas coloridas, pintar o rosto com pintinhas pretas e dançar a quadrilha. Como meus pais eram evangélicos, não permitiam. Tinha que me contentar em apenas assistir.

A religião me privou de alguns prazeres na infância e adolescência. Dançar quadrilha foi um deles. Matinê de carnaval, bailes e praia aos domingos pela manhã também eram proibidos. Acho que vem daí minha birra com todas as religiões.

Por outro lado, essas proibições me incentivaram a procurar minha independência financeira desde muito jovem. Por volta dos 13, 14 anos eu já ganhava algum dinheiro pintando lençóis, toalhas, enxoval de bebê, etc... Ana Maria, dona de uma boutique infantil em Niterói, vinha mensalmente a Macaé trazer camisetas para que eu pintasse personagens das histórias em quadrinhos. Eram caixas e mais caixas de camisetas que me ocupavam boa parte das tardes de verão. 

Depois que consegui ganhar meu sustento ninguém mais me colocou cabresto. Dancei todas as quadrilhas que eu quis.



PRAIA DE ADOLESCENTE

Ir a praia todos os dias no período de férias, era sagrado. Era um tempo de “faça você mesmo” porque o dinheiro era pouco e a criatividade era muita. Sendo assim, costumávamos fazer nossos próIprios biquínis. Aprendi com Marília, vizinha da minha prima Lúcia, a fazer biquíni de jérsei, tecido muito usado na época. Para bronzear a pele, misturávamos óleo Johnson e urucum ou iodo. Quanto mais "queimadas" melhor. Ainda não sabíamos do buraco na camada de ozônio e o buraco que nos interessava naquele momento era aquele que fazíamos na areia para acomodar a toalha onde íamos deitar. O que queríamos era desfilar os corpos morenos pela praia e a Praia de Imbetiba era o point. Praia dos Cavaleiros era distante, deserta e brava; nem pensar.

Nessa época eu costumava ir a praia junto com minha prima Lúcia e seus amigos, a maioria vizinhos dela: Marília, Margarida, Ruza, Loloia, Fátima, Sérgio, Dica, etc.... À noite voltávamos para a Imbetiba onde os jovens se encontravam na Toca do Toti, Redondo, Varandão e 860. Os “sem grana” ficavam sentados no muro de pedra em frente à praia ou na areia, em pequenos grupos, onde uns tocavam violão e cantavam, outros namoravam. Época de hormônios a flor da pele.

Fazíamos festinhas hi-fi (festa informal onde cada pessoa leva algo para comer ou beber) na casa de alguns amigos. Bastava uma varanda ou sala espaçosa, luz negra, uma vitrola e muitos discos. Tomávamos cuba-libre, martini e batida. Cerveja não era nossa preferência naquela época. Comparando com as festinhas dos adolescentes de hoje, parecíamos um bando de idiotas. Mas que “idiotice” deliciosa era dançar de rostinho colado, coxa com coxa, e sentir o cheiro bom de loção pós barba!!


BRINCADEIRA DE CRIANÇA

A casa dos meus pais tinha uma calçada alta onde as donas de casa daquela rua, juntamente com minha mãe, ficavam sentadas nas manhãs de inverno “quarando” no sol enquanto conversavam, faziam crochê ou tricô, e tomavam conta dos filhos que brincavam ali por perto. 

E como nós brincávamos na rua de terra batida onde raramente passava um carro!!! Amarelinha, pique - esconde, queimado, três marias, pular corda, andar de bicicleta, etc...eram nossas brincadeiras prediletas.

Os dias de chuva também eram de diversão. Era hora de preparar os barquinhos de papel para jogar na enxurrada. Ficávamos um bom tempo olhando os barquinhos descerem rua abaixo até naufragar na correnteza.  Se a chuva fosse fraquinha e demorasse vários dias, o jeito era brincar dentro de casa. Brincar de casinha, de preferência.

Na casa de Regina tinha uma varanda comprida onde improvisávamos os desfiles de misses. O concurso de Miss Brasil era um sucesso e era também o sonho das adolescentes daquela época. A coroa, o cetro e o manto eram “fabricados” com apetrechos da casa de Carminha, mãe de Regina. As mais feinhas e tímidas, como eu, ficavam no júri e as desinibidas desfilavam. Cacilda fazia caras e bocas e vibrava quando ganhava. Depois desfilava pela varanda na ponta dos pés, arrastando o manto (um lençol vermelho) e um sorriso de orelha a orelha.

Passaram-se alguns anos e as senhoras da rua continuavam passando parte da manhã sentadas na calçada na sua tarefa de trocar receitas, pontos de tricô, e falar sobre os acontecimentos do bairro. Lembro-me de um vizinho, um senhor alto e magro, que era um dos poucos do bairro que possuía carro e dirigia muito, muito mal. Quando ele ia retirando o carro da garagem, José Luiz, um rapaz que trabalhava com o pai no bar da esquina, chegava na porta do bar e gritava para as mulheres da calçada e as crianças que brincavam – “Corre que seu Manoel tá saindo com o carro”. Ficavam todas alertas, prontas para sair fora caso seu Manoel se dirigisse em direção à calçada. Todos paravam suas atividades e se preparavam pra correr, caso o “barbeiro” se aproximasse.

 

Tempo bão!!!!


O ENGANO

 Colocar as cadeiras na calçada e prosear, era um hábito da maioria das famílias nas cidades do interior e, na minha rua não era diferente. Assim ficávamos conhecendo e convivendo com a vizinhança. A televisão nos colocou pra dentro de casa e com isso perdemos esse hábito, a meu ver, salutar.

Dna Edemia e o marido, Seu Barroso, junto com seus filhos, costumeiramente no final da tarde sentavam na calçada em frente a casa e por ali ficavam até a noitinha, conversando e vendo a vida passar. Da minha casa eu podia ouvir seu riso alegre e sua voz inconfundível. Quando eu passava, do outro lado da rua, seu Barroso perguntava:

- Ta querendo ficar preta menina? Pra que pegar tanto sol?

Dna Edemia abria um sorriso alegre no rosto redondo e simpático. Ela era uma pessoa extremamente agradável e bem humorada.

Tempos depois ela adoeceu gravemente. A família colocou na sala uma cama hospitalar para dar maior conforto a doente. Nas vezes em que fui visitá-la percebia que ela ainda conseguia manter o espírito brincalhão, apesar da difícil situação em que se encontrava.

Um dos filhos dela, Edemir, trabalhava junto comigo no Unibanco. Numa manhã bem cedinho, quando me arrumava para ir trabalhar, ouvi vozes e pessoas chorando. Olhei por sobre o muro da minha casa e vi que as pessoas estavam na calçada quase em frente a casa de Dna Edemia. Pensei com meus botões – Dna Edemia descansou.

Chegando no banco avisei para os colegas que a mãe de Edemir havia falecido (ele não estava trabalhando). Como não havia telefone na maioria das casas, resolvemos, eu e mais alguns colegas, irmos até a casa de Dna Edemia no intervalo do almoço. Era comum naquela época o corpo ser velado na própria casa. Chegando lá bati à porta, alguém abriu, entramos. Imediatamente ouvi a voz inconfundível de Dna Edemia:

- “Oh minha filha, que bom lhe ver!!!”

- “Trouxe os colegas lá do banco para lhe fazer uma visita.” – respondi com a maior cara de pau.

Teve gente que se espremeu para segurar a risada. 

Mais tarde, conversando com minha mãe, descobri que o problema foi na casa da outra vizinha e alguém chorava por causa de uma briga.

PORTA ABERTA

Boa parte da família do meu pai morava no interior (mais interior ainda que Macaé) e quando vinham a Macaé resolver qualquer problema (médico, compras, etc..) apareciam, sem avisar, para almoçar. Isso não era um problema, as famílias já estavam acostumadas com as visitas inesperadas, visto que nessa época os meios de comunicação eram as cartas (que demoravam dias para chegar) e a fofoca que corria de boca em boca. Telefone era para poucos privilegiados.

Parte da família Adamis
De repente a mesa do almoço ficava rodeada de primos e tios e o falatório era grande. Meu avô repetindo sempre as mesmas histórias (problemas da idade avançada), Tia Mafalda e Tia Mabel sorrindo discretamente, Tio Augusto e seus “causos”. E outros tantos tios, tias, primos e amigos, apareciam sem data e hora marcada.

Os que residiam em Macaé também compareciam para um café e um bate-papo. Zé Porto, Tio Pedro, Tio João Figueiró, Eutália, Zélia, Tia Fina, Tia Laura (parentes da minha mãe) chegavam quase sempre à tarde para uma conversa despretensiosa cujo único objetivo era fortalecer a amizade.

São poucas as casas que hoje mantêm a porta aberta para os parentes e amigos. Até porque temos tão pouco tempo livre, ocupados que estamos em trabalhar, nas compras, no trânsito, no facebook, no Instagran, etc... Convivência agora só virtual.

E quanto maior o poder aquisitivo da família, maior o seu distanciamento desse modelo antigo de relacionamento.

Que saudade do cheiro do café (de coador de pano), da broa quentinha saindo do forno e da mesa onde os adultos conversavam e eu, ainda criança, apenas ouvia e não dava pitaco.

07 maio, 2026

Distraída Demais

Sempre fui muito distraída, me desconcentro com muita facilidade, exceto quando estou lendo algo que me interessa muito ou assistindo um filme muito bom. Nesses momentos alguém ao meu lado pode conversar comigo durante um bom tempo sem que eu perceba nada (meu marido que o diga). 

Essa minha distração as vezes me coloca em alguma "saia justa" ou em situações engraçadas. Quando criança ouvi, várias vezes, minha mãe reclamar que havia me chamado e eu não tinha respondido. Eu simplesmente não escutava o que acontecia a minha volta quando estava concentrada na leitura de um livro ou de uma revista, a não ser que fosse um barulho fora do normal. Mais tarde, já adulta, ocorria a mesma situação quando eu estava concentrada em alguma tarefa. Os colegas de trabalho repetiam a mesma frase da minha mãe.

 

22 agosto, 2025

O ENTERRO


Meu marido não sabe se portar em enterros. Álias, ele não sabe se comportar em outros ambientes também, está cada vez mais “sem noção”, com a idade avançando está perdendo a noção de perigo. Recentemente fomos ao enterro de uma senhora de 86 anos. A maioria das pessoas que ali estavam se conheciam porque eram moradores do mesmo bairro, da mesma vila.

No momento do sepultamento propriamente dito, momento esse que eu penso que é o mais difícil para os familiares, nós estávamos num grupinho um pouco mais afastados da cova. Avistamos Tony Volks caminhando por entre os túmulos. Parecia que estava lendo a lápide de cada um deles, o que é um hábito que eu também tenho. Gosto de ler o epitáfio, tem alguns bem interessantes, tipo o de um velho conhecido meu: “Descanse em paz, seu exemplo de amor e dedicação permanecerá para sempre”. Nada a ver...a vida dele era mais parecida com filme de ação americano. Sabe como é, né? Tiro, porrada e bomba.

De repente Tony se abaixa e pega uma placa de granito, coloca sobre o ombro e sai carregando a pedra. 
 
- Vixe! Acho que Toninho roubou a pedra do túmulo – disse Vilson.

Quando ele passou por nós Vilson perguntou:

- Vai pra onde com essa pedra, Tony?
- É da minha irmã, já morreu um tempão e eu não coloquei o nome dela aqui, só tem o nome dos outros da família.
- Ah, que bom!!! Pensei que você tava roubando de algum morto. Dá um azar danado.

O resto do grupo caiu na risada.

- Vilson, pelo amor de Deus, se comporte. Está chamando a atenção do pessoal que tá enterrando Dona Maria. Isso aqui não é enterro de Arlindo Cruz, não meu filho, sambista é que gosta de animação no enterro. – Repreendi meu marido.

Aí foi que Kelly riu mais alto. Como diria meu pai ‘uma risada de rico”, não que Kelly seja rica, mas a risada é.

Não adianta pedir a ele para que mude seu comportamento, já passou da idade em que isso era possível. Se eu lhe peço para não falar determinada coisa, aí é que ele fala mesmo. Comportamento de velho e de criança são bem parecidos.
 
Decidi sair de perto de Vilson. 

- Vou fingir que nem conheço vocês - avisei.

E saí andando pra longe do túmulo. Kelly ria ainda mais e me chamava.

- Volta Ângela, vem cá....

Preciso escolher melhor as minhas companhias em enterros.

Esquecida e Distraída

 Essa duas características, esquecida e distraída, me acompanham desde o berço, mas estão se tornando um coquetel perigoso na "melhor idade". Vou citar apenas um exemplo dentre tantos.

Meu pai, Vitório, faleceu em 2003 pouco antes de completar 90 anos. Ele era o segundo mais velho entre dez irmãos. Alguns já tinham partido antes dele e a única irmã ainda viva, Tia Zenita, era um pouco mais nova do que ele.

Passado algum tempo eu e minha prima Terezinha Faturine resolvemos ir ao Rio de Janeiro visitar nossa tia que, já bem idosa, morava com a filha Elizete.

- Ângela, Elizete pediu para não falarmos nada com Tia Zenita sobre a morte de Tio Vitório. Ela não sabe que ele morreu, os filhos acharam melhor não contar nada. Ela ainda pensa que o irmão está doente, acamado, mas vivo – Me recomendou Terezinha.

- Ok, não falo nada – Concordei, cheia de boa intenção.

Chegamos na casa da Elizete, nossa prima que é uma ótima anfitriã e que nos recebeu com sua alegria genuína, junto com nossa tia que também tem um bom humor invejável. Almoçamos, descansamos um pouco e mais tarde nos juntamos todos na sala junto com outros primos que chegaram. A conversa rolava solta, como sempre acontece quando nos encontramos, o que não ocorre com a frequência que desejamos. São lembranças da nossa infância e juventude, imagens e cheiros que retemos na memória e que precisamos lembrar, enquanto ainda podemos.

Em dado momento alguém conta algo novo, um fato engraçado que aconteceu recentemente.

- Ah! Se papai estivesse vivo ia adorar ouvir essa história – eu comentei.

Percebi alguns olhos arregalados, mirados em mim.

- O que? Vitório morreu? – perguntou tia Zenita.

- E agora? FudeuEu pensei.

- Mãe, não falamos nada pra senhora porque não queríamos que ficasse triste e a senhora nem poderia ir até lá no velório. Ele estava sofrendo muito, foi melhor assim – explicou Elizete.

- É...se vocês me esconderam isso é bem capaz que a Iolanda (irmã dela) também já tenha morrido – choramingou tia Zenita.

- Morreu mesmo, morreu antes de papai. Desculpe, tia Zenita, mas já que eu fiz a merda é melhor acertar logo tudo – falei desanimada.

 Minha tia ficou tristinha, mas não por muito tempo.

Não sou mais uma pessoa confiável, tenho que avisar aos amigos que não me contem segredos. Correm o risco de ter suas reputações abaladas graças a minha mente cansada.

03 maio, 2025

AS VÉIAS ESQUECIDAS

Aproveitei o feriado do Dia do Trabalhador e fui dar uma caminhada pela areia da praia. Acordei cheia de preguiça, pra variar, mas olhei o mar azul escuro e me rendi ao encanto de uma manhã de outono de céu limpo e ensolarado. Não dá pra desperdiçar esses dias da melhor estação do ano, amanhã pode chover e eu vou me arrepender. 

Logo no início da caminhada encontrei minha amiga Silvia, companheira de "sofrimento" nos exercícios de Pilates. Ela estava acompanhada de uma amiga e começamos a conversar. Papo vai, papo vem, mostrei pra elas o estrago que os borrachudos fizeram na minha perna no sábado, quando visitei minhas primas numa fazenda perto de Trapiche. Estava horrível, porque sou alérgica a picada de mosquito. 

- Vou continuar minha caminhada, enquanto caminho esqueço a coceira nas pernas.

E segui em direção a Lagoa de Imboassica. No meio do caminho encontro meu amigo Mario Prado e a namorada. Paro e logo me sento com eles pra conversar. Não demora muito e o assunto ''viagem' surge. Diga-se de passagem, a gente sempre acaba falando um pouco sobre as viagens que fizemos ou as que ainda desejamos fazer. Fiquei um bom tempo conversando com os dois. 

Segui com a caminhada, mas não resisti muito tempo, voltei. A maré estava subindo e a parte da areia mais firme já estava coberta pela água. O que restou foi a parte de areia fofa e muito inclinada. A Lagoa que me espere.

Preciso fazer um intensivão de caminhadas porque vou aos Lençóis Maranhenses em junho e estou com pouco preparo físico para subir e descer dunas. Nem sei se vou dar conta.

Um quilometro depois encontro minha amiga Jussara Peruzzi, que não via há muito tempo. Fiquei feliz de vê-la tão bem, alegre e saudável. Ficamos um bom tempo conversando, botando o papo em dia. 

À noite, minha amiga Silvia me passa uma mensagem dizendo que a amiga que estava na praia com ela, queria saber o nome do remédio que eu tinha falado. Eu não me lembrava de remédio algum.

- É pra que doença é esse remédio que eu falei?
- Eu não me lembro e ela também não. Kkkkk. 
- Gente do céu, é muita véia doida. Silvia, eu conversei com vocês, depois encontrei Mario Prado e conversei mais um tempão e depois encontrei Jussara e conversei outro tanto. A essa altura do campeonato já misturei as três conversas e vai ser difícil lembrar de alguma coisa, minha memória é uma bosta.
- Deixa pra lá - Concluiu Silvia.

É o que eu deveria fazer, mas fiquei embatucada com a história do remédio. Será que o alemão está querendo me visitar? Nesse caso, visitar nós três. Ô medo!!

Fiquei rememorando a nossa conversa desde o início e cheguei no momento em que falava das picadas do mosquito e eu comentei que a minha alergia estava piorando com a idade, como é de se esperar. Comentei que os cheiros, bons ou ruins, estão me incomodando muito e até o cheiro do FreeCô estava se tornando insuportável.

- O que é isso, FreeCô? - Perguntou a amiga de Silvia.
- É um desodorizador para banheiro - Respondi.
- Eu também uso lá em casa - Informou Silvia

Será que é isso? Pensei.

- Silvia, será que o "remédio" que ela está querendo lembrar é o FreeCô?
- Vou perguntar a ela.

Mais tarde Silvia manda uma mensagem.

- É isso mesmo!!!😂😂😂

Puta que pariu!!! Remédio pra bloquear o cheiro da titica. É cada uma.

Pandemia

MARÇO DE 2020

16.03 a 22.03.2020

Há uns quinzes dias estamos confinados em casa, eu e Vilson, em virtude da pandemia do Coronavirus, que nos irrita e amedronta.

 Decidimos passar uma temporada no nosso sítio em Quissamã. Por ser um local mais isolado e pelo maior contato com a natureza, achei que seria mais seguro e menos sufocante.

Victor, Eveli e as crianças, Maria e Bernardo, também vieram. Eu e Vilson viemos primeiro e eles uns dias depois. Maria estava numa ansiedade enorme, como sempre, para sair de casa e passear um pouco. Só que no meio do caminho tinha uma barreira sanitária avaliando quem poderia entrar na cidade. Maria já estava nervosa, ficou mais ainda quando o carro teve que parar e o agente da prefeitura não permitiu que Victor continuasse a viagem porque não tinha um comprovante de residência de Carapebus. Chorou até chegar à casa, em Macaé.

Gosto dos dias aqui no sítio, tranquilos, sem compromisso com horários. Acordo sem pressa, faço o café, arrumo a mesa (coisa que não faço em Macaé) e tomo o meu café com banana cozida, batata doce ou aipim, queijo, pão, bolo. Tenho comido muito mais do que nos dias normais, o efeito colateral vou constatar em breve quando subir na balança. Ivo, nosso amigo que ajuda Vilson a cuidar do gado, toma café conosco. Ele é ótima companhia e torna nosso café da manhã muito mais divertido.

Depois do café tomo um pouco de sol e o dia começa.

Passo boa parte das tardes na rede, lendo e às vezes cochilando. Não gosto de dormir durante o dia porque atrapalha meu sono à noite e, por alguma razão que desconheço, quando isso acontece acordo mal-humorada.

Fomos á Macaé para abastecer a despensa, porque a partir dessa semana a população da casa aumenta.


24.03 a 29.03.2020

Retornamos com meu filho, a esposa e meus netos para a segunda temporada na roça. As crianças chegam já fazendo um alvoroço, Bernardo falando ainda mais alto que o normal, correndo atrás das galinhas, .... Será bom pra eles ficarem aqui, já devem estar cansados de ficarem presos em casa, pelo menos terão mais espaço para gastar toda energia reprimida nesse período. Bernardo acorda pela manhã e a primeira coisa que faz é sair procurando os ovos que as galinhas põe. Ele fica tão feliz que hoje eu peguei um ovo na geladeira e coloquei no ninho antes dele começar a procurar. Quando encontra o ovinho grita pra todo mundo ver o seu achado e também pra disputar com Maria quem acha mais ovos. Maria pegou o ovo e foi colocar na geladeira, e estranhou:- Ué! Esse ovo parece que tá gelado.E me olhou meio desconfiada. Disfarcei, pra não gerar ciumeira.

Bernardo, que é muito medroso, está começando a perder o medo dos bichinhos. Agora quando vê algum inseto já se arrisca a dar uma chinelada pra matar os bichos. Só não encarou ainda as pererecas e lagartixas. Tem um sapo grande com uma bonita cor esverdeada, que costuma comer insetos aqui na varanda, e desse todos fogem, exceto eu, Vilson e Victor. 

Eveli todo dia come banana com aveia no café da manhã. Maria entregou o motivo de tanta aveia:

- Mamãe come aveia porque senão só faz cocô de bolinha.

Ela vive entregando todo mundo. Ontem Vilson encontrou uns rolinhos de papel higiênico:


- Engraçado esses rolinhos, pra que será que serve? 
- É pra mamãe limpar meleca.

Hoje, dia 25.03, é aniversário de Vilson, faz setenta e cinco anos e não tá nem aí pro Covid-19. Diz que já está imunizado porque esse vírus não se dá bem com álcool, como ele toma uma cachacinha diariamente acha que está livre dessa gripe. Quem sou eu pra duvidar? Essa criatura não tem o menor cuidado com a saúde e não pega gripe, dengue, chicungunha, zica...nadica de nada. Sou mais nova onze anos, mas se eu der mole ele vai me enterrar.

Maria trouxe um quadro negro pra improvisar um presente pra ele. Eu fiz um desenho do rosto dele e um cachimbo, seu companheiro inseparável. Maria desenhou algumas flores e escreveu uma mensagem. Eveli fez um bolo com cobertura de chocolate, cantamos parabéns e comemos o bolo. Ótimo presente de aniversário em tempos de Pandemia.

Vamos a Macaé para resolver alguns assuntos e retornaremos no dia primeiro de abril. Quando chegamos à barreira sanitária o agente não nos deixou entrar na cidade de Carapebus e recomendou que retornássemos e seguíssemos pra Macaé pela BR-101. Putz! Isso vai aumentar muito nosso percurso.Passamos por Conde de Araruama e seguimos para a BR-101. Faz tanto tempo que não passo por aqui...acho que a última vez foi em 1986, quando paramos pra arrancar uma muda de flamboyant que plantamos no quintal da nossa casa. Essa árvore ainda está lá, na casa que hoje é de Victor. 

Chegamos ao trevo da BR-101 na altura da estrada que vai pra Macabuzinho. Vilson, como sempre, fica meio perdido qdo entra em um trevo com algumas saídas e eu dou uma ajudinha. Alguns quilômetros à frente ele ameaça entrar numa saída à direita:

- Êpa! Vai fazer o que aí Vilson?

- Ué, achei que já era a entrada pra Macaé.

- Você viu alguma placa falando isso? Então como é que entra assim sem ter certeza?

- Já rodamos uma porção e essa entrada que não chega.

- Não chegamos nem na entrada de Conceição de Macabu e você já quer chegar em Macaé?

Ele tentou disfarçar, mas a verdade é que ele achou que aquele trevo onde saímos anteriormente era o de Conceição. É muito desorientado!

Na chegada à Cabiúnas a fila pra passar pela barreira estava enorme, levamos uns quarenta minutos até chegar na barreira. Lá mediram nossa temperatura, perguntaram nome, idade e pediram comprovante de residência. Uma das atendentes perguntou a Vilson o que ele estava fazendo fora de casa. Ele olhou de cara amarrada e respondeu que estava no sítio descansando.

A gatinha Mari já estava no pé da escada nos esperando. Gato não faz festa como cachorro, mas do jeito dela demonstrou que estava satisfeita com nossa chegada. Ficou se esfregando nas nossas pernas e andando atrás da gente todo o tempo.

Lar doce lar! Mesmo com a casa cheirando a mofo, é bom voltar pra casa.


ABRIL DE 2020 

01.04 a 05.04.2020

Toda semana eu faço um bolo pro café, cada semana um bolo diferente. Nessa semana fiz um bolo com banana, mas a massa ficou meio pesada. Ivo, que sempre toma café conosco, é a garantia que o bolo não corre o risco de ficar esquecido na geladeira. Ele é doido por doce. Comeu do meu bolo e em seguida comeu do bolo que Eveli fez. Olhou pra Vilson e disse:

-Esse bolo de hoje não passou no teste do Imetro.

A concorrência é uma merda.

Depois do café Maria foi fazer as tarefas que o colégio tem enviado pros alunos fazerem durante esse período de quarentena e eu tenho tentado ajudar um pouco. Hoje ela me pediu exemplos de verbos da primeira conjugação. Pensei em algum pra ela conjugar e falei o primeiro que me veio à cabeça:

- Conjugue o verbo cagar no presente do indicativo.

Ela só ria e não conjugava nada. Não nasci pra professora, definitivamente.

Victor tem saído pra pescar todos os dias no final da tarde quando o sol está mais fraco. Ele vai pescar nos brejos que tem aqui no sítio e hoje Bernardo quis ir junto. Ajudou a catar minhocas (quem diria) e ficou lá por algum tempo. Victor tem pegado morobá e traíra, mas devolve pra água em seguida (pesca esportiva), mas não é por pena dos peixes não. É preguiça de limpar, temperar e fritar, diz que dá muito trabalho e pouco prazer.

Lá vem Bernardo com a latinha cheia de minhoca – tão bonitinho!

Hoje à noite eu fiz bolinho de chuva, o bolinho que lembra minha mãe. O meu bolinho não fica tão redondinho porque deixo a massa um pouco mais molinha e jogo direto na panela pra fritar. Esse negócio de ficar enrolando um por um é trabalho demais pra mim. Eveli e Maria disseram que o bolinho de chuva de Daniele, irmã de Eveli, parece um monte de tripinha, não fica redondinho. Talvez ela não esteja colocando fermento na massa.


Bernardo tem muiiiita fome. Um dia desses eu estava na pia lavando a louça do almoço, ele chegou na porta da cozinha e perguntou:

-Vovó, tem um lanchinho pra mim?

- Mas você acabou de almoçar.

-Ué, depois do almoço eu gosto de um lanchinho. 

Maria também não fica atrás. Às vezes estamos almoçando e ela pergunta o que vai ter na janta. Ô fome!

Dizem que toda crise traz também uma oportunidade. Certamente esse confinamento, ou distanciamento social, serviu para os cantores descobrirem que as lives podem ser uma ótima oportunidade de negócios. No grupo da família meus sobrinhos postam toda a programação de lives da semana e Leo e Andreza capricham nos vídeos dos dois dançando na sala de casa. Aqui no sítio Eveli e Victor assistem a todas as lives enquanto tomam uma cervejinha. Na TV é Corona vírus as vinte quatro horas do dia. Nos finais da tarde o Ministro Mandeta é a estrela do momento. Tô achando que esse senhor está mais pra celebridade do que pra ministro.

Num desses dias, quando começava a anoitecer, eu fui à cozinha e pela janela vi Bernardo e Maria conversando:

- Malia, olha aquela estrela linda lá no céu, só tem ela!

- É Buba

- É Buba? Ele já tá lá um tempão, né? Mais de um ano.

Que saudade, ele gostaria de estar aqui agora.

Amanhã retornamos a Macaé.


08.04 a 12.04.2020

Dessa vez eu trouxe um bolo que leva iogurte e gelatina de limão na massa. Pra essa semana Eveli fez uns biscoitinhos, que eu não sei do que é feito, e brownie. Trouxe também uns belisquetes pra tomar com cerveja, arsenal para acompanhar as inúmeras lives.

Na hora do café Vilson chegou na mesa com um copo e, distraidamente pediu:

- Coloca uma dose de café aí pra mim. Ih! Me enganei, é um gole de café.

Bebum é uma merda mesma.

Vicente, Valquiria, Soraya e Guilherme virão se juntar a nós. Ficarão até sábado.

As crianças ficaram contentes com a chegada deles. Maria agora tem a companhia de Soraya que tem a idade mais próxima da dela. Bernardo gosta de brincar com Vicente e adora Guilherme, que é um bebê. Ele pegou Guilherme no colo e disse “é meu filhinho”. Eveli também adora dar colo pra neném. Bernardo até ajudou a trocar a roupa de Guilherme, acho que pra ele é mais uma brincadeira.

Agora Victor arrumou uma companhia pra pescaria: Vicente. Lá foram os dois com os caniços rumo ao brejo. Devem estar lembrando os tempos de criança quando pescavam, tomavam banho no tanque dos peixes Tambacus, andavam a cavalo por toda essa região com os amigos da vizinhança....O tempo passou rápido, os cabelos já começam a branquear, os gostos mudaram, os amigos são outros. Tiveram uma boa infância, com muito mais liberdade do que os filhos tem hoje, outros tempos.

Estou com pena de Vicente e Valquiria, o colchão da cama não é dos melhores. Ainda bem que enfermeira dorme em qualquer lugar, segundo uma amiga que me diz que quando sobra um tempinho no plantão ela dorme sentada, deitada, encostado, do jeito que der.

Pro almoço fizemos um bacalhau com legumes ao forno e Vilson fritou uns filezinhos de cação pra quem não gosta de bacalhau. Eu amo bacalhau, de qualquer jeito : assado, frito, gratinado no suflê, todos os petiscos. Só não gostei muito do bacalhau fresco, daquele jeito que você fica sabendo que esse peixe tem cabeça.Depois do almoço Maria, Bernardo e Soraia passaram um bom tempo estudando. Não tem aula física, mas tem virtual. Será que isso vai dar certo?


À tardinha Eveli e Maria costumam se arrumar e ir pra baixo do pé de ipê, se balançar, ouvir música, tirar fotos. Maria costuma dizer que vão ao shopping passear. Vilson também gosta de ficar sentado lá olhando as vacas do outro lado da estradinha e o movimento das pessoas e carros que passam, são poucos, mas ajudam a quebrar o silêncio desse lugar. Hoje Eveli estendeu uma toalha, levou uns belisquetes, cerveja e enfeitou o piquenique com uma garrafinha com flores de bougainville.

À noite Eveli fez hambúrguer com molho gorgonzola. Uma delícia, a carne que Eveli preparou e o molho, tudo ótimo. Pena que hoje é sexta-feira da paixão e muitos não comem carne. Soraia já ia esquecendo, quando Vicente e Valquiria pediram a ela que não comesse carne. Acho que ela ficou com água na boca.

No dia seguinte pela manhã, Victor e a turma dele foram para Macaé. Resolveram não ficar para a Pascoa e não disseram o motivo. Que pena! Eu comprei ovos e ovinhos de Páscoa para fazer a caça ao tesouro com as crianças. Eles adoram essa brincadeira que sempre fazemos nesse dia.

Valquiria está sofrendo com cravos na sola do pé, dois grandões. Vilson ofereceu seus serviços pra retirar os cravos, com canivete amolado e sem anestesia. É assim que ele faz com os deles. Claro que ela não aceitou. Vai ao médico porque já retirou os cravos antes com uma podóloga e depois surgiram outros.

No final do dia Vicente e os demais também foram pra Macaé, como eles já haviam previsto. No Domingo levantei mais tarde porque dormi mal a noite, tomei meu café e em seguida fui pra rede, agora sem concorrência pois a casa está vazia. 

Passei a manhã lendo e tomando banho de sol. Que delícia.

Vilson reclamou do silêncio da casa sem as crianças. 

É estranho mesmo, parece que falta alguma coisa.

Depois do almoço retornamos pra Macaé, mas voltaremos na próxima semana.